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Biodiesel: de revolucionário a vilão em potencial

Lançado no Brasil há cerca de seis anos como síntese da combinação entre o engenho humano e a moderna tecnologia, o biodiesel foi recebido como um produto revolucionário, capaz de estabelecer, por suas implicações econômicas e ambientais, um novo paradigm

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Lançado no Brasil há cerca de seis anos como síntese da combinação entre o engenho humano e a moderna tecnologia, o biodiesel foi recebido como um produto revolucionário, capaz de estabelecer, por suas implicações econômicas e ambientais, um novo paradigma no sensível mercado de combustíveis. Problemas ainda ignorados pela grande massa de consumidores, mas alguns deles potencialmente graves, já preocupam bastante os especialistas. A tal ponto, aliás, que uma densa nuvem de incertezas se projeta sobre o futuro do programa.

Suas reconhecidas vantagens comparativas, sob os aspectos sociais, econômicos e ambientais, não são suficientes para eliminar as desconfianças que hoje envolvem o combustível. Em Belém no final do mês passado, para participar do Encontro Regional dos Revendedores de Combustíveis da Região Norte, o químico Robson Lewis, consultor da área de combustíveis, deixou no ar algumas advertências. Ele disse que a perda de qualidade do biodiesel, em decorrência da formação de borras, pode eventualmente dar origem a acidentes graves.

O problema, conforme frisou o consultor, é que o entupimento de filtros, impedindo a injeção adequada, provoca a redução de potência do motor e a consequente perda das condições de dirigibilidade. “Nós estamos falando de vidas humanas em risco”, afirmou o pesquisador, alertando sobre a possibilidade de se criarem situações reais. “Podemos imaginar, por exemplo, o risco da perda de potência do motor de um veículo, que pode até ser ambulância, durante uma ultrapassagem”, disse ele. “Ou ainda a possibilidade de uma embarcação ficar à deriva em alto mar; ou a hipótese de paralisação do gerador de um hospital”, acrescentou.

Robson Lewis deixou claro que não se pode pensar em receitas mágicas como solução possível para os problemas que afetam o biodiesel. “A solução deve vir como resultado da cultura, do aprendizado e da boa vontade de todos os atores desse filme”, disse ele. E quem são os atores? Segundo o consultor, são os produtores de biodiesel, os refinadores, os varejistas – a rede de postos revendedores –, as distribuidoras e o próprio governo, representado pela Agência Nacional do Petróleo.
A única certeza existente até agora, conforme frisou, é a de que não existe o menor risco de paralisação do programa. “O biodiesel é irreversível, porque ele é bom para todos. Gera renda, gera receita, gera trabalho e ainda reduz a polução do meio ambiente”, assinalou. A mesma convicção foi exposta pelo diretor da área de biocombustíveis (biodiesel e etanol) da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes, Delfim Oliveira.


Por enquanto, ele admite apenas que não é recomendável a elevação do percentual de mistura do biodiesel ao diesel comum, de 5 para 7 por cento, como pretendem os produtores. Delfim Oliveira destaca, a propósito, que os problemas de entupimento e mau funcionamento dos motores começaram exatamente depois do aumento do percentual de 2% para os atuais 5%, a partir de janeiro do ano passado.

ANP
A preocupação com os problemas relacionados com a formação de resíduos, após o início da adição de 5% de biodiesel ao diesel comum, é tão grande que a Agência Nacional de Petróleo já criou três grupos de estudos para fazer avaliações em campo. Um desses grupos, responsável pela área de transporte, vem monitorando as características do biodiesel e do diesel comum no eixo que vai do Rio Grande do Sul ao Paraná.

Técnicos e especialistas das diferentes áreas envolvidas direta ou indiretamente com o mercado de combustíveis estão unanimemente de acordo quanto à existência dos problemas, mas divergem sobre as dimensões que eles possam alcançar e quanto às soluções possíveis. O diretor da área de etanol e biodiesel da Fecombustíveis, Delfim Oliveira, afirmou em Belém que, a exemplo do Brasil, outros países vêm fazendo também experiências com biodiesel, utilizando para isso diferentes matérias-primas, tanto de origem vegetal quanto animal. “E esses países, com absoluta certeza, ainda que cada um em seu nível, acabam tendo problemas parecidos”, assinalou. O que atua como diferenciais negativos, no caso brasileiro, conforme frisou, são fatores como o tamanho continental do país e as enormes variações térmicas que caracterizam algumas de suas regiões. “E já existem estudos comprovando que a mistura do biodiesel é extremamente sensível a essas variações”, finalizou. (Diário do Pará)

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