O engenheiro calculista Raimundo Lobato da Silva é o primeiro indiciado no inquérito que apura o desabamento do edifício Real Class, de 34 andares, ocorrido no dia 29 de janeiro passado e que resultou na morte de três pessoas. Ontem, ele esteve pela segunda vez na Divisão de Investigações e Operações Especiais (Dioe) e já foi interrogado nessa condição, sendo indiciado por homicídio culposo e lesão corporal culposa pelo delegado Rogério Moraes. “Mortes aconteceram motivadas por imperícia, negligência e imprudência. Daí o indiciamento”.
O promotor Carlos Stalinidi, que acompanha o caso, disse que Lobato confirmou seu depoimento anterior apenas em parte. No primeiro depoimento, ele afirmou que o cálculo do projeto não teria levado em conta a variante do vento. “No depoimento de hoje (ontem) ele já disse que levou em conta sim essa variante, mas deixou claro que o vento não derrubaria o prédio”.
Mais uma vez o calculista questionou a qualidade do concreto utilizado na obra e a contaminação por lama nas estacas da fundação, que teria colaborado na ruína do prédio. “O engenheiro reafirmou que o projeto de cálculo foi adequado e atendeu a todas as recomendações técnicas”. Apesar de ter o direito de se negar a responder as perguntas, Lobato respondeu a todos os questionamentos do delegado e do Ministério Público.
Ao ser indagado sobre o motivo do uso da bitola de 4,2mm dos estribos dos pilares na obra e não os de 5mm como manda a norma técnica, o calculista disse que pesou na decisão a “questão econômica”. “Todo o projeto foi feito com essa bitolagem e o calculista não o contestou”, afirmou o promotor. Ele disse que a norma teria mudado em 2003 e que vários prédios em Belém teriam sido construídos com essa medida de vergalhão, sem problema algum”.
Cleiton Ferreira, advogado do engenheiro, informou que assim que o processo entrar na esfera judicial irá solicitar uma terceira perícia, feita por peritos de fora para esclarecer divergências das duas primeiras. “É claro que não houve erro de cálculo. Tudo não passou de um erro de interpretação da imprensa”. Ele reafirmou que houve a contaminação por lama na fundação. “O concreto era batido na obra mesmo e o material usado pode ter influenciado na resistência do concreto. Não houve por muito tempo mestre de obras no canteiro de obras do prédio”.
Carlos Paes, proprietário da Real Engenharia, e Carlos Júnior, seu filho e engenheiro residente da obra, serão ouvidos na Dioe na próxima quarta-feira, às 14h15. “Até esse dia tomaremos a decisão se eles serão indiciados ou não”, disse Moraes.
RENATO CHAVES
Rogério Moraes informou que o depoimento de Lobato foi “muito esclarecedor” e que embasará os questionamentos a serem feitos aos proprietários da empresa de engenharia. Mais uma vez Moraes informou que o laudo que está balizando seu trabalho foi o elaborado pelo Centro de Perícias Científicas Renato Chaves (CPC), que apontou como causa do desabamento erro de cálculo estrutural e uso de material inadequado na obra.
UFPA
Já o laudo da UFPA, encomendado pela comissão de órgãos de engenharia e de entidades ligadas ao setor imobiliário e construção civil, apontou como causa apenas erro de cálculo estrutural, incluindo o vento como um dos fatores que contribuíram para o desabamento. (Diário do Pará)
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