Dois meses e meio se passaram, a perícia oficial foi concluída, o inquérito policial caminha para o seu fim e logo os culpados pela queda do edifício Real Class devem ser conhecidos. Enquanto não é divulgado o laudo que aponta as causas do acidente, as disputas judiciais entre a Real Engenharia e os atingidos pela tragédia continuam.
Mais de 40 casas já foram reformadas, duas serão completamente reconstruídas (apresentaram danos estruturais) pela Real Engenharia e a previsão é, segundo o engenheiro da empresa, Reginaldo Ferreira, que todo o trabalho seja concluído até final do mês de abril.
“A empresa já pagou 80% dos danos materiais, o senhor que ficou viúvo está morando num apartamento alugado e mobiliado pela Real, estão sendo negociados valores da indenização dele e da outra família que perdeu a casa, e quanto às famílias dos operários, eles estão recebendo os salários até que os valores das indenizações sejam levantados pela Justiça do Trabalho”, informou o advogado Roberto Lauria, que representa a empresa no âmbito criminal e acompanhou os depoimentos do inquérito.
Lauria acrescentou que todos os proprietários de apartamentos no edifício que desabou já foram indenizados e que os reparos no Edifício Blumenau - o mais atingido pelo colapso - foram feitos, restando a questão dos danos morais. “Não se discute a responsabilidade da empresa pelo ocorrido, o que o laudo oficial deve apontar é a culpabilidade. A empresa encomendou uma perícia particular do professor e engenheiro Nagib Charone, que apontou a falha do engenheiro calculista como causa da queda. Se ele erra, todos erram, pois o calculista é o primeiro profissional a ser contratado numa obra”, enfatizou.
Segundo ele, os proprietários e funcionários da empresa que estavam envolvidos nas obras do Real Class foram ouvidos pelo delegado Rogério Moraes Luz, pelos representantes do Ministério Público do Estado e pelos peritos do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves. “Agora aguardamos o resultado e nos preparamos para contestar, se for o caso”, arrematou o advogado da construtora.
O advogado de Antônio Emídio Araújo, representante farmacêutico que perdeu a casa e a esposa Maria Raimunda, contou que as negociações quanto aos danos materiais e morais sofridos andam num ritmo lento: “A empresa até o momento tem agido corretamente, estamos fazendo o orçamento para reconstruir a casa dele e negociando valores de indenização”.
OPERÁRIOS
Quanto às famílias dos operários, a espera pela entrega do laudo é fundamental para que eles possam refazer suas vidas. “Tive a primeira audiência nesta terça-feira, 12, e a juíza acertou nova audiência, porque precisa do laudo oficial. Não vai implicar em nada, mas de acordo com ela, acelera o processo de indenização”, informou Rosana, viúva do operário Manuel Paixão.
Mãe de 3 filhos, ela lembrou que a renda da família dependia do trabalho do marido. “Ele ia completar 36 anos e a estimativa de vida é de 72 anos, logo, o cálculo da indenização também leva isso em consideração, mas é aí que há discordância com a construtora. Eles me pagaram até agora apenas o salário do mês de fevereiro que ele tinha para receber, depois ficaram depositando um ‘adiantamento da indenização de quinze em quinze dias que somava um salário mínimo no mês e foi cancelado dia 15 de março”.
Ela informou que a juíza decidiu retirar do processo os valores que estavam em consignação, que devem estar liberados para Rosana até o fim dessa semana. “Ela também disse que a construtora vai ter que pagar os atrasados até o dia da nova audiência, que deve ser começo de maio. Independente de quem foi a culpa pelo que aconteceu, a construtora não pode transferir a responsabilidade”, apontou Rosana. Filho de Manoel Barros, o outro operário que morreu soterrado pelos escombros do prédio, Rosemiro esclareceu que o salário que a mãe dele recebia também foi cortado.
Maria Irene Pereira, a viúva, recebe apenas a pensão por morte do marido. “Isso é do direito dela e não foram eles que forneceram. Meu pai deixou dez filhos e esperamos chegar num valor justo de indenização na audiência marcada para o dia 19 de abril”, concluiu Rosemiro. (Diário do Pará)
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