Às 7h30 da manhã de segunda-feira (21), a sirene que determina a entrada de alunos e professores na Escola Estadual Visconde de Souza Franco foi acionada, o que não acontecia com a mesma frequência há 53 dias, período que durou a greve dos professores e servidores em educação do Estado do Pará.
No primeiro dia de volta às aulas após a paralisação encerrada na última sexta-feira, o movimento de alunos que ultrapassavam os portões da entrada da escola era grande. Junto com eles, a incerteza de como se desenrolaria o ano letivo, que deveria ser encerrado em dezembro deste ano. Aluno do segundo ano do ensino médio, Mário Leonardo foi à escola cheio de dúvidas sobre o que poderia esperar do final do ano. Ele, que se deteve a esperar pelo fim da greve, voltou à escola sem saber quando entraria de férias. “Eu estou bastante preocupado porque não sei o que vai acontecer a partir de agora”.
Sem lembrar em que parte estava o conteúdo programático ensinado antes da greve, ele se preocupava com a forma que seriam retomados os assuntos referentes à disciplina que mais tinha dificuldade. “Matemática é o que me
preocupa mais porque, além de eu ter mais dificuldade, o conteúdo é maior”, disse. “Vai ser complicado voltar agora pra retomar o conteúdo, mas eu vou tentar fazer o possível”.
Estudante do mesmo colégio, Thayana de Almeida teve a oportunidade de continuar os estudos durante o período de greve. Para ela, a retomada do conteúdo será mais tranquila. “Para os alunos que conseguiram fazer cursinho, não vai ser tão difícil, mas para os que não puderam...”, acredita. “A expectativa é de que possa repor isso tudo”.
Além da preocupação com o término do conteúdo programático a tempo das provas dos principais vestibulares, a estudante do terceiro ano do ensino médio Anne Camila pensava nas questões burocráticas que envolvem o processo de inscrição nas universidades. “Eles (professores) disseram que se a pessoa passar no vestibular, eles vão dar um documento para a gente levar na universidade para fazer a inscrição”, se adiantou em saber.
De qualquer modo, apesar da possível solução, ela não se sentia tranquila. “A gente fica preocupada porque não sabe se isso vai valer. Eu tava me preparando para o vestibular, fazendo cursinho porque quero fazer pedagogia. Espero que dê pra ser assim”.
Colega de sala de Ane, Nilson Teixeira também já havia pensado na possibilidade de passar no vestibular antes de terminar o ano letivo. Interessado nos cursos de licenciatura em computação e licenciatura em física, ele se preocupava mais com a demanda das disciplinas nas salas de aula. “Eu vou usar a minha nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e vou poder tirar um certificado de conclusão do ensino médio por ele”, acredita. “O que mais me preocupa é a correria que vai ser agora para ganhar o tempo perdido. Vou ter que estudar por dois”.
FALTAS
Nas salas do colégio que abriga 3.100 alunos do ensino médio, sendo 1.400 somente no período da manhã, muitos alunos já retomavam o assunto interrompido pela greve. Ainda assim, em muitas turmas ainda faltava parte dos alunos. Na sala da professora Rosana Elleres, o assunto principal era o futuro profissional dos estudantes. Após a greve, de uma turma de 35 alunos, apenas 23 assistiam à aula de informação profissional. “Vieram poucos alunos e eu já fiquei sabendo por eles que outras pessoas fizeram transferência. O que eu estou fazendo hoje é trabalhar na autoestima e motivação deles”.
Aluna de escola pública, tanto no nível médio, quanto a nível superior, a professora que optou por não fazer greve disse conhecer bem a realidade de seus alunos. “A vida do aluno de escola pública é a greve. Eu peguei uma greve de 80 dias na federal (UFPA), por isso entendo o que eles estão passando”. Ciente de que o conteúdo programático não teria como ser ‘vencido’ até as provas do vestibular, ela orientava os alunos a se esforçarem cada vez mais para passar. “Eles vão ter que se juntar com outros alunos, fazer grupo de estudos. Não vão poder depender só da escola”.
Estudante do Colégio Estadual Pedro Amazonas Pedroso, Jennyfer Moraes também acredita que a saída para conseguir passar no vestibular para o curso de administração será intensificar os estudos fora de casa. “Se depender da escola, a gente não vai terminar a tempo. A gente tem que se virar sozinho, o que a gente tem feito na maior parte do tempo”. (Diário do Pará)
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