Uma morena famosa pelo cheiro e boa de ginga. Famosa pela chuva da tarde e pela sombra das mangueiras que protege nos dias de calorão, Belém completa 396 anos olhando-se no espelho em busca dessas imagens que, para alguns, são pura inspiração, mas que para outros estão, cada vez mais, ficando presas ao passado.
A tradicional chuva do meio-dia, uma das características mais marcantes da capital paraense, tem estado cada vez mais relapsa com o horário. Se no passado era possível marcar um encontro para depois do chuvisco (ou toró), hoje se programar a partir dele é ficar à mercê do imprevisto. “A chuva que antes caía entre o meio-dia e as duas da tarde, hoje tem acontecido após as duas e mais notadamente após as 16 horas. Mais que isso não dá para definir. O que temos de fato é: tem chovido cada vez mais nos últimos anos”, observa o diretor regional do Instituto Nacional de Meteorologia do Pará (INMET), José Raimundo Abreu de Sousa.
Segundo o especialista, o volume pluviométrico anual saltou de 2.761,6 milímetros, entre 1930 e 1960, para 2.921,7 milímetros no período de 1990 a 2010, para ele a urbanização acelerada e impermeabilização do solo retiram da chuva o lirismo de antigamente, transformando-a em estorvo. “Há 31 anos no Instituto, a reflexão que a gente faz é a de que Belém cresceu, mas a rede de drenagem não, e o resultado a gente vê nas ruas. Mesmo uma chuva de poucos milímetros, em determinados pontos críticos é capaz de causar alagamentos”.
A professora e socióloga Violeta Loureiro pesquisou a cidade de Belém e a relação estabelecida com a natureza. Ela concluiu que a “cidade das mangueiras” está, gradativamente, perdendo seu verde natural. “Embora sejam tombadas como bens de preservação permanente, as nossas mangueiras estão abandonadas. Elas estão sofrendo com a ação de cupim, erva-de-passarinho e a própria poda realizada para dar passagem aos fios elétricos”, atesta a professora.
Pesquisas apontam que as castanholas representam 23,7% da cobertura vegetal das vias públicas da capital, seguidas pelas acácias com 21,9%, ficando as mangueiras em terceiro lugar com 21,5% de cobertura. “Já não somos mais a cidade das mangueiras. Infelizmente, estamos desenvolvendo uma ideia perniciosa e equivocada de que as mangueiras são incompatíveis com a urbanização, o que é uma pena, porque além de incorrer em um grande erro, estamos descaracterizando Belém”, afirma Violeta.
O escritor Daniel Rocha Leite assumiu o Pará como identidade. Nascido no Rio, veio para Belém com dois meses e estabeleceu com a cidade uma relação de paixão. “Essa é uma cidade cheia de dádiva, onde o belo e o feio, o alegre e o triste, caminham de mãos dadas”. Para ele, o título de cidade morena traduz a feminilidade que só Belém tem.
CHUVINHA
Mas a ‘palavra final’ sobre a marca de Belém quem dá é o guardador de carros Florisvaldo Farias. “Meu papai, Belém não é Belém, sem essa chuvinha!”, define às gargalhadas. (Diário do Pará)
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