É deitado em frente à televisão, com um bloco de papel e uma caneta nas mãos, que Felipe Calisto, 13 anos, espera pelo dia em que vai poder estudar gastronomia para se tornar um cozinheiro profissional. Impossibilitado de andar, ele passa a maior parte do seu tempo anotando as receitas que posteriormente vai pedir para que sua mãe faça. “É fácil. Está tudo anotado”, tenta convencê-la.
Há um ano, sua rotina era bastante diferente. Suas tardes eram tomadas pelas saídas com amigos para brincar na rua de casa, onde empinava pipa ou andava de patins. Mesmo escondido dos pais, entrou para um time de futebol de salão, onde jogava como atacante. Quando ia ao colégio, sua matéria preferida era ciências. Sempre gostou de estudar. Porém, sua vida foi alterada quando, na volta de uma de suas brincadeiras, sentiu fortes dores nas pernas.
As manchas roxas que apareceram na canela vieram depois, mas não despertaram grande atenção em um menino ativo e acostumado a se machucar em brincadeiras mais travessas. Ainda assim, com a persistência da dor que levava Felipe às lágrimas, sua mãe, Sônia Correia da Silva, o levou por algumas vezes ao hospital. Apesar da realização de vários hemogramas, exame realizado a partir de uma amostra de sangue, nada de diferente era constatado. “Nunca dava nada, mas ele continuava sentindo as pontadas”, conta Sônia.
O diagnóstico para a dor sem explicação de Felipe veio aos 12 anos, quando, além das manchas, ele passou a ter febre alta. Antes que ele conseguisse colher um novo hemograma para tentar identificar a causa da febre, veio o susto. “Não deu tempo. Um dia ele sentou e começou a chorar muito. Levamos ele para o hospital e as plaquetas dele estavam muito baixas”, lembra a mãe do adolescente. “Ele teve que ficar uma semana na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) e tomou três bolsas de plaquetas”.
Enquanto o filho melhorava na UTI, Romildo Calisto, pai de Felipe, recebeu a notícia. “Só foi eu fechar a porta que a médica disse: ‘Pai, o seu filho tem leucemia’”, ele nunca se esqueceu do susto. “Parecia que o mundo ia desabar em cima de nós”.
Após o diagnóstico, era o momento de entender o que significava tudo o que estava acontecendo com Felipe. Sem saber a origem da doença, os pais dele tiveram que aprender gradativamente a conviver com as necessidades que a leucemia impunha. “Eu nem sabia o que era [a leucemia]. Eu dizia: ‘o meu filho nasceu com quatro quilos, eu amamentei ele até os três anos, como ele tem essa doença?”, questionava Sônia.
A vontade de encontrar o causador da doença diagnosticada no filho era grande, porém, a verdade é que não há explicação para o que aconteceu com Felipe. De acordo com a médica hematologista, Alessandra Bentes, não existe maneira de prevenir a doença. O que há é o diagnóstico precoce. “A leucemia é multifatorial. Pode ser desencadeada por exposição a substâncias tóxicas, produtos químicos. Pode ser causada por alterações genéticas, mas pode ser, também, que a pessoa tenha essa alteração e nunca desenvolva o câncer”. (Diário do Pará)
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