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Deficientes, porém bastante eficientes

Ainda que eles representem milhares de brasileiros (45 milhões, segundo estimativa), muitas vezes são ignorados. “A sociedade não nos percebe, nós somos sempre invisíveis”, diz o deficiente visual Jordeci Santa Brígida, de 50 anos. É uma invisibilidade qu

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Ainda que eles representem milhares de brasileiros (45 milhões, segundo estimativa), muitas vezes são ignorados. “A sociedade não nos percebe, nós somos sempre invisíveis”, diz o deficiente visual Jordeci Santa Brígida, de 50 anos. É uma invisibilidade que está presente no desrespeito, na imposição de limites à vida do outro, que precisa contar com a solidariedade alheia para não ter o destino interrompido. “Eu sempre tenho que ter a ajuda de alguém”, constata. Alguém para ler o letreiro do ônibus, atravessar a rua. Estranhos que se recusem a estacionar o carro no meio da calçada, nem avancem o sinal vermelho ou ultrapassem o ponto de parada.

O Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o Viver sem Limites, é o mais novo resultado dessa resistência. Lançado no último dia 17 de novembro, pela presidente Dilma Rousseff, o documento engloba metas e ações previstas com base na Convenção Nacional da Pessoa com Deficiência. O trabalho será desenvolvido de forma conjunta entre união, estados e municípios. A implantação deverá ocorrer até 2014 e abrange as áreas de saúde, educação, inclusão social e acessibilidade. Juntos, esses setores terão investimentos de R$ 7,6 bilhões.

“É uma antiga reivindicação das pessoas com deficiência. Grande parte dele foi construído com a nossa participação, é uma conquista histórica”, avalia Amaury Filho, presidente da Associação Paraense das Pessoas com Deficiência (APPD). A entidade completou 30 anos no dia 26 de novembro, sábado. Teremos melhor qualidade de transporte, melhor acesso ao mercado de trabalho, oportunidade de mostrar à sociedade todo o nosso potencial”, acredita.

Amaury perdeu totalmente a visão por volta dos 15 anos de idade. A deficiência visual não o impediu de acumular dois diplomas de ensino superior, um em Geografia e o outro em Sociologia. Talvez por isso ele ressalte que o plano não deve ser analisado como uma política assistencialista, pelo contrário. “Temos de mudar essa visão de que a pessoa com deficiência tem de ter acesso por pena. É uma questão de direito”.

CIDADANIA

Segundo Agostinho Monteiro, coordenador do Centro Integrado de Inclusão e Cidadania (CIIC), da Secretaria de Estado de Assistência e Desenvolvimento Social (Sedes), como o lançamento do plano é recente, não há como estipular os valores destinados ao Pará. “Ainda não sabemos quanto virá para o Estado. Mas [a criação dele] já é um grande avanço e o governo está disposto a participar”, pondera.

Na urgência da cidade, que desaprendeu a respeitar o tempo e o outro, os solidários persistem ao descaso. “Muitos ajudam, muitos ignoram”, afirma Andréia, a mulher de Jordeci. É ela quem o acompanha da porta de casa, no distrito de Icoaraci, até a parada de ônibus.

Ao subir no transporte, Jordeci segue sozinho e se concentra para descer no destino certo, um outro ponto de ônibus, na avenida governador José Malcher com a Alcindo Cacela. Uma rotina de pelo menos dez anos. Lá, ele atravessa a faixa de pedestres e caminha, alternando rua e calçada, até a sede da APPD, a cerca dois quarteirões dali, onde trabalha como voluntário.

Na volta para o lar, quem acompanha Jordeci Santa Brígida é um primo da família. “Nós é que temos que mostrar que somos humanos. Isso a gente mostra com capacidade e competência”, ensina o assistente social.

A cegueira de Jordeci apareceu ainda na infância. Com 1 ano e seis meses, ele teve uma doença desconhecida, na época, que comprometeu a visão. Até os anos 2000, conseguia ler em fonte tamanho 28. Depois tudo se apagou. Ele perdeu toda a visão do lado esquerdo. O direito, ele só detém meio por cento. Nem por isso se deixou abalar.

Foi a mãe, professora, quem o ensinou a ler e escrever. No entanto, só aos 23 anos, já na capital paraense, ele sentou num banco de escola. “Fiz supletivo, vestibular e passei em História na UFPA e em Serviço Social na Unama”. Em 2007, com o apoio da atual esposa, voltou e concluiu o curso no ano passado. Agora, Jordeci faz planos para a especialização na área de Educação. “E voltar para sala de aula”. Dessa vez, como professor. (Diário do Pará)

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