Acordar cedo já com o barulho dos carros e o sol batendo no rosto, levantar, escovar os dentes, preparar a comida e sair para trabalhar. Essa poderia ser a rotina de qualquer dona de casa, em qualquer canto do mundo, e até certo ponto é.
A diferença está no detalhe que muitos ignoram: a “dona de casa” em questão é Elen Natália, de 21 anos, e o que ela tem para chamar de lar é o asfalto debaixo do elevado da Avenida Doutor Freitas.
Elen não tem documentos, não sabe ler nem escrever, e seu sonho é apenas um: “queria muito ter um emprego, gosto muito de cozinhar e sonho em trabalhar fazendo lanche, coxinha, sabe?”, revela.
Natália diz com orgulho que é uma cozinheira de mãos cheias, de forno e fogão, doces e salgados, mas as refeições preparadas por ela são feitas na calçada, com um fogão improvisado onde dois tijolos e um punhado de carvão fazem às vezes do eletrodoméstico com ingredientes arrecadados na vizinhança e saciam a fome do casal.
Ela vive com José Maria Santos Júnior, de 41 anos, natural de Parauapebas. O casal que está junto há nove anos já teve dias melhores, José conta que os dois moravam na Terra Firme, em uma casinha simples de madeira que foi incendiada no final do ano passado “esperamos por quase dois meses na casa de uns parentes dela a ajuda da prefeitura chegar, as promessas eram muitas, mas nunca chegou” diz.
José, que acabou tomando a decisão de partir para a vida nas ruas com a mulher. A dupla deixou o teto dos familiares de Elen porque, segundo Junior, “eles não eram ‘flor que se cheire’, todo mundo muito errado” explica.
“Não é nada fácil. Aqui é ruim, muito ruim. Quando dá, a gente paga 10, 15 reais pra dormir num hotelzinho, a rua é muito perigosa” diz ele, que já foi motoboy por muitos anos, mas diz nunca ter recorrido ao crime como meio de sobrevivência, “quando a fome aperta a gente pede” diz.
Agora a família sobrevive das vendas de bombons em coletivos, mas os dois acreditam que a situação é passageira “a gente espera que alguma hora Deus olhe e veja que a gente tá precisando, enquanto isso a gente segue levando a vida que dá”, diz a esperançosa Elen. (Diário do Pará)
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