A perseguição policial num bairro de periferia termina com um corpo crivado de balas estendido no chão. Alguém traz um pano colorido e cobre o homem morto. Os pés ficam a descoberto, tendo ao lado os chinelos gastos. Já não há mais pressa, não há mais ambições ou sentimentos diversos. Apenas um corpo estendido no chão à espera de legistas e outros profissionais do mesmo gênero. É um crime a mais, uma morte a mais no cômputo das estatísticas criminais que tomam conta da capital paraense. Faz parte do cenário das grandes cidades, é forçoso admitir.
O que destoa nesse cenário é o olhar das crianças. Estão sempre ali, a menos de um metro dos cadáveres. Riem. Brincam. Olham tudo como se aquela cena fosse a mais comum de todas, como se aquele que está ali jogado no terreno seco, com marcas de perfuração no corpo, com o sangue espalhado ao redor, fosse uma diversão a mais sob o sol quente.
É como se a novidade não fosse tão nova assim, não despertasse mais que uma pausa nos folguedos e na correria da idade. Tudo é brincadeira. E oportunidade para, quem sabe, aparecer na imagem de um cinegrafista ou nas lentes de um fotógrafo. Ao lado do morto ainda insepulto, crianças posam, como numa festa de aniversário. Quem sabe comemoram a própria sobrevivência.
Mas não deve ser nisso que outra criança pensa, enquanto deixa o corpo ir e vir num balanço no alpendre da própria casa. À frente, casas de madeira, uma rua estreita de terra, poças de água e mato. É um cenário de pobreza, algo que também já se tornou comum aos olhares menos atentos.
A criança que brinca no final da tarde na varanda de casa tem à sua frente um homem morto, sendo examinado por peritos legistas. Nada disso interfere no comportamento dela. A brincadeira prossegue, indiferente. É como se tudo aquilo fosse ficando cada vez mais natural. E acaba sendo naquela realidade.
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