Há um tempo entre a pergunta e a resposta que parece conter toda uma vida. Maria Rosa Braga Nunes, 48 anos, vira o rosto, olha para a parede. A voz quase não sai. A pergunta: o que ela gostaria de ter feito na vida. A resposta: ‘queria muita coisa boa, mas não deu’. Maria Rosa tem câncer de mama. Um mal que já lhe atacou fígado e pulmão. O tratamento é feito em casa, com a ajuda de uma equipe de saúde. É longe das enfermarias e quartos impessoais de um hospital, rodeada pela família, que a ex-doméstica enfrenta uma doença que lhe subtraiu um seio, mas não arrancou dela a serenidade e o sorriso.
Desde o dia 15 de junho de 2011, Maria Rosa está sob os cuidados da Clínica de Cuidados Paliativos e Dor (CCPO) do Hospital Ophir Loyola. Em vez de medicações invasivas, uma atenção mais próxima por parte de uma equipe constituída por um médico, uma psicóloga, uma assistente social e uma enfermeira.
“A ideia é estabelecer as condições necessárias à assistência em cuidados paliativos para o câncer, promover o controle da dor e demais sintomas, proporcionar o acompanhamento e intervenção psicológica, social e espiritual, assim como fornecer um sistema de suporte afetivo ou familiar”, diz o médico Sâmio Pimentel, um dos autores do livro “Tempo de Amor - a essência da vida na proximidade da morte”, que aborda a difícil fronteira entre o limite das possibilidades da medicina diante da finitude da vida.
É algo ainda visto com certa desconfiança entre alguns profissionais. Acostumados a curar, a lidar com a vida, médicos às vezes tem dificuldade em aceitar que em determinados momentos não há mais nada a fazer terapeuticamente. A cura não é mais possível, mas amenizar a dor e dar qualidade de vida ao paciente sim. É aí que entra o cuidado paliativo. “Essas pessoas que estão fora da possibilidade terapêuticas atuais precisam de um atendimento diferenciado”, diz a médica Roberta Costa, que chefia a Clínica.
A assistência integral é garantida por uma equipe multidisciplinar constituída de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogas com apoio de nutricionistas, farmacêuticos e terapeutas ocupacionais e todo um suporte de procedimentos hospitalares especializados.
Atualmente cerca de 90 pacientes receberam e recebem esse tipo de assistência na clínica. No Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD) até o mês de setembro foram atendidos 187 pacientes. No SAD são atendidos diariamente três pacientes e mensalmente em torno de 60 pacientes. “A visita em domicílio traz mais comodidade. É uma extensão do atendimento ambulatorial. A maioria dos pacientes está acamada, com a resistência baixa e dificuldade de locomoção como lesões no osso ou no pulmão”, diz Roberta Costa.
Maria Rosa recebe a equipe numa manhã de quinta-feira. Mora numa casa de madeira no bairro do Barreiro. Por todos os lados há imagens e cartazes de Nossa Senhora de Nazaré. Por conta da doença, acumula líquidos no abdome, que incha toda a barriga. A paracentese, o procedimento de retirada desse líquido, dura quase uma hora e enche três vezes uma bacia de quatro litros. Durante esse tempo, Rosa conversa com Pimentel e com o restante da equipe, a psicóloga Karen Santos, a enfermeira Gisele Silva e a assistente social Ana Lídia Sardinha.
A primeira visita da equipe foi no dia 22 de junho. “É sempre um momento de acolhimento, de contatos iniciais na casa do paciente”, diz a psicóloga.
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