Na esquina de um trecho da avenida Alcindo Cacela, um segurança, vestido de preto e com colete à prova de bala, olha atento aos menores movimentos de quem por ali trafega ou estaciona. É a vigilância feita a uma loja de roupas femininas. A providência foi tomada depois de um assalto, com direito a tiroteio e perseguição cinematográfica. Essa é uma cena cada vez mais comum no Umarizal, considerado um dos bairros nobres de Belém.
Em um ano, de julho de 2010 a julho de 2011, o Umarizal foi registrado nas páginas policiais do DIÁRIO DO PARÁ como um território perigoso para lojas, escritórios e residências. Pelo menos 20 ocorrências foram retratadas nas páginas do jornal - mais até do que no próprio centro comercial de Belém, por exemplo, que teve 17 ocorrências.
Ao contrário do que ocorre em bairros já famosos por violência cotidiana, no Umarizal não são os acertos de contas, os assassinatos ou o tráfico de drogas o que ranqueia o bairro em relação à violência. Os índices referem-se a outros tipos de crimes. Entram aí os sequestros-relâmpagos, as saidinhas, os assaltos com reféns. Reflexo do perfil socioeconômico dos que vivem no bairro.
Morador do bairro há cinco anos, Adriano (os nomes dessa matéria foram alterados para preservar os personagens) é testemunha de situações que preferia esquecer: ele sempre vê assaltos da janela do seu apartamento.
Para Adriano, essa é a prova de que a violência aumenta no bairro. Ele mesmo já foi assaltado. “Tem horários que fica mais perigoso. Tipo oito da noite”.
Adriano também conta que o irmão de um amigo dele, no final do ano, sofreu um sequestro-relâmpago. “Dois moleques entraram no carro com ele e o fizeram rodar, atrás de grana”. É a repetição de histórias semelhantes: mudam os personagens, mas a violência é similar no Umarizal.
MAIS DO MESMO
Em julho do ano passado, Eder Pamplona Barbosa e Cleiton Cunha, de 18 anos, tencionavam tirar a tarde para assaltar. No assalto frustrado acabaram por fazer de refém um senhor de 65 anos. E aí começam as negociações com a polícia. Embora seja louvável o fato de que não costumam haver mortes nessas ocasiões, tornou-se abusiva a exigência dos criminosos, que pedem cigarros, namoradas e outras coisas mais. A população se revolta. Quando pode tenta linchar os assaltantes.
Um mês antes, um farmacêutico foi feito refém por três adolescentes. “Cheguei para estacionar no meu apartamento quando eles chegaram. Tentei manter a calma, vim negociando. Eu ofereci dinheiro para ser liberado. Eles pediram para que eu os levasse para outro carro onde faria outro assalto, porque não tinha o dinheiro para eles”. O sequestro-relâmpago foi iniciado na rua Antônio Barreto com a avenida Generalíssimo Deodoro. Acompanhado da mulher, o farmacêutico dirigia o carro, um Corolla preto, quando foi abordado pelos bandidos, um deles armado. Em ambos os casos, o horário de risco: às 20h30.
VÍTIMAS COM GRIFE
No Umarizal, os crimes chamam a atenção não só pelas características peculiares, como também pelo perfil de quem é o alvo da violência. O próprio conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Cipriano Sabino, chegou a ser uma dessas ‘vítimas de grife’. Para variar, um sequestro-relâmpago no início da noite, próximo a casa de Sabino, na 9 de Janeiro. A abordagem seguiu o mesmo padrão, com quatro homens armados abordando o veículo da vítima.
Geralmente os bandidos assumem a direção do veículo e seguem em disparada com o carro rumo a outras ruas. Não raro ocorrem perseguições policiais, que culminam com os reféns servindo de escudo humano.
Foi o que ocorreu com um radialista no ano passado. Ele foi atacado por um bando na avenida Senador Lemos, próximo à Almirante Wandenkolk. Colocado no banco de trás do veículo, assistiu a um dos assaltantes assumir a direção com o objetivo de promover um sequestro-relâmpago. Geralmente alguém acaba vendo a cena e liga para a Polícia. O resto é a repetição do mesmo roteiro já aqui contado.
“Eu desisti”, diz a ex-proprietária de um escritório no bairro, depois do terceiro assalto sofrido. “O Umarizal tem a vantagem de ser central, nobre, isso tudo. Mas acaba pagando por ter essas mesmas qualidades”, desabafa. (Diário do Pará)
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