O tema de uma possível divisão do Pará não é novo, mas nos últimos três meses (e com o início da campanha do plebiscito) deixou de ser apenas uma aspiração de alguns moradores das regiões oeste e sul-sudeste para se tornar uma possibilidade real.
As pesquisas, contudo, indicam que hoje a maioria dos eleitores do Estado irá às urnas para dizer não à proposta. O clima entre as frentes separatistas e antidivisão do Pará ainda é de tensão. Sobram críticas, mas todos concordam que o debate em torno da possível criação de novos Estados pode acabar deixando alguns saldos positivos.
REDESCOBERTAS
“O Pará se conheceu. Uma das nossas maiores riquezas é a diversidade de pessoas de origens distintas. Com a campanha, as regiões se voltaram umas para as outras, conheceram as suas realidades. Outro ponto positivo foi a participação da sociedade civil, que em muitos casos se antecipou aos políticos”, diz o deputado federal Zenaldo Coutinho (PSDB), que preside a frente contra a criação do Estado do Carajás.
Para ele, o ponto negativo do processo foi “a desqualificação do Pará e do povo”. “Mas nada que não se supere”, afirma otimista.
SEGUNDA-FEIRA
O presidente da frente contra Carajás está convencido de que o ‘não’ sairá vencedor das urnas neste domingo, e afirma que já se prepara para ajudar a reconstruir a união do Estado.
“Na votação de hoje haverá confirmação maciça contra a divisão do Pará. Estaremos mais unidos partir de segunda-feira, trabalhando mais do que nunca juntos”, diz o deputado, para quem a realização do plebiscito teve outro efeito colateral positivo: chamou a atenção da imprensa nacional para a região, fugindo da tradicional pauta das tragédias e conflitos. “O Brasil se voltou um pouco para o Estado. Eu tenho dito nas entrevistas que dou aos veículos nacionais que nós paraenses não temos pacto federativo. Temos impacto federativo porque a base da nossa economia é toda desonerada. Temos que ter energia interna para reverter essa lógica”.
PROMESSAS
O presidente da frente em defesa do Estado de Carajás, deputado estadual João Salame (PPS), reclama que o tempo de campanha foi curto para um tema tão complexo. Para ele, a campanha do não “rebaixou muito o debate”. “Criminalizaram a política, atacaram quem lutava pelo sim como forasteiro e acabaram despertando os piores sentimentos, que são a xenofobia e o preconceito”.
De positivo, Salame aponta que a campanha permitiu mostrar que “o rei está nu”. “Ficou claro que o Pará está quebrado, sem condição de fazer investimentos. Se o sim vencer, já demonstramos a nossa proposta, mas se o não sair vencedor, a decisão coloca sob os políticos do ‘não’ a responsabilidade de resolver essas questões. Terão que transformar em realidade as promessas que fizeram”, afirma.
REALIDADES
O presidente da frente em defesa do Tapajós, deputado Joaquim de Lira Maia (DEM), também reclama da duração da campanha. “A imprensa de Belém já vem fazendo há muito tempo campanha contra a divisão. O tempo foi pouco para mostrarmos nossas propostas”.
Lira Maia afirma, contudo, que o debate sobre a divisão levou o povo Pará a refletir sobre a realidade das diversas regiões do Estado. “Não dá mais para esconder que uma área do tamanho do Tapajós recebe apenas 5% do orçamento do Estado. Independente do resultado, vamos ter que refletir sobre essa desigualdade”.
Lira Maia prevê um processo de relacionamento difícil entre as regiões emancipacionistas e a população do entorno da capital, majoritariamente contrário à separação. “O Estado já está dividido de antemão”.
CHACOALHÕES
Para o presidente da frente contra a criação do estado do Tapajós, deputado estadual Celso Sabino (PR), a campanha serviu para dar “uma chacoalhada no Estado”. “Muitas coisas que estavam estagnadas foram reveladas. Temos problemas em todas as regiões e a campanha mostrou que precisamos enfrentá-los, mas unidos. Essa proposta de divisão não traz benefícios para ninguém”.
Para ele, as animosidades pós-plebiscito devem ser pontuais e momentâneas e serão superadas com o esforço dos políticos, que devem se unir em defesa dos interesses do Estado.
“Quem colocou irmão contra irmão foram os políticos”, diz afirmando que a união da classe será um exemplo a ser seguido pela população em geral.
PREOCUPAÇÕES
O governador do Pará, Simão Jatene não esconde a preocupação com o dia seguinte à consulta popular. Apontado por lideranças como um importante ator na reconstrução do Estado, caso se confirme a vitória do não, Jatene diz estar consciente da missão.
“O que eu espero é ter a sabedoria e equilíbrio para responder a todas essas expectativas que estão postas. Não dá para negar a legitimidade do sentimento popular. Uma coisa é classe política e suas questões. Outra coisa é o sentimento da população. Este é sempre genuíno, legítimo”, diz, refutando qualquer possibilidade de retaliação às regiões separatistas.
Jatene diz não estar preocupado com um possível desgaste à sua imagem - como indicam alguns analistas. “Se o Pará ganhar, o fato da derrota, de quem quer que seja, enquanto indivíduo, é menor”.
Suíço diz que qualquer resultado impactará políticas
O suíço Rolf Rauschenbach é pós-doutor em Ciência Política, pesquisador da Universidade de São Paulo e está no Pará para acompanhar o plebiscito. Rolf não quis falar sobre uma possível rivalidade pós-votação. “Não conheço o Estado a fundo”, justifica. Mas diz que espera que haja maturidade dos paraenses para aceitar o resultado. E que, ao final, mesmo a proposta derrotada pode acabar provando mudanças na gestão do Estado.
“Que vai haver frustração, sem dúvida nenhuma. Mas espero que a democracia já esteja madura para aceitar o resultado, seja lá o que for. Evidentemente que em cada consulta sempre alguém perde. É natural. O que é interessante é que mesmo uma proposta rejeitada poderá influenciar a política depois. Pode não ser exatamente o que o grupo que perdeu queria, mas não será exatamente o contrário. Quanto maior e representativo o grupo que perder, maiores as chances de integrar suas reivindicações às políticas públicas oficiais”, diz o pesquisador, que faz um estudo comparado das consultas populares no Brasil com a de seu país, a Suíça, onde esse tipo de votação é rotina. Lá os plebiscitos ocorrem em pelo menos três datas ao ano - para questões municipais, estaduais e federais em áreas que vão da saúde à imigração, passando pela segurança e previdência.
(Diário do Pará)
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