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Detentos: lutando pelo direito a uma vida nova

A cada doze horas que um preso fica em sala de aula, ele ganha um dia para se aproximar da liberdade. É uma troca capaz de estimular gente que nunca pensou em estudar do lado de fora das grades e com a prisão começou a reescrever o próprio destino. E, des

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A cada doze horas que um preso fica em sala de aula, ele ganha um dia para se aproximar da liberdade. É uma troca capaz de estimular gente que nunca pensou em estudar do lado de fora das grades e com a prisão começou a reescrever o próprio destino. E, desses, 29 decidiram entrar na Universidade com a ajuda do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Em outubro, estudantes do Brasil inteiro participaram do Enem. Mas o exame para pessoas privadas de liberdade e jovens sob medidas socioeducativas, como o Ministério da Educação denomina, será realizado nesta segunda (28) e terça-feira (29).

O exame ocorrerá nas cadeias. Cada unidade prisional terá um coordenador pedagógico. As salas contarão com todo o aparato de segurança e dois fiscais, os chamados agentes da educação. “Eles são responsáveis por tirar os alunos das celas e recolhê-los à porta da sala, dando segurança para os professores”, explica a coordenadora pedagógica do PEM I, Karin Monteiro. Segundo ela, as provas funcionam exatamente como no exame comum. “Vêm lacradas pelo correio, tudo direitinho”, exemplifica.

O que eles querem é, em um futuro não muito distante, ganhar a concretude de uma vida diferente. Carlos Augusto Almeida, 39 anos, cumpre 19 de reclusão por assalto à mão armada. Em 2012, ele ganha liberdade condicional. “Aos olhos da sociedade, a prisão parece algo negativo. Tem seus benefícios. Eles não conhecem como Deus age nas pessoas”, diz Carlos como um bom seguidor do evangelho, que aderiu aos preceitos da Assembleia de Deus. Se conseguir desempenho suficiente no Enem, ele vai tentar o ensino superior na área religiosa. Tem pretensões de virar pastor e viver uma história nova ao lado dos quatro filhos.

Carlos é retirado da cela de manhã e vai para a sala de aula, na própria cadeia, onde, assim como outros presos, enfrenta três horas diárias de diferentes disciplinas, ministradas de segunda a sexta, por um dos professores da Secretaria de Estado de Educação.

Ele passa a tarde dividido em múltiplos afazeres. No início da noite, concentra-se em leituras, exercícios e revisões. “Tive uma boa formação, estudei em colégio bom, aos 30 anos entrei no mundo do crime. Como diz o ditado, foi bom para mim, né? Porque hoje eu já penso em fazer uma faculdade”, avalia.

Pensamento semelhante alimenta João Paulo Protásio de Oliveira, de 27 anos. Após cinco anos atrás dos muros do PEM III, ele está prestes a concluir os estudos. Condenado a dez anos de prisão, por homicídio e assalto, João quer ser advogado. “Para ajudar uma comunidade que precisa”, justifica. É uma possibilidade também de mostrar outra imagem para os filhos Douglas, 9, e Miguel, de um ano e meio.

Educação que transforma. É nessa frase que Marizangela Fuckner deposita todas as energias. “Eu dedico muitas horas da minha vida à educação prisional, porque eu acredito que ela pode contribuir para a sociedade. Essas pessoas são julgadas pela nossa sociedade. Elas já estão pagando por eles, mas pessoas não pensam em ajudar, e sim em punir”, analisa a gerente da Divisão de Educação Prisional da Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado do Pará (Susipe).

Caso acumule boas médias no Enem, João vai tentar a faculdade de Direito. Antes do teste, no entanto, casará com a atual namorada, a Evelyn, de 20 anos, com quem está há dois. O namoro começou e ficou tão sério que João quer oficializar tudo. “Vamos casar na lei e no religioso”, adianta ele. E por que também não casou oficialmente com as outras? “Porque com ela pegou mais firme o amor”. (Diário do Pará)

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