“Há entre o tempo e o destino / um caso antigo, um elo, um par...” Assim sibila a voz afinada de Nilson Chaves, na canção romântica, mas engajada, que remete às páginas viradas da hidrelétrica de Tucuruí, o megaprojeto que criou um monstro no seio da floresta, sugou energia das veias abertas da Amazônia para nutrir outras três regiões, pavimentou o crescimento brasileiro, mas sempre empurrou o umbigo inflamado com a barriga.
“Que pode acontecer, menino / se o tempo não passar?” O tempo passou. A gigantesca hidrelétrica de Tucuruí já não basta ao modelo de produção de energia e ao excessivo consumo do País (32 gigawatts/hora em um mês). Entre tapas e beijos, foi gerada outra criatura no ventre do Pará, o Projeto Belo Monte, fecundado em 1975 e desde então espicaçado por uma fauna de inimigos de todas as espécies ou ressabiados de muitos ramos. Mas uma sutil diferença afasta o destino forjado no rio Tocantins do potencial futuro da Grande Volta do Xingu. Antes mesmo do parto, um batalhão de pessoas cerca a parturiente. Algumas propõem o aborto, ungindo a usina à condição de anticristo do desenvolvimento sustentável; outras querem apenas um nascimento saudável, ainda que o “bebê” gigante tenha problemas congênitos.
O governador Simão Jatene se posicionou, na semana passada, entre os acólitos do bem-estar. Embrenhou-se na mata das discrepâncias que cercam o projeto da terceira maior hidrelétrica do mundo, com capacidade de gerar três mil MW a mais do que Tucuruí, até aqui a recordista nacional na produção de energia. Alinhavou um inédito acordo capaz de mitigar alguns dos mais nocivos impactos de Belo Monte. Obteve do consórcio Norte Energia, gestor da obra - com previsão de início em junho – compromissos que não tinham sido aventados nem mesmo pelo vigilante Ministério Público Federal, até aqui o mais eloquente diagramador das externalidades negativas de Belo Monte.
O maior exemplo do êxito de Jatene se apresentou na quinta-feira passada, ao reunir-se, no Palácio dos Despachos, com a nata dos técnicos imbuídos da missão Belo Monte. Abriu a reunião com humor peculiar: “Nunca eu estive tão perto de gente com tanto dinheiro”, brincou o governador, revezando os olhos entre o diretor do BNDES escalado para receber a proposta estadual, Elvio Lima Gaspar, e o presidente do Consórcio Norte Energia, Carlos Nascimento, para gáudio da plateia. Mesmo arrancando risos, Jatene falava sério e indicava ali, visto a grosso modo, as reais intenções do encontro.
Belo Monte está orçado em R$ 19 bilhões, mas estima-se que seu custo será 60% maior, em torno de R$ 30 bilhões. Só as compensações sociais derivadas da obra e dirigidas aos 11 municípios onde os impactos serão sentidos custará a bagatela de R$ 2,2 bilhões. Nunca um projeto instalado no Brasil investiu tamanha fatia de recursos para compensar suas externalidades negativas.
Ao final de uma série de reuniões, o governador obteve do Consórcio e do BNDES a garantia de que, imediatamente, tão logo se definam junto aos prefeitos da região, quais as obras emergenciais a serem iniciadas ali, os município entram na ebulição dos operários, antes até do início da grande obra da usina, caso em dez dias, como se espera, saia a tão esperada Licença de Implantação. Leia mais no Diário do Pará
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