Uma matemática incompreensível se institui na Secretaria de Saúde do Município de Belém. Desde 2008, o balanço fiscal tem saldo positivo, com sobra de recursos não gastos durante períodos trimestrais. Enquanto isso, populares enfrentam filas, faltam médicos, unidades estão depreciadas. E a justificativa para os problemas denunciados é sempre a mesma: falta dinheiro. Faz sentido?
Em janeiro de 2010, o saldo nas contas da secretaria era de R$ 33,65 milhões de reais. Em abril do mesmo ano, R$ 33,81 milhões, seguidos por R$ 39 milhões em julho, R$ 24 milhões em setembro e R$ 16,92 ao final de dezembro. Todas as quantias representam dinheiro em caixa que não foi revertido em serviços à população.
E nesse ano tudo indica que não será diferente. Levando em conta o balanço dos dois primeiros trimestres apresentados pela Sesma à Câmara Municipal de Belém, iniciou-se o segundo semestre de 2011 com quase R$ 23 milhões em recursos disponíveis.
Junto ao montante financeiro estava o Relatório de Gestão do último ano. Lá, consta que apenas 37% das metas estabelecidas pela própria secretaria foram cumpridas. Uma delas, referente à garantia de tratamento a 100% das mulheres diagnosticadas com lesões precursoriais do câncer do colo do útero, em nível laboratorial, obteve 0% de resultado.
Além do dinheiro não investido, outro aspecto intrigante é o gasto com serviços como lavagem de roupa hospitalar e fornecimento de refeição, principalmente porque há duas semanas foi denunciada a distribuição de “quentinhas” estragadas no Hospital de Pronto Socorro Municipal Mário Pinotti, no bairro do Umarizal.
Segundo o vereador Marquinho (PT), presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal de Belém, “mais que uma prestação de contas, os dados apresentados pela Sesma representam uma confissão de culpa, diante do caos verificado na saúde da cidade, com gente morrendo na porta dos prontos-socor ros, a oferta de comida estragada a pacientes e servidores e a falta de medicamentos fundamentais nas farmácia s populares, enquanto a prefeitura anuncia sobra em suas contas, o que se configura em ato de total desrespeito à vida e ao povo de Belém”, frisou.
Comportamento insatisfatório para usuários de um sistema ineficiente, precário e desumano, como descreveram os personagens desta reportagem, que enfrentam constantemente a falta de alguns dos serviços que registraram sobras de recursos.
LEITOS DÉFICIT
Segundo relatório, Belém conta com 2.369 leitos do SUS, o que corresponde a 1,65 leito a cada mil habitantes. Índice abaixo do recomendado pela Organização Mundial de Saúde, que é de 2,5 leitos por mil habitantes.
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