João Lima (nome fictício) descobriu que vive com HIV há seis meses, mas como o próprio parêntese ao lado de seu nome faz referência, o receio de que a revelação atrapalhe seu trabalho, que é diretamente relacionado com o público, faz com que ele não divulgue sua identidade. Independente dos avanços com relação ao tratamento e formas de prevenção ao vírus da Aids, a síndrome sofre com um estigma social que é histórico e ainda atual. Prova disso, os direitos ao trabalho, ao tratamento de saúde e à vida, inerentes a qualquer pessoa, precisaram ser reforçados no ‘papel’ quando dizem respeito às pessoas que vivem com HIV.
Desde a descoberta da Aids, há 30 anos, até os dias atuais, muitas foram as conquistas dos portadoras do vírus HIV, êxito encabeçado, muitas vezes, por ativistas de ONGs que lutam pela quebra do preconceito. O trabalho direto da advogada Cristina Carvalho com a legislação específica às pessoas soropositivas foi iniciado quando prestava assessoria jurídica ao Grupo de Apoio à Prevenção à Aids do Pará (Gapa), uma das primeiras ONGs a trabalhar com a temática no Pará.
Segundo a advogada, a forma como as pessoas ainda veem a doença é um agravante que ocasiona o não cumprimento dos direitos determinados em lei. Através do trabalho que realiza atualmente como presidente da comissão de saúde da Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA), ela acredita que, apesar de alguns avanços, o preconceito ainda é cristalizado na sociedade.
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DEPOIMENTO
"O fato de eu me identificar como uma moça transexual já foi um agravante de separação social, então viver com essa minha identidade passou a ser um desafio em um mundo que não foi feito pra mim. Eu enfrentei problemas na minha família, na universidade e na sociedade em geral, mas me mantive erguida. Vou ser uma das primeiras, se não for a primeira, transexual psicóloga do Pará.
Há um ano, no dia 25 de janeiro de 2010, eu recebi a notícia de que o meu teste de HIV tinha dado reagente, positivo. Foi um momento em que eu passei a refletir dobrado acerca do que de fato eu quero, eu busco, eu pretendo na minha vida. Agora, além de ter que enfrentar a sociedade por conta da minha identidade transexual, eu tenho mais um fator que ainda é um agravante e ainda é envolto por estigmas e preconceitos, que é a questão do HIV/Aids.
No início, foi muito difícil porque eu tinha apenas um conhecimento limitado acerca dessa síndrome, então, fui inundada de muito medo. Vieram três coisas imediatas nas quais eu pensei: a primeira é que eu iria morrer, pronto! Eu praticamente estava assinando, ali, o meu atestado de óbito; segundo que eu ia ter que começar a tomar medicação e não ia mais ter uma vida normal e, terceiro, que ninguém ia mais me querer.
Eu era uma leiga no assunto. Eu fiz o teste porque no segundo semestre de 2009 eu havia me envolvido em uma relação sem preservativo. Eu fui com medo, mas sempre tinha uma esperança. Eu pensava: ‘foi só uma relação sem preservativo’, mas isso não miniminiza nada. Resisti a procurar atendimento, levei uns três meses para me cadastrar no local para fazer o acompanhamento.
Foi muito difícil, eu tinha medo, não conseguia dormir, tive crises de depressão e cheguei a pensar em suicídio. Mas, no mesmo ano, eu tive a grande oportunidade de conhecer a rede de jovens que vivem com HIV e passei a me interar mais sobre a própria doença e fui expelindo preconceitos meus em relação a isso. Passei a perceber que sim, eu tenho um vírus, mas eu não vou morrer por ele, eu vou morrer com ele. Hoje essa é uma questão resolvida." Lyah Santos Correa - estudante de psicologia, 30 anos. (Diário do Pará)
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