“Sinceramente, acho difícil encontrarem um amor assim igual ao nosso que começou desde pequeno”. O autor da frase seu Ferdinando Souza, 74, tem razão. No dia internacional do amor, comemorado ontem, ele sentou-se ao lado da esposa, dona Maria Lúcia Souza, 70, apenas para recordar os quase dez anos de namoro e 48 de casamento.
Uma história que para os dois começou ontem, às escondidas na travessa 9 de Janeiro. Esperto, Seu Ferdinando lembra que primeiro conquistou a confiança dos sogros e só então entrou na casa da atual esposa para pedir a “permissão” para o namoro. “A gente já namorava há muito tempo, mas naquela época não podia pegar nem mão. Não tinha essa história de agarra-agarra. Como não tinha televisão, na época, a gente ficava no caramanchão [espécie de varanda] da casa dela conversando, sempre com alguém por perto para avisar quando os pais dela viessem chegando”, relembra o senhor. No lar, a jovem Lúcia desdobrava-se para conseguir o direito de ir além. “A casa tinha que ficar um brinco. Era louça lavada, comida feita e um pedido para ir ao cinema. O combinado era ele ir direto para o Iracema [nome do cinema na época], a gente só se encontrava lá. Era escondido mesmo, mas sem maldade”, diverte-se a aposentada.
Os dois casaram dia 25 de janeiro de 1964 na Igreja dos Capuchinhos, antes da cerimônia, lembra o marido, o sogro ofereceu um copo com bebida bem forte para dar coragem, mas nem precisava. “Eu nunca me arrependi. Ela e eu nascemos um para o outro. Para separar, só quando chegar a hora e Deus chamar para subir mesmo”, diz ele com olhar apaixonado.
Não à toa, o casal é referência de união feliz no bairro. Em todos esses anos, os dois jamais brigaram. “Lembrando um dia desses, até brinquei, ah vamos brigar, vai! Mas não foi para frente, a gente não tem motivo. É só ter paciência que vive bem”, ensina dona Lúcia garantindo que o marido continua romântico. “Ele vive grudado em mim, me ajuda em tudo em casa e quando vejo está cheirando o meu cabelo”, elogia.
Novo Amor
Sem todo esse tempo juntos, a motorista Gabriela Cintra, 39, e o administrador João Paulo Castro, 32, também se orgulham da história de amor que vivem. Juntos há seis meses, o casal que já se conhecia se reencontrou em Salinas após dez anos sem contato e desde então não se desgrudou mais. “Eu estava com o pé no avião, tudo pronto para mudar de Estado. Tinha sofrido uma desilusão amorosa e não queria mais saber de amor. Era minha despedida, mas foi amor instantâneo. Não consegui viajar.” conta Gabriela que em pouco tempo viu a vida mudar.
A história entre os dois ficou tão séria, que já decidiram casar. Em janeiro houve o noivado e agora, freqüentando o curso para noivos na Igreja, os dois sonham com a felicidade plena. “Nunca vivi algo tão intenso. Tenho certeza que é amor verdadeiro. Algumas pessoas pensavam que seria passageiro, mas é de verdade. Ela é incrível”, garante o administrador enquanto a noiva brinca. “Eu sou de peixe, ele de aquário. Não dá para fugir”, diverte-se a jovem que confessa sentir uma adolescente apaixonada. “Faço um calendário com todas as datas comemorativas, eu me sinto uma menina de 15 anos”.
Freud explica
Em algumas correntes da psicologia o amor é descrito como uma energia psíquica fonte da mais poderosa ferramenta de transformação da personalidade. Para a psicóloga Niamey Brandão “o ser humano nasce marcado pela necessidade de afeto e por isso há um investimento amoroso, carinhoso, afetuoso como busca incessante”. Segundo ela com o ritmo mais acelerado das cidades, as pessoas tornaram-se mais imediatistas também no campo amoroso, dificultando que histórias como a de Seu Ferdinando e Dona Lucinha sejam regras. (Edmê Gomes/ Diário do Pará)
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