Amolecer, tirar a casca, lavar bem, levar ao ralador, colocar na prensa, passar para o cocheiro, amassar, lavar novamente, recolocar na prensa, peneirar, escaldar e, por fim, levar ao forno. “Se não souber o ponto certo de todas as etapas, a farinha não é da boa”. A afirmação é da farinheira Ana Costa, que desde criança via os familiares tirarem o sustento da casa comercializando o produto. Moradora do município de Acará, no nordeste do Estado, ela conquistou fama pela qualidade de sua farinha e foi convidada a participar da “Farinhada”, competição promovida pela prefeitura em parceria com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater), que escolhe a melhor farinha do município. Realizado ontem, o evento já está na 16ª edição e faz parte das comemorações de aniversário de Acará, que completa 136 anos amanhã.
“Somos o maior produtor de mandioca do país e queremos não apenas fortalecer a produção, mas também alcançar um alto nível de qualidade”, explica o secretário de Agricultura do município, Edinaldo Silva. Representantes de quatro comunidades locais disputavam lado a lado o produto mais saboroso, bonito e higiênico. Sob os olhares atentos da população, eles se concentraram durante 5 horas até entregarem a farinha pronta aos seis jurados.
Para o vencedor, Josué dos Santos, presidente da Cooperativa São João do Tapaquara, a diferença esteve na higiene e seleção da mandioca. “Tentamos fazer da maneira mais limpa, manuseando com cuidado e escolhendo boas raízes. Ficamos muito felizes de ganhar logo na primeira vez que participamos”, afirmou. Como prêmio, a comunidade levou equipamentos processadores de farinha e um casal de suínos.
POBREZA
Apesar da grande produção, que deve chegar a 900 mil toneladas por ano em 2011, Acará ainda não transpôs o crescimento dos números ao desenvolvimento da população. Dos 54.000 habitantes, 80% vivem na zona rural e têm a agricultura como a principal fonte de renda. “Em todo o município existem apenas três casas de farinha mecanizada. Tudo acontece de forma artesanal, sem tecnologia”, explica o engenheiro agrônomo Rosomiro Batista.
TRADIÇÃO
O evento já está na 16ª edição e faz parte das comemorações de aniversário de Acará, que completa 136 anos amanhã. A produção deve atingir 900 mil toneladas este ano.
Cidade quer mais investimentos
Carente de investimentos públicos, a cidade não atrai a iniciativa privada por apresentar problemas de infraestrutura. As distâncias são muito grandes e as comunidades produzem de forma isolada, mantendo relações comerciais apenas com os atravessadores, donos de embarcações que revendem a farinha em Belém. “O pior é que a gente não consegue deixar a farinha. O povo se acostumou a viver só disso e fica acomodado”, diz Ana Costa. A renda média das famílias que vivem da extração de mandioca é de R$ 415 mensais, segundo dados da Emater.
Marizete Pereira, uma das produtoras que competiu na Farinhada, relata que a dificuldade de locomoção, já que não existe transporte público a todas as áreas, é outro empecilho ao aumento de renda. “Não temos energia elétrica nem água encanada. Sem poder vir à cidade, temos que vender a farinha lá mesmo a um preço muito baixo, menos de R$ 1 o quilo”, afirma.
Segundo Edinaldo Silva, secretário de Agricultura, a Prefeitura tem firmado parcerias com órgãos estaduais e federais para melhorar a situação das comunidades. “Nosso foco atual é diversificar a economia local, capacitando os produtores e instruindo-os sobre noção de comercialização, além de formar cooperativas para ampliar a produção”. Atitude essencial para o diretor técnico da Emater, Humberto Reale. “Os pequenos produtores só vão melhorar quando produzirem mais, alcançando pelo menos 1000 toneladas por hectare. Hoje, não chegam nem a 500 toneladas”, explica.
RODOVIA
São 33 km de buracos, falta de pavimentação e muita lama. A rodovia Perna-Sul Acará, que liga a Alça Viária a PA-252, pode ser considerada o maior entrave para visitar o município de Acará. Promessa de campanha da gestão anterior, a via está em péssimas condições de tráfego, sem sequer um poste de iluminação. Com chuva, a situação é ainda mais complicada e requer atenção total dos condutores. “O carro desliza, as pontes são muito estreitas e, com tantas ladeiras, não dá pra ver se vem outro veículo na direção oposta”, conta o motorista de ônibus Celso Peneza.
“Enquanto o acesso for limitado, Acará não conseguirá se desenvolver economicamente”, frisa Humberto Reale, da Emater. (Diário do Pará)
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