Em 11 anos de profissão, duas cicatrizes marcam a carreira do motorista Airton Antunes dos Sales, 36. As marcas dos 80 pontos espalhados na cabeça e nas costas são de um violento acidente que interrompeu suas idas e vindas pelas vias da capital paraense.
Em abril de 2009, no cruzamento entre a travessa Castelo Branco e a rua Domingos Marreiros, uma caminhonete ultrapassou o sinal vermelho em alta velocidade e bateu fortemente na lateral do ônibus conduzido por Airton. O coletivo rodou na pista e, com a força do choque, projetou o motorista para fora do veículo.
Após seis meses de tratamentos fisioterapêuticos na esperança de retomar o volante, Airton acredita que se estivesse com o cinto de segurança a história poderia ter sido diferente. O motorista ainda sofre diariamente com a hérnia de disco ocasionada por um trauma na coluna, mas aprendeu a conviver com os abalos das lembranças. “Até hoje, ainda tenho receio de passar por um cruzamento”, confessa.
Airton afirma que o ônibus que ele conduzia não possuía o cinto de segurança. “Tenho sorte de estar vivo”, diz. Assim como ele, grande parte dos trabalhadores rodoviários na Região Metropolitana de Belém não usa o cinto de segurança, pois não são obrigados (legalmente) a utilizar o acessório.
Embora o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em seu artigo 65, estabeleça que o uso do cinto de segurança é obrigatório para todos, motoristas e passageiros, uma resolução de 1998 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) não exige o uso do acessório nos veículos destinados ao transporte de passageiros, em percurso que seja permitido viajar em pé.
O motorista Nelson Nascimento da Silva Junior afirma que nunca o obrigaram ou incentivaram a se proteger utilizando o cinto de segurança. E lá se vão 14 anos de profissão. Ele só percebeu a importância da proteção em 2003, quando foi deixar um passageiro no ponto de ônibus e, ao acelerar para sair, colidiu com o ônibus da frente. “Não tive como frear e acabei batendo. Nessa hora eu voei por cima do capô do carro [ônibus] e bati com o rosto no para-brisa. Me machuquei muito e por pouco não fui cuspido”, rememora. Em consequência do acidente, o motorista carrega uma cicatriz no rosto.
Nelson garante que trafegava sem o cinto porque o próprio coletivo não dispunha do acessório. Apesar de todas as campanhas de conscientização sobre segurança no trânsito, ele diz que as coisas não mudaram muito de lá pra cá. “Até hoje, os ônibus que uso para trabalhar não têm cinto de segurança”.
Belém é campeã de acidentes envolvendo coletivos
Em estudo recém-divulgado pelo Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), vinculado ao Ministério da Saúde, entre 2002 e 2010, o número total de óbitos por acidentes com transporte terrestre cresceu 24%: passou de 32.753 para 40.610 mortes. Entre as regiões, o maior percentual de aumento na quantidade de óbitos (entre 2002 e 2010) foi registrado no Norte (53%), seguido do Nordeste (48%), Centro-Oeste (22%), Sul (17%) e Sudeste (10%).
De acordo com os dados do departamento Estadual de Trânsito do Pará (Detran-PA), em 2010, dos 3.077 casos de acidentes registrados no Estado envolvendo coletivos, Belém foi a cidade com o maior índice de colisões , com 71% (2210). A estatística ainda aponta o ônibus como terceiro colocado entre os tipos de veículos que mais sofrem e provocam acidentes de trânsito. Nos dados, automóveis e motocicletas ainda lideram o índice de colisões, ocupando a primeira e a segunda colocação, respectivamente.
A Associação Brasileira de Medicina de Trânsito (Abramet) e a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot) afirmam que o uso do cinto de segurança pode reduzir em até 75% o número de mortos e feridos em um acidente de ônibus. Entre as lesões mais frequentes provocadas por acidentes de trânsito, segundo a Sbot, estão as que atingem áreas do crânio, tórax e abdômen (36%); coluna cervical, perna, joelho tornozelo e pé (34%); e mão, punho, cotovelo e ombro (30%).
Como passageira, a professora de dança Nelcileia Amorim Nunes, 36, sentiu na pele as consequências de trafegar sem o cinto de segurança. “Enquanto voltava para casa, o ônibus em que eu viajava deu uma freada brusca. Eu e uma pessoa que estava sentada ao meu lado fomos jogadas em direção à cadeira da frente. Caímos [dentro do coletivo] e acabamos ficando com várias escoriações pelo corpo”, relembrou.
Não bastassem as dores e machucados, ela ainda sofreu com prejuízos materiais trazidos pelo episódio.
“Além de machucar os joelhos, o meu aparelho celular novinho, que havia acabado de comprar, ficou todo quebrado e não tive como recuperá-lo. Depois de muita luta e insistência por quase dois meses, batendo lá na empresa diariamente para pedir o dinheiro, consegui ressarcir o valor que paguei pelo telefone”, recordou a professora.
Resolução está obsoleta, diz presidente do sindicato
Para o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do Pará, Edilberto Robson, o “Ventania”, a resolução está obsoleta em relação aos padrões de trânsito de Belém. “São quase 12 mil trabalhadores rodoviários cadastrados circulando em quase dois mil veículos. A legislação não reconhece o tempo que o rodoviário passa nas ruas da cidade”, argumenta.
Para ele, se for considerada a distância total percorrida diariamente (em turnos de 7 a 9 horas) por motoristas de ônibus de Belém e Ananindeua, chega-se à média de 220 km rodados. “O tempo e a distância que nós permanecemos circulando na cidade é equivalente a uma viagem intermunicipal. Por isso, o uso do cinto de segurança poderia ser obrigatório para todos os motoristas de ônibus e usuários”, disse Edilberto. “O sindicato dos rodoviários apoia qualquer intervenção legislativa que possa contribuir à integridade física do trabalhador. Sabemos da importância do cinto e defendemos que as empresas passem a adotar a inciativa, sem precisar de uma lei para obrigá-los a colocar o assessório nos coletivos ”.
A reportagem procurou o Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros de Belém (Setransbel), para questionar sobre a falta de cintos de segurança nos ônibus e o não uso do acessório pelos motoristas , mas ninguém foi encontrado para falar sobre o assunto. (Diário do Pará)
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