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Vicente Cecim completa série do DIÁRIO

Vicente Franz Cecim tinha 33 anos – idade de ressonância bíblica, tão cara a uma literatura atravessada de mitos, simbologias, quedas e ascensões – quando publicou seu primeiro livro, A Asa e a Serpente. Lançada em 1979, época de assombrações políticas, d

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Vicente Franz Cecim tinha 33 anos – idade de ressonância bíblica, tão cara a uma literatura atravessada de mitos, simbologias, quedas e ascensões – quando publicou seu primeiro livro, A Asa e a Serpente. Lançada em 1979, época de assombrações políticas, de repressão, de censura, de revolta e medo, esta novela – surpresa –, 33 anos depois, ressuscita, renasce para o leitor paraense. Com ela seu autor – ainda que naquele momento não o soubesse de todo – inaugurou o fabuloso ciclo de Viagem a Andara, hoje ramificado em dezesseis títulos editados, no Brasil e em Portugal. Leitura que se abre, desdobra em tantas outras leituras, com A Asa e a Serpente – agora acompanhado dos Manifestos Curau, com suas exigências e denúncias poético-políticas erguidas do chão amazônico – se conclui esta série “Pará de Todos os Versos, de Todas as Prosas”, cujo sucesso revelou que há leitores paraenses ávidos de leitura paraense. E Vicente Franz Cecim, luminoso escritor alimentado destes nossos falares, um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade, reconhecido além-Atlântico, é, sim, motivo de nosso pleno orgulho, como revela a entrevista que segue em que fala de sua obra e da reedição do livro que marcou sua estreia na literatura.

P – Livro inaugural, qual a estação que A Asa e a Serpente ocupa nessa viagem a Andara, que portas ele abre? A propósito, você revisou, ou reescreveu, o livro quando o incluiu em Viagem a Andara oO Livro Invisível?

vFc – Isso pede algumas palavras introdutórias. A Literatura é uma coisa muito poderosa, Elias, tu sabes. E pode ser benéfica ou maléfica. Então, eu escrevia ficções desde bem jovem mas me jurei só publicar um livro quando, se não fizesse bem, pelo menos fosse um livro que não faria mal às pessoas. Assim, A Asa e a Serpente só apareceu quando eu tinha 33 anos de idade, como o primeiro passo, e voo, da viagem a Andara. Foi o primeiro livro visível, isto é: escrito, do livro invisível, isto é: não escrito e puramente imaginário, Viagem a Andara, que estava começando a vir à tona através de mim, sem que eu ainda soubesse muito claramente disso. Entre as primeiras e seguintes edições, houve mutações nos sete primeiros livros de Andara – hoje são dezesseis editados, no Brasil e em Portugal – e não apenas revisões: eles foram transcriados – palavra que eu pensei haver criado, mas achei no dicionário, significando: criar sobre o já criado, sobre a obra original.

P – A certa altura se diz que o “tema da queda será uma obsessão neste relato”. A queda a que você se refere é religiosa, mítica, política? E essa “queda” continua a persistir, como tema, nos demais livros de Andara?

vFc – Sim, persiste. A viagem a Andara é feita através de muitas quedas e ascensões, como na Vida as coisas estão sempre caindo ou subindo em Andara, passando, com violência ou indiferença ou ternura, umas pelas outras em seus percursos de asas ou serpentes. Esse movimento tem as naturezas que tu mencionaste, mas organicamente são voos e quedas míticos. Homero diz na Odisseia que fala com duas linguagens: dos fatos, com as palavras, do mítico, com o mito. Também escrevo os livros de Andara assim.

P – E por falar em política, A Asa e a Serpente foi publicado em 1979, “a época do grande medo, que se tornou assombração política e fantasma histórico na cidade do Grão ou em qualquer outra parte do Brasil após 64”, como diz do livro Benedito Nunes. A novela nasceu assombrada por aqueles fantasmas da repressão, da censura? E as inquietações que a narrativa espelhou aos leitores de 1979 continuam a incomodar o leitor de hoje?

vFc – Ah, sim. Aquelas assombrações e outras, porque assombrações estão sempre sendo geradas pela nossa Civilização Ocidental, da qual recebemos aqui no Brasil todos os impactos – via dominação econômica e cultural da América norte-americana. Mas como A Asa e a Serpente, sabendo disso, é uma alegoria do Mal como ele se manifesta através do humano sob várias formas e fábula da nossa resistência a ele, é um livro bem vivo. Pode e deve ser lido se adequando aos tempos atuais as suas confrontações e as denúncias que fez daquelas assombrações da época em que foi criado.

P – E até que ponto os Manifestos Curau, iniciados e lançados em 1983, também continuam atuais?

vFc – Os Manifestos Curau são tão atuais quanto A Asa e a Serpente – e pertencem às mesmas épocas de antigas assombrações que, como eu disse, sob novas formas, também se renovam para vir nos perturbar por outros ângulos, com outros assédios – no fundo, sempre os mesmos: o da opressão, violência, o da mentira, desrespeito pela Vida como um Todo – Natural e Sagrado – e por cada um de nós, em suas vidas pessoais – igualmente, tanto entes naturais como seres sagrados. As exigências e denúncias poéticas-políticas dos Manifestos também podem, e devem, ser adequadas às assombrações atuais, ao serem lidos agora junto com A Asa. Para dar apenas dois exemplos: o avanço destruidor e as ameaças permanentes à Floresta Amazônica acabaram ou se atualizaram? Vê Belo Monte, Vale do Rio Doce – são nomes encantadores para ocultar ações desencantadas com a Vida. O uso das pessoas como peças mecanizadas de uma engrenagem de explorações e distorções da Vida Real, a autêntica, cessou? Hoje, eu sou ainda mais rebelde do que ontem, contra tudo isso. E os livros de Andara, passados, presentes e futuros, sempre serão insurreição.

P – A Asa e a Serpente é apresentada como novela, mas Benedito informa que a leu como poesia, um “poema lírico-narrativo, ou um poema dramático na terminologia de Fernando Pessoa”. Você acompanha essa leitura do nosso saudoso Bené? A sua obra, como já se disse, é um poema em prosa?

vFc – Não é poema em prosa – é libertação da rigidez da fala prosaica pela fala poética – o que está intensamente expresso e praticado no segundo livro visível de Andara, Os Animais da Terra – e é uma exigência semelhante a que faço em relação a uma vida poética, em ascensão, contra os modelos resignados que nos são impostos de viver rígido, feito de quedas. Benedito percebeu algo disso, como leitor, e disse com as palavras dele. Mas deixa dizer de dentro da obra, como autor: o que faço é uma Literatura insubordinada aos gêneros, faço o que chamo de Escritura: plena liberdade de gerar um outro mundo, trans-figurando pelo Imaginário o mundo como ele se apresenta aparentemente a nós, através de uma linguagem escrita que penetre, colha e expresse mais do fundo, perfurando as aparências, a Vida. Dito isso, acrescento que gostei muito que Benedito Nunes, nosso amigo, tenha visto o livro como viu, como um “poema lírico-narrativo”, me senti compreendido, através dele, desde o primeiro passo da viagem a Andara. E penetrei na “selva escura” de Andara ainda mais disposto a levar comigo Luz e não deixar na entrada “toda a esperança” de fazer uma Literatura a favor da Vida em ascensão.

P – Muitos autores já foram chamados, evocados, convocados, para dar conta de uma família, de uma genealogia literária a que você pertenceria, que até comporta extremos. Lembro, entre outros, de Guimarães Rosa, Kafka, o Nietzsche de Zaratustra, Lautréamont, Beckett, Novalis... Na releitura, há pouco, que fiz de A Asa e a Serpente (na 1ª edição, de 1979), veio-me fortemente, gravitando em volta do sargento Nazareno, aquela ambientação do José J. Veiga, por exemplo, de Sombras de Reis Barbudos. Você próprio se incluiria em alguma família literária? Que autores você leu e lê?

vFc – Como eu vejo isso: todos aqueles que escreveram e escrevem com um sentimento de Humanidade, em relação ao homem, e na dimensão da Vida na Terra como Vida Cósmica – e não apenas como um eu separado, aqui caído e encarcerado – vão formando uma cadeia, continuamente renovada e prolongada, atravessando os tempos. Eu escrevo com esse sentimento e busco essa dimensão, me sinto responsável pela condição humana na Terra e no Universo. Ora, eu também sou um homem e estou aqui, não é? E a Terra já é o Céu, não é? Como poderia ser diferente? Então, os que leem Andara identificam os elos passados dessa cadeia, eu acho. Mas me jurei, também, preservar suas originalidades e jamais imitar aqueles escritores que amo – esses que tu citas e outros, e não só os autores de ficções e poemas: Heráclito, Parmênides, Plotino, Schopenhauer, alguns dos nomes ocidentais, e também as vozes orientais de Buda, do Tao de Lao-Tsé e Chuang-Tsé, do Zen de Huineng e dos haikais de Bashô. Graças a isso, quem escreve sobre os livros de Andara evoca, sim, esses autores – mais não compara. Ah, o Veiga, gosto bastante do que ele escreve, nos conhecemos e ficamos amigos pelos fins dos anos 80. Mas ele veio depois: antes encontrei Rulfo, e Beckett, e sobretudo e primeiro Kafka – aquele que mais preservo e está mais presente no que escrevo, embora, porque o preservo das imitações e repetições desgastantes, não apareça.

P – No conjunto da primeira recepção crítica de A Asa e a Serpente, Lúcio Flávio Pinto nota que o texto “é quase um monólogo, carregado de uma ambientação rimbaudiana”. No que concordo – o ambiente da Saison en Enfer. Mas, no conjunto, Lúcio conclui que o livro “ainda é muito titubeante em termos de criação artística. Não conseguindo chegar ao teto da radicalidade poética, não se desprendeu o suficiente do chão de um certo sociologismo redundante. Mas indica boas pistas a percorrer”. Àquela altura, você concordaria com o Lúcio? E depois, Viagem a Andara se desprendeu, descolou sua sombra do chão?

vFc – A Asa e a Serpente é um primeiro livro que já busca a Vida em Ascensão, como eu falei – mas, em relação aos passos que depois a viagem a Andara deu, partiu do rés do chão da vida social, imediata, e pesada, estando a nossa vida cercada por uma Ditadura militar por todos os lados quando o livro veio à tona. Com o passo vindo debaixo, “A serpente e a asa” seria seu título invertidamente. Mas falemos do que é um primeiro passo em direção ao desconhecido de uma escrita tateante, embora instauradora e ousada frente aos limites literários que se dispunha a atravessar. Contra todas as Fórmulas literárias, contra o Talento de escrever bem, o livro de fato foi escrito buscando o tosco, o inacabado e uma escritura mais selvagem, indomada – e nisso, sim, parece ter sido da mesma natureza de Uma estação no inferno, pois eu, como Rimbaud, também queria “mudar a Vida” e não apenas a Literatura. Continuo querendo. E cada vez mais. Mas as perspectivas dos leitores são, sempre, múltiplas. Vê: para Benedito Nunes o livro ultrapassou um limite, para o Lúcio, ficou aquém. Mas um viu nele Pessoa e o outro Rimbaud, autores que amo. E isso me alegrou, na época.

P – E Santa Maria do Grão, “essa tosca capital arcaizada de Andara”, (ainda) dorme?

vFc – Santa Maria – de Belém – do Grão – Pará – de onde eu a extraí para aparecer no livro como a cidade do Grão. Aquela parte se nutre da liberdade mítica, que amplia as realidades em Real. Se a parte dela que deixei de fora de Andara estivesse apenas adormecida, na vida vivida, poderia até, como diz Shakespeare, “dormir, talvez sonhar” quem sabe. Sonhos libertários. Mas está submersa em um sono, sem sonhos, alienante das urgências que nos corroem e corrompem. É contra essa noite inútil que os Manifestos Curau que acompanham esta nova edição de A Asa e a Serpente, do DIÁRIO, lançam seu subtítulo-denúncia: Flagrados em delito contra a noite – a noite dos sonhos libertários. Sabemos quais. Conhecemos seus agentes, seus sargentos Nazarenos. Por isso os Manifestos Curau que acompanham esta nova edição de A Asa e a Serpente feita pelo DIÁRIO – também são atuais: suas denúncias e exigências continuam as mesmas, agravadas, e ainda ignoradas. Espero que as novas gerações despertem. Eu disse que iniciei a viagem sem deixar do lado de fora “todas as esperanças”.

P – Cecim, eu ia lhe pedir que apresentasse Andara a um possível novo leitor que chega às suas páginas, inaugurando-as, movido por esta entrevista, pelo espírito desta coleção – mas parece que você já fez isso. Faço então esta pergunta: por que ainda que incorpóreo, pesa (pesa?) sobre Andara o destino de ser “O Livro Invisível”?

vFc – Te referes à invisibilidade da minha obra no mercado editorial? A aquela Andara que não é vista pelas editoras reduzidas a fábricas que reduziram os livros a produtos e os leitores a meros consumidores? Ah, é natural: o Capitalismo mercantil é uma queda sem fundo, nenhuma leveza, nenhuma chance de Ascensão. Nessa escuridão Andara não deve mesmo cintilar suas luzes. E no entanto também sou apenas parcialmente socialista – prefiro Bakunin a Stalin, claro, e mesmo a Trotsky, e vejo a Literatura como uma forma de an-arquia libertária. Mas é inútil o mercado editorial ignorar Andara e deixar ela do lado de fora, sem “esperança”. Andara é a Vida. A coisa abrangente. E o mercado editorial é que fica incluído nela.

P – Esta coleção, que faz parte da série Orgulho do Pará, se destina a apresentar (o que significa recolocar em circulação) aos leitores paraenses escritores paraenses, que, no mais das vezes, não tiveram a honra e o prazer de ser apresentados. Sendo assim, mesmo consciente de que você é um autor de reconhecimento não só nacional, mas já atravessou o Atlântico, gostaria que você se localizasse na literatura local. Que lugar sua literatura ocupa na literatura paraense?

vFc – Lugar? No espaço, Andara quis ser Lugar de Nenhum Lugar para poder ser Lugar de Todos os Lugares. Tempo? Andara é escrita no Tempo das Hipóteses, para escapar das delimitações dos tempos verbais do Passado, Presente, Futuro. É uma viagem muito solitária. Por escolha. Embora participante. O diálogo de Andara é com o Imaginário e a Literatura Oral da Amazônia. Que me parece nossa expressão literária mais fecunda e singular nas literaturas do mundo. Quanto ao que aqui é escrito, como criadores, cada um de nós segue o seu caminho pessoal – mas estamos na mesma via das dificuldades para editar nossos livros. Dialogamos pouco. E isso, essa via de dificuldades, é o que mais nos aproxima. Queiramos ou não, devemos lutar juntos contra elas. Sou grato ao DIÁRIO por mim e pelos outros editados na coleção. Publicar um livro, entre nós, é quase como um milagre – uma antiassombração. (Diário do Pará)

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