As pesquisas científicas no Brasil vivem a promessa de ganhar novo fôlego com os incentivos do governo federal anunciados no início deste ano. São novos programas de bolsas, investimentos em infraestrutura e menos burocracia. De olho na definição de políticas que deverão conduzir o país para um novo patamar de desenvolvimento científico e tecnológico ao longo da próxima década, as Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa do Norte (IES/IP-N) começaram a discutir e a propor aos órgãos de fomento ações de inclusão da região nos projetos nacionais de desenvolvimento da pesquisa científica e da pós-graduação brasileiras.
As diferenças regionais em relação ao desenvolvimento científico e tecnológico refletem as dificuldades para a fixação de pesquisadores no Norte do País. Essa situação se confirma com a distribuição de recursos para a produção científica e com o número de doutores presentes nas universidades da região.
Embora o número de cursos de pós-graduação tenha dobrado na última década – atualmente, são ofertados 4.722 em todo o país, entre cursos de mestrado e doutorado –, o percentual ainda é pequeno nos Estados da Região Norte, a qual possui 203 cursos de pós-graduação stricto sensu, o que corresponde a 4,26% dos cursos no País. Considerados apenas os de doutorado, esse percentual cai para 3,16%. O Sudeste concentra o maior número de cursos, com 2.396; em seguida, está a Região Sul, com 956; o Nordeste detém 830 e o Centro Oeste, 337 cursos.
Os recursos de fomento e as bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) destinados às instituições de ensino superior do Norte também são reduzidos e não chegam a 5%. "Vivemos, na Amazônia, um momento de necessidade de criação de um novo modelo de desenvolvimento, baseado na sustentabilidade de nossos recursos naturais e isso exige conhecimento científico de ponta. Precisamos dominar, pelo conhecimento, essa riqueza natural e, para isso, precisamos de recursos humanos (pesquisadores doutores) que possam fazer as pesquisas necessárias e formar novos doutores", observa Emmanuel Tourinho, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Pará.
Atualmente, formação e fixação são principais desafios
Segundo o pró-reitor, é importante reconhecer os avanços dos últimos anos com a criação de novas universidades, a abertura de cursos de pós-graduação e a incorporação de algumas centenas de doutores às instituições da região. Porém a necessidade de maior investimento na formação e fixação de novos doutores na Amazônia permanece entre os principais desafios apontados pelos pró-reitores de Pesquisa e Pós-Graduação das IES da Região Norte.
O assunto fez parte das discussões do Fórum Regional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação das IES Brasileiras, realizado no primeiro semestre de 2011, em Boa Vista, Roraima. "A preocupação é com a definição de políticas de desenvolvimento científico e tecnológico na Amazônia para os próximos dez anos. Nesse contexto, o papel de lideranças na região é fundamental para que isso aconteça na direção desejada", enfatiza Emmanuel Tourinho. "Isso nos impõe a tarefa de pensar políticas novas, permitindo que, no prazo máximo de uma década, se alcancem respostas mais efetivas para essas necessidades", acrescenta.
Durante o Fórum Regional, os pró-reitores elaboraram a Carta de Boa Vista, na qual constam informações sobre as diferenças regionais em relação ao desenvolvimento da ciência e da pós-graduação e propostas para superá-las, como a qualificação dos docentes das instituições de ensino superior que estão na Amazônia. Outra proposta é criar atrativos para que doutores titulados em outras regiões venham para cá formar novos grupos de pesquisa. Um terceiro conjunto de ações está voltado à expansão do sistema de pós-graduação na Região Norte, com a abertura de cursos de mestrado e doutorado.
Esse documento foi encaminhado para as agências de fomento à pesquisa e à pós-graduação, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o CNPq, os Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, as fundações estaduais de apoio à pesquisa, os secretários estaduais da região, as sociedades científicas nacionais e as lideranças políticas. "Queremos sensibilizar esse conjunto de agentes para a necessidade de uma ação mais consistente e articulada, voltada ao desenvolvimento científico e tecnológico na região", afirmou Emmanuel Tourinho.
De Montpellier para a UFPA
O convite para produzir ciência na Amazônia surgiu como um desafio para o pesquisador Jean Michel Lafon. Ele nasceu na cidade de Bagnols sur Cèze, Gard, no sul da França, e lá se formou em Geologia, na Universidade de Montpellier, onde também fez o doutorado.
Em 1986, foi convidado pela direção do Centro de Geociências da UFPA para consolidar a equipe de pesquisadores do Laboratório em Geocronologia. "O Laboratório tinha sido criado há dois anos e precisava de especialistas na área para compor a equipe. Pareceu-me um desafio interessante e estimulante a oportunidade de aplicar meus conhecimentos técnico-científicos em um lugar tão 'exótico' como a Amazônia", afirma o pesquisador, que, na época, era recém-doutor.
Atualmente, ele integra o quadro docente da Faculdade de Geologia e o Programa de Pós-Graduação em Geologia e Geoquímica, ambos no Instituto de Geociências, além de compor um Grupo de Pesquisa em Geocronologia e Geoquímica Isotópica. Jean Michel Lafon também participa de um Grupo de Pesquisa em Geoquímica Ambiental.
Mesmo com as limitações de recursos, Jean Michel Lafon diz que o esforço dos pesquisadores que optaram por vir para cá ou que são da região e permaneceram aqui resultou em grandes conquistas. "Juntos, conseguimos criar um grupo de pesquisa, que, hoje, está consolidado, e construir uma infraestrutura laboratorial de grande porte. Conseguimos destaque internacional. Estamos interagindo com pesquisadores em todas as regiões do Brasil. Além disso, o Programa de Pós-Graduação ao qual pertenço tem reconhecimento nacional, sendo o único do Norte a integrar o Programa de Excelência da Capes", comemora.
Parceria apresenta resultados
Cerca de 1.800 doutores trabalham em universidades paraenses. A UFPA possui, em seu quadro, 1.100 professores com doutorado, o que corresponde a um pouco menos da metade dos docentes da Instituição.
Para incentivar a atração de doutores e a formação de novos grupos de pesquisa, a UFPA desenvolveu ações estratégicas, como a mudança na Resolução para contratação de docentes. Todos os concursos públicos são abertos, inicialmente, para doutor e, em alguns casos, se não houver inscritos, o concurso reabre para candidatos com título de mestre.
A Universidade também mantém o Programa de Apoio ao Recém-Doutor e criou o Programa de Apoio ao Doutor Recém-Contratado como forma de estimular a vinda de doutores para desenvolver suas atividades de pesquisa aqui. Esse Programa foi formulado em cooperação com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa) e com apoio da Capes.
Outros programas da Propesp/UFPA também oferecem benefícios, como o custeio de despesas com a publicação de artigos científicos em revistas estrangeiras e o financiamento de reuniões técnicas de pesquisadores da Instituição com pesquisadores estrangeiros para o estabelecimento de novas cooperações.
Apesar dos incentivos, ainda é difícil fixar doutores na região. "É difícil uma universidade na Amazônia competir com centros de pesquisas de outras regiões. As condições de trabalho nos outros centros acabam sendo mais favoráveis, por isso é preciso ter políticas adicionais que tornem a vinda e a permanência dos pesquisadores mais atraentes", pontuou Jean Michel Lafon. (Ascom UFPA)
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