“A Rebeca? Ele era o amor dela...”. A frase não continua. É interrompida pelas lágrimas que parecem subir de dentro do peito. Como uma fisgada, os olhos são fechados para ajudar a suportar a dor, e as palavras sussurradas pela boca rogam a Deus. Antes da entrega despertada pela consciência do sofrimento da filha, Rosana Monteiro tenta ser forte, mas a ausência do marido dói como nenhum vocábulo consegue descrever. “Toda vez que procuro a palavra, não encontro”.
‘Retirado’ da família há apenas um ano - como ela costuma descrever – a ausência de Manoel Raimundo da Paixão Monteiro se faz mais forte todas as noites. É durante as madrugadas que a viúva se levanta, deixando o pequeno Juan Matheus de nove anos dormindo, e se coloca na frente da foto do marido na sala. É lá, sentada no sofá verde que toma um pequeno pedaço do cômodo, que ela pensa em tudo o que aconteceu no dia 29 de janeiro de 2011. “Passo as noites em claro”.
Tudo contribui para as lembranças. O tempo frio, as chuvas trazidas pelos primeiros meses do ano, o vazio da casa que há pouco tempo era abrigo de cinco pessoas, o silêncio. “Aconteceu em uma época difícil, de tempo frio, triste. Quando vejo o tempo assim, frio e cinza, acho triste”, relaciona Rosana. “Parece uma ironia do destino tudo ter acontecido nessa época. Agora, mais do que nunca, janeiro sempre vai ser um mês triste pra gente”.
Apesar de terem conhecimento da morte do pai desde o início, quando a imprensa anunciava a todo o momento o desabamento do edifício Real Class, onde Manuel da Paixão trabalhava como pedreiro, até hoje os três filhos parecem não acreditar na partida repentina de quem, para eles, era mais que um pai. Cada um reage à sua maneira: Maysa, de 14 anos, não gosta de falar sobre o assunto. Sequer permanece por muito tempo em um lugar onde outras pessoas estejam falando sobre a morte do pai. Filha do meio, Rebeca, de 12 anos, se pergunta, questiona a mãe sobre a atual morada do pai no céu. Apesar de mais novo, Juan Mateus é o protetor, o sucessor do pai no cuidado com a família. “Eles tiraram uma pessoa da gente. Ele era o nosso herói”.
‘Eles’. É assim que a viúva se refere à construtora responsável por erguer o prédio que veio abaixo em cerca de quinze segundos. Ainda sem receber nenhuma indenização pelo ocorrido, Rosana passa os dias tentando achar conforto em quem nunca lhe deixou desamparada. “Essa dor é incurável. É apenas ‘dosável’ por um remédio que só Deus sabe dar”.
Apesar de fazer falta em cada parte de seu dia, as lembranças mais fortes do marido chegam à Rosana quando a rotina lhe toma o tempo. O dom da música que, antes da morte do marido, a fazia cantar voluntariamente na igreja, hoje, é também sua forma de sobrevivência. É justamente nesse mesmo momento que a ausência do marido se faz mais presente. “Ele era jovem e cheio de vida. Ele ligava o som da Igreja...”, o sorriso retraído seguido pelas lágrimas que caem fáceis dão espaço ao silêncio que corta o tempo por alguns segundos. Com mais força, ela recomeça. “Existem coisas que ficam marcadas na vida da gente e ficam pra sempre. Passou-se um ano e ninguém esteve sentado ali, no lugar dele. Eu sinto saudade de cada detalhe, do carinho dele comigo, do sorriso... ele me fazia feliz só com o olhar e isso eu nunca mais vou ter”.
O que Elizabete Fonseca Santos nunca mais vai ter é a certeza de encontrar a mãe a qualquer hora. Na passada pela travessa Três de Maio, o cheiro da comida caseira que vinha da casa de Maria Raimunda Ribeiro Fonseca Santos não está mais lá, assim como os familiares e até mesmo as paredes que já abrigavam o chefe da família há 63 anos. Decomposta junto com a queda do edifício de 32 andares, a casa vizinha conhecida pelas reuniões familiares dominicais veio abaixo e levou consigo a aposentada. “Quando eu entrava aqui era ela quem eu via. Ninguém sabe o quanto dói entrar aqui e não ver mais ela”.
A felicidade de Raimunda, tão destacada por vizinhos, familiares e amigos, se traduzia nas constantes reuniões que a família costumava fazer. Aos domingos, era a matriarca da família que organizava a comida, a casa, a recepção dos familiares sempre tão presentes. Local de concentração em momentos de ‘festinhas’, os fundos do terreno, onde até hoje se mantém erguida uma churrasqueira de tijolos avermelhados, é a única parte da casa que permaneceu em pé após o desmoronamento. “Aqui era o nosso centro, nossa diversão e não temos mais isso. Acabou tudo”.
Sempre abrigo de Raimunda em dias de chuvas fortes, o local foi esquecido momentaneamente no sábado em que o Real Class veio abaixo. Encostada na grade a espera do marido Antônio Emídio, que havia saído a algum tempo de casa, a aposentada permaneceu no local mais atingido pelos destroços vizinhos. “Meu pai chora todos os dias, mas ele foi se fortificando. Ele é quem dá o suporte pra gente. Minha mãe deixou ele para nos segurar”, conta a filha. “É uma tragédia na nossa vida”.
Sob os pedaços em que se transformou a casa dos pais, Elizabete lembra do que, desde então, tem sido a luta da família. Ainda na espera de uma decisão judicial sobre o valor da indenização pelo bem de família, ela pensa também no que quantia nenhuma poderá repor. “Minha mãe não tem preço”.
A dor encarcerada dentro do peito desde que se viu sem o marido não permite que Maria Irene Barros fale sobre o assunto. As notícias veiculadas nas televisões vez ou outra, a proximidade da data que lhe tirou José Paula Barros e mesmo a repetição, em outros moldes, de uma tragédia no Rio de Janeiro. Tudo desperta na viúva o sofrimento jamais contido. “Minha mãe não pode ouvir falar no assunto que passa mal”, justifica a filha Rosinéia de Souza Barros. “Ela já chorou muito na noite que caíram os prédios no Rio de Janeiro. Isso mexeu muito com ela, até porque o nome da rua dos prédios é Treze de Maio”.
A mãe não é a única fragilizada com o assunto. José Barros, outro operário que estava no prédio no momento da queda, deixou dez filhos. Para todos eles, a opção de falar no assunto continua sendo descartada pela dor tão presente no dia-a-dia. “A família inteira ficou muito abalada. Meu irmão Rosemiro não teve mais nem condições de trabalhar. É muito difícil falar no assunto”, diz Rosinéia por telefone, único meio pelo qual o sofrimento lhe permitiu falar. “O que sabemos é que a dor é muito grande e que não recebemos nada de assistência”.
Real: falta de acordos são a constante
Passado um ano do ocorrido, nenhuma família das vítimas fatais da queda do Real Class foi indenizada até hoje. De acordo com o advogado da Construtora Real, responsável pelo empreendimento, Roland Massoud, os processos referentes a indenização dos operários Manoel da Paixão e José Barros ainda corre pela Justiça do Trabalho. “Já que não houve acordo, o processo está correndo em juízo”, afirma.
Já com relação a indenização pela perda material da família da aposentada Maria Raimunda, vizinha ao edifício que faleceu dentro de casa com o desabamento, o advogado afirma que o processo também ainda corre em juízo em decorrência de não haver acordo. “Chegou a uma situação que ficou inviável. Avaliamos a metragem do terreno e depositamos um valor em juízo. A família está morando de aluguel pago pela empresa”.
AS VÍTIMAS DO REAL CLASS
Maria Raimunda Ribeiro Fonseca Santos, 67
Raimunda Fonseca era moradora da casa vizinha ao edifício e estava no local no momento em que o prédio veio abaixo. Ela foi a primeira vítima fatal a ser encontrada pelo Corpo de Bombeiros dois dias após a queda. Porém, o corpo só pôde ser identificado no dia seguinte através de um exame de DNA. Raimunda, que costumava organizar almoços em sua casa para familiares e amigos nos sábados, estava em casa apenas com um pedreiro que fazia reparos no telhado da casa. Raimunda deixou quatro filhos e o marido Antônio Emídio.
José Paula Barros, 60
Segunda vítima retirada dos escombros do Real Class já sem vida, o operário José Barros foi identificado - além do reconhecimento do corpo pela família -, através dos seus documentos pessoais que estavam intactos em seu bolso.
Operário da construtora Real Engenharia há nove anos, José Barros era responsável pela operação do guincho usado durante a obra. José Barros deixou dez filhos e a esposa Maria Irene Barros.
Manoel Raimundo da Paixão Monteiro, 35
Um dos operários que estavam na obra no momento do desabamento, Manoel da Paixão foi retirado já sem vida dos escombros, seis dias após a queda. O corpo do operário, que já trabalhava para a construtora há mais de um ano, foi o último a ser encontrado pelo Corpo de Bombeiros na área onde ficava o vestiário do prédio.
Manoel deixou três filhos e a esposa Rosana Monteiro.
A vida salva por uma telha quebrada
Com cuidado, Raimundo Rodrigues pinta o portão de madeira do local onde quase perdeu a vida. O cenário visitado hoje é bem diferente daquela tarde de sábado. A tarde em que ele viu, pela última vez, a casa onde já trabalhou por tantas vezes em mais de vinte anos.
No dia 29 de janeiro do ano passado, o que lhe levou até a casa da aposentada Maria Raimunda Ribeiro Fonseca Santos foram algumas goteiras. O serviço era simples. Raimundo – ou ‘Cheira’, como é conhecido - precisaria apenas trocar algumas telhas já demarcadas por ele em cima do telhado. Antes de subir ao forro da casa para analisar as peças que estariam precisando de reparo, viu dona Raimunda pela última vez. “Quando eu passei, vi ela sentada numa poltrona no quarto dela”, as lágrimas não podem ser contidas.
Do alto, ele marcou as telhas que causavam problema. “Tava tudo certo”. Ele já ia descer quando, como se o detalhe atraísse seu olhar, viu uma telha rachada, uma telha que ainda não havia marcado. “Foi Deus quem virou meu rosto para aquela telha”, relaciona. “Se eu não tivesse visto aquela telha rachada, eu teria descido segundos antes e tudo teria caído em cima de mim”.
No momento em que Cheira virou-se para a última telha a ser marcada, dois estrondos o assustaram e, em segundos quase incontáveis, Real Class, a casa de dona Raimunda e a casa vizinha vieram abaixo. “Eu gritei logo por ela. Não sabia que tinha desabado o prédio, mas eu só gritava por ela”.
Cheira ficou desacordado por aproximadamente uma hora. Acordou com o celular tocando em seu bolso. Quando recobrou a consciência, os bombeiros já o estavam retirando do local. Das muitas pessoas que lhe ajudaram no momento da confusão, não se esquece de Cristina. A bombeira Cristina a quem ele, mesmo debilitado e precisando de cuidados, só pedia que ligasse para o patrão, Antônio Emídio, para avisar o que tinha acontecido com sua esposa Raimunda. “Eu queria saber se ela estava viva. Eu vi ela viva pela última vez e isso a gente não esquece”, chora. “Que saudades da ‘Mundoca’. Aquela mulher era boa de coração”.
Além das lembranças tristes, Cheira herdou da tragédia a dor física. O braço esquerdo, após o acidente, não é mais o mesmo. Por muito tempo, o pedreiro precisou de ajuda até mesmo para vestir uma camisa. O trabalho pesado que antes lhe permitia sustentar a família, lhe possibilita, agora, apenas alguns serviços mais leves. “O que antes era 100%, agora é só 20%. Agora, quando me oferecem serviço, eu tenho que passar pra conhecidos porque serviço pesado não é mais comigo”.
Dentre os serviços leves, Cheira ficou responsável por preparar o portão de madeira que fecha o caminho ao local que, antes, abrigava a casa de Maria Raimunda. De qualquer modo, a possibilidade de estar no local, hoje, foi conquistada com muito custo. “Toda vez que eu vinha aqui, me sentia mal. Agora já consigo entrar, às vezes venho aqui e fico sentado, pensando...”, conta. “Mas até hoje eu tenho medo. Isso não sai da gente. Se dá uma chuva, eu não fico aqui não”.
Marcas também fazem parte da vida de Edith Pereira até hoje. Moradora do Edifício Londrina, um dos três que precisou ser evacuado em decorrência da queda do prédio vizinho, Edith mantém na lembrança incontrolável os transtornos causados pela confusão.
Por noites recorrentes, a escuridão vista no momento em que entrou no apartamento silencioso para resgatar alguns pertences a persegue encharcada pelo temor de que tudo se repita. “Nos meus sonhos eu estou tranquila quando, de repente, me vejo obrigada a escolher o que salvar em apenas 10 minutos”. Além dos sonhos, o medo de que algo aconteça com o local que escolheu para viver a procura também no dia-a-dia. “Quando passo na frente de casa, na rua, eu passo procurando o meu prédio para ver se ele ainda está lá. O que se causou emocionalmente com essa queda, ninguém apaga”.
Ninguém apaga também o que a empregada doméstica Ana Lúcia Lobo passou no momento da queda do Real Class. Ela, que trabalha há quinze anos com uma das famílias que moram no Edifício Blumenau – o que ficava bem ao lado do que desabou – estava no local quando o prédio veio abaixo. O pensamento inicial era de que um avião tivesse caído ao lado. “Ouvi um barulho como se fosse um trovão longo. Não sabia o que tinha acontecido. Fui no corredor e vi as pessoas correndo”.
Sem olhar pela janela da cozinha, que dava vista lateral para o Real, Ana correu em direção a saída. Só notou o que tinha acontecido quando já estava fora do edifício. “Foi muito rápido”.
Passado o ocorrido, voltou a trabalhar no apartamento somente após ser convencida pela patroa. O retorno foi marcado pela distância do único local do prédio onde é possível ver o vazio deixado pelo Real Class. “Eu passava roupa na sala. Não conseguia olhar para lá”.
(Diário do Pará)
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