Em e-mail enviado a amigos, a jornalista paraense Ruth Rendeiro defende a não divisão do Estado em um texto recheado de expressões tipicamente paraenses. Pelo menos para os paraenses que cresceram tendo o linguajar caboclo como referência. A jornalista termina o texto com uma ironia. “Talvez os que acreditam que a divisão é o melhor tenham batido na mãe, comido manga com febre e não entendido a metade do que está escrito aqui”.
É um pouco dessa forma que as discussões sobre a divisão do Pará têm ocorrido. Posicionamentos marcados às vezes mais pela paixão do que pela razão. E isso de parte a parte. O horário televisivo que começou sendo um espaço de debate de ideias terminou com o mesmo script já conhecido de outras eleições. Acusações de parte a parte e o nível caindo a olhos vistos. Nenhuma novidade para os paraenses de Belém, do sul ou do oeste do Pará. Com isso, a expectativa sobre o que vai ocorrer nesse domingo tem variado.
“Eu não espero muita coisa, porque essa discussão da divisão virou uma coisa secundária”, diz o jornalista Lúcio Flávio Pinto. Segundo ele, toda o debate deveria ser precedido de uma nova visão a respeito do próprio estado do Pará. “Com ‘sim’ ou ‘não’, o crescimento vai continuar sendo o modelo do rabo de cavalo, ou seja, para baixo”.
Lúcio Flávio é santareno. Mas não crê nesse modelo proposto pelos que pregam a separação do Estado. “Com esse modelo de divisão vai ser pior. Tapajós continuará com os problemas antigos e Carajás, cuja divisão tem sido incentivada por quem é ligado ao agronegócio, seguirá com os conflitos fundiários e o desmatamento”.
Priscila Brasil, diretora de um documentário a respeito de Serra Pelada, é enfática. “Não sou contra a divisão. Sou contra o mau uso do dinheiro público e contra a irresponsabilidade. Não mostraram o estudo que teria embasado a divisão desta forma, com esses tamanhos. Eu quero ver os planos de sustentabilidade dos estados, quero que me provem que tudo ficará melhor se dividir. Não há lógica alguma no que está sendo votado agora. A maioria da população sequer entendeu do que se trata. Me parece uma irresponsabilidade imensa operar tantas mudanças e decisões num vazio de informações. Isso é muito, mas muito mais importante que qualquer campanha política. Um custo bilionário e discutimos isso em um mês? Que loucura. Não posso ser favorável a isso. Então votarei ‘não’”.
O desabafo de Priscila Brasil mostra que muito deixou de ser discutido adequadamente nesse período em que a divisão do estado virou bandeira de luta no sul e oeste do Pará e não fez parte das discussões de esquina na Região Metropolitana de Belém. A discussão ganhou o Brasil, no entanto. Talvez menos do que merecia. “Aqui em Brasília, o assunto morreu”, diz o jornalista João Carlos Magalhães, que chegou a ser correspondente da Folha de São Paulo em Belém.
Até a sexta-feira a chamada grande imprensa começava a se mobilizar. A própria Folha de São Paulo havia destacado três repórteres para cobrir o plebiscito. O Estado de São Paulo mandara um repórter. O jornal O Globo também já iniciara a cobertura, assim como a rádio CBN e a própria revista Veja. Afinal, o assunto mexe com toda a estrutura política e econômica do país.
Uma das preocupações é com o que virá a seguir, independente do resultado. O jornalista e professor universitário Manuel Dutra, 65 anos, afirma que vai começar um novo tempo no Pará. Independente do resultado. “Esse novo tempo vai exigir a presença de um estadista para administrar o que virá. Qualquer que seja o resultado, fraturas foram expostas e continuarão sangrando e é preciso que alguém apareça para dirimir ressentimentos. O problema é que não percebo alguém que possa assumir esse lugar”, diz Dutra.
De certa forma, é o que pensa também a cientista política Luzia Miranda Álvares. “Essas fraturas vão criar um mal estar entre as partes. Os perdedores e os vencedores terão suas argumentações para, como agora, externar protestos em causa própria. E o mais grave, a situação do divisionismo saiu do controle e mexeu com a afetividade e o ufanismo em torno de se pensar sobre uma terra que foi preterida [no caso do Pará] em função de outras [as duas em disputa] pelos próprios paraenses. Pois há os que são “de fora”, que estão neste último caso, mas há os que são daqui mesmo e desconhecem as argumentações mais lógicas que já foram produzidas sobre o fato”, diz ela.
Analista não acredita em ‘fraturas’ pós-plebiscito
O cientista político Edir Veiga discorda sobre a permanência de “fraturas” pós-plebiscito. “Não creio nisso. Não há interesse nem do governo nem dos defensores de Tapajós ou Carajás em estimular fraturas. O que vai restar são pequenas mágoas. Em campo individual alguns perderão estrelas com o governador Simão Jatene, mas os acordos e convênios serão mantidos”.
Veiga acredita que a votação será tranquila. “Acho que teremos uma tendência grande à abstenção em distritos rurais e ilhas. O que pode interferir nessa tranquilidade é a tensão entre os que pleiteiam a separação se alguém defender o ‘Não’ explicitamente nos municípios onde a campanha é mais acirrada. Pode ser que nesse caso haja distúrbios, porque lá a temperatura do plebiscito está muito alta”.
RESULTADOS
O arquiteto Paulo Cal, 67 anos, não acredita que vá ocorrer uma separação, mas julga que historicamente há um anseio por liberdade na região do Tapajós.
“Já em Carajás, eu vejo as coisas como mais políticas. E pegaram as mazelas sociais como se fossem uma coisa localizada, mas esses problemas estão em toda parte. No fundo, eu consigo entender a pretensão de Tapajós, mas não com a dimensão monstruosa com que a discussão foi encaminhada”, diz.
Neste domingo, com o Estado não decidindo, mas indicando o que pretende para o futuro, a ida às urnas tende a se tornar uma das mais importantes das últimas décadas.
(Diário do Pará)
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