Demonstrações de fé e devoção marcaram o segundo domingo de dezembro, durante o Círio de Nossa Senhora do Ó, padroeira da Ilha de Mosqueiro. O cortejo iniciou por volta das 8h, após uma missa presidida pelo arcebispo metropolitano de Belém, Dom Alberto Taveira, na capela do Sagrado Coração, no Chapéu Virado.
Segundo a Polícia Militar, aproximadamente 10 mil pessoas participaram da procissão de 4,5 quilômetros até chegar à Igreja Matriz. Mesmo com a metade de participantes dos anos anteriores, a organização da festa considerou o número expressivo, por conta da realização do plebiscito sobre a divisão do Estado.
O tradicional tapete de serragem colorida com desenhos representando cenas bíblicas enfeitava vários quilômetros da avenida 16 de Novembro. A arte foi feita por jovens católicos da ilha.
Antes mesmo do amanhecer, centenas de romeiros começaram a ocupar as vias principais do distrito para aguardar a procissão. A manicure Marta Pereira Campos, 48, acompanhada do filho vestido de anjo, considera-se abençoada por ter alcançado uma graça, com a fé na padroeira dos mosqueirenses. “Ainda na gravidez, meu filho de 4 anos teve complicações de saúde. Os médicos disseram que era uma arritmia e que poderia complicar o nascimento dele”, lembra. “Foi quando resolvi pedir com fé em Deus e em Nossa Senhora do Ó, para que meu filho ficasse bem. O meu filho veio com saúde e hoje está curado”.
Por onde passava, a imagem de Nossa Senhora do Ó era saudada com cânticos, orações e demonstrações de fé, muitos fogos de artifício, papel picado e até encenações teatrais. De forma improvisada, a técnica em enfermagem Luciana Moraes, 35, montou uma espécie de palco no telhado de sua casa, na travessa Siqueira Mendes, para apresentar aos fiéis sua homenagem.
“Há 11 anos, eu e meus dois filhos [de 10 e 8 anos], nos fantasiamos e montamos uma coreografia, na tentava de transmitir uma mensagem a todos os fiéis. É tudo improvisado, mas feito com muito amor. Neste ano, a ideia foi repassar às pessoas que mesmo em meio às dificuldades e aos problemas, não poderemos nos abalar. Com muito amor e fé em Deus, conquistamos e conseguimos tudo”, explica. Ainda segundo ela, a encenação é feita em agradecimento à saúde e às conquistas feitas em família ao longo do ano.
Procissão completou 143 anos de tradição
Mesmo sob forte sol, a maioria dos fiéis se manteve no percurso até o final. A santa chegou à Igreja Matriz, localizada na Vila, ao meio-dia. Muito emocionada e carregando uma casinha de isopor na cabeça, a comerciante Iracema Pereira da Costa, 48, não parava de cantar em louvor à santa padroeira de Mosqueiro. Segundo ela, a tão sonhada casa própria foi conquistada graças à ajuda de Nossa Senhora do Ó. “Eu morava numa mercearia com a minha família e dividíamos espaço com as mercadorias, sem conforto algum. Comecei a pedir com muita fé em Deus que me proporcionasse uma casa própria em que eu pudesse viver melhor. Graças a ele [Deus] e ao amor de Nossa Senhora do Ó, consegui comprá-la faz menos de um ano”, disse Iracema.
A festa da padroeira dos mosqueirenses completou 143 anos de tradição em meio à consulta plebiscitária sobre a divisão do Pará. O pároco da igreja de Nossa Senhora do Ó, padre Cristóvão Santos Freitas, considera incrível a união dos fiéis na procissão. “Durante o Círio, pelo menos naquele momento, as diferenças ideológicas e políticas são deixadas de lado para celebrar a fé e o amor a Jesus Cristo. Independente do resultado sobre a divisão do Estado, os cidadãos precisam ter união e respeito pelo próximo”, ressaltou.
(Diário do Pará)
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