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Desfile da Daspu gera debates em Belém

A fragilidade das fronteiras amazônicas é a principal garantia para que a prostituição, o tráfico e a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis ganhe contornos de problema social que deve ser trabalhado de forma conjunta por todos os governos que

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A fragilidade das fronteiras amazônicas é a principal garantia para que a prostituição, o tráfico e a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis ganhe contornos de problema social que deve ser trabalhado de forma conjunta por todos os governos que formam a Amazônia. A avaliação é da médica Laura Gonçalves, gerente do programa de DST/Aids de Roraima. “A região Norte é solta”, diz ela.

Não é uma avaliação desprovida de realidade. Segundo Laura Gonçalves, as zonas de fronteira vivem uma realidade completamente diferente dos outros lugares. Roraima é um exemplo. “As pessoas têm um acesso fácil de ambos os lados. É um cenário por si só diferenciado”, diz. O Estado faz fronteira com Venezuela e Guiana Inglesa. Fica difícil estabelecer um controle de epidemias.

Há alguns anos Laura Gonçalves vem fazendo um trabalho junto a mulheres dessas áreas fronteiriças. Em relação à Aids, a faixa etária mais atingida é a que vai de 30 a 50 anos. E, para surpresa da pesquisadora, com escolaridade de ensino médio e nível superior.

Na fronteira com a Venezuela o problema são os garimpos venezuelanos. “Os garimpeiros vêm atrás de mulheres brasileiras, sejam elas prostitutas ou não. E não têm o costume da camisinha. E para agravar mais a situação, há uma comunidade indígena no meio do caminho. Já existem muitos casos de Aids entre indígenas”, diz.

Questões como essas foram trazidas por Laura Gonçalves durante o Encontro Regional DST/HIV/Aids e Hepatites Virais na Prostituição, realizado nos últimos três dias em Belém. O encontro serviu para aproximar ações, mas também acabou, involuntariamente, por abrir fendas em percepções diferentes sobre o mesmo tema.

DOIS LADOS

Enquanto pesquisadores como Marceu Hazeu, da ONG Sodireitos, denunciam e tentam combater a questão do tráfico de mulheres nessas áreas de fronteira, as organizações ligadas à Rede Brasileira de Prostitutas querem evitar o discurso de vitimização da prostituição. “Queremos que reconheçam como uma profissão, uma atividade legal, feita por mulheres que sabem o que querem para si”, diz Carmen Lúcia Paz, prostituta e cientista social do Rio Grande do Sul.

“Essa história de tráfico é mentira”, afirma Vera Lúcia Oliveira, 53 anos, e um histórico de prostituição que, segundo ela, ‘vai longe’. “Fui muito feliz e ganhei dinheiro”, diz ela, relatando passagens pela Guiana Francesa, áreas de garimpo, entre outras. “Comecei por necessidade, vendo filho passar fome”, diz ela.

O currículo de Vera é extenso. Consta como auxiliar de escritório, almoxarifado, garçonete, gerente de restaurante na França, vendedora, técnica de enfermagem. Mas foi a prostituição que deu a ela duas casas e um terreno, entre outros imóveis.

“Tem muitas paraenses indo para essas fronteiras”, garante Sebastião Diniz, do Forum de ONG/Aids de Roraima. O Estado campeão é o Maranhão, mas paraenses e rondonienses também fazem parte dessa estatística. “Elas costumam ir para o Amazonas. De lá a rota segue para a Venezuela, principalmente”, diz ele.
Os lugares principais são Ilha de Margarita e Porto de La Cruz. “O objetivo acaba sendo tentar chegar à Europa, já que a passagem é barata de lá”, diz.

“Muitas das mulheres que fazem prostituição não gostam que falem em tráfico de pessoas. Elas dizem que sabem o que estão fazendo”, afirma Diniz. Segundo ele, essa ‘vitimização’ só ocorre quando elas se sentem coagidas.

“Há mulheres de Capanema, de Castanhal, de Belém”, diz Amujaci Brilhante, uma das criadoras do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (Gempac). “Nós já fizemos um trabalho de prevenção às doenças em áreas de garimpo e em zonas de fronteira”, diz ela. Mas é um trabalho, como elas bem frisam, voltado à saúde, não criminalizando nem vitimizando a prostituição. (Diário do Pará)

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