“Algumas pessoas dizem que Belém é a cidade do já teve. É triste admitir, mas em relação ao patrimônio histórico, a afirmação é verdadeira”. Com a trajetória de quem há anos se dedica ao estudo de espaços seculares da capital paraense, a professora Ida Hamoy, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Pará (UFPA), fala com pesar sobre a situação em que se encontram alguns prédios de grande relevância à preservação cultural da região.
A arquiteta foi uma das pessoas que percorreu o interior do Palacete Victor Maria Silva logo após receber denúncias de que os azulejos do interior do imóvel vinham sendo furtados. Ela diz que além dos azulejos, ainda estão no palacete um piano antigo, lustres, louças, móveis e vários objetos com valor histórico. “Para retirar um azulejo inteiro, foram quebradas diversas peças e o chão estava tomado por estes restos. Alguns painéis foram destruídos, mas há possibilidade de restauro”, comenta. Ela acredita que a pessoa que retirava o azulejo não deveria ser conhecedora do tema, pois deixava a própria assinatura do artista jogada no local. “Deve ser alguém que só estava fazendo o trabalho a mando de um interessado maior”, especula.
Mesmo assim, a avaliação geral do imóvel foi positiva. ‘Tivemos uma boa surpresa ao constatar como os objetos e o próprio imóvel ainda está conservado. Se alguém esperava que ele ruísse para a utilização do terreno, precisará ter paciência, pois sua estrutura é muito boa”, comenta a arquiteta Ida Hamoy.
Em 2006, o palacete foi adquirido por um empresário, dono de uma rede de lojas de departamento, que afirma não ter condições de manter o imóvel. No local, chegaram a ser colocadas placas de “aluga-se” e até “vende-se”, mas o preço seria alto demais e não houve interessados. Na última sexta-feira, o juiz da 2ª Vara de Fazenda da Capital, Marco Antônio Castelo, concedeu liminar, em ação civil pública movida pelo Ministério Público Estadual, para que o proprietário providencie a restauração integral do prédio no prazo de um ano e para que contrate guarda armada para proteger o prédio durante 24 horas. Caso a liminar seja descumprida, a multa diária é de R$ 5 mil.
Os vizinhos relatam que há alguns anos o espaço passa por uma triste depredação. “O barulho era tão alto que dava a impressão de que iam derrubar a casa. Os vizinhos mais próximos se reuniram e começaram a ligar pra pessoas que pudessem ajudar”, comenta a dona de casa Maria do Socorro, que mora há alguns metros do local, no início da Praça Coaracy Nunes, a praça do Ferro de Engomar. Ela afirma que movimentos assustaram as famílias mais antigas da redondeza. “O palacete sempre foi uma referência de beleza e história pra todos nós. É muito triste ver ele sendo desrespeitado assim”, comenta.
No local, a imagem é de fato entristecedora. As laterais da casa estão cobertas por limo e pichações. A entrada é tão frágil e aparenta ter sido forçada tantas vezes que fica difícil acreditar na eficiência da segurança particular que ostenta seus adesivos na fachada do palacete. Adornos de ferro foram retirados à força e algumas janelas estão sem parte da vidraça e tentam, em vão, preservar o interior com tábuas de madeira. (Diário do Pará)
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