Ainda na escada que dá acesso ao pequeno cômodo, o barulho da máquina de costura se mistura ao batuque do samba que toca no radinho encostado ao lado. Entre paetês, tecidos, linhas e desenhos, Luiz Antônio Rocha dribla o nervosismo com música. Responsável por executar as fantasias que darão cor à avenida do samba durante o desfile da escola Grêmio Recreativo Cultural e Carnavalesco Deixa Falar, Tico Rocha, como é mais conhecido, dedica boa parte de seus dias à missão de deixar tudo pronto a tempo.
A tensão e a emoção são divididas a cada minuto. A poucas horas da entrada na avenida da Aldeia Amazônica de Cultura Cabana Davi Miguel, quatro fantasias de destaque ainda não haviam saído do papel. Mas não tem problema, Tico sabe lidar. Há 21 anos, sua vida tem sido voltada à emoção do carnaval proporcionado pela escola que lhe acolheu. “Eu trabalho com carnaval há 25 anos, já passei por quatro escolas, mas estou aqui na Deixa Falar há 21”.
Seu envolvimento com o samba começou na ala da chapelaria, passou pela ornamentação dos carros alegóricos e, hoje, está na costura. Sob sua responsabilidade, as 1.200 roupas usadas pelas oito alas da escola. Além da função oficial, o amor pela escola lhe incube outras tarefas. “Tenho um ateliê em casa. Também sou um dos responsáveis por arrumar todo mundo na avenida na hora do desfile. Eu fico nervoso, querendo já arrumar todo mundo”, afirma. “A emoção de ver a escola na avenida é muito grande”.
O amor do mestre de bateria Flávio Guimarães pela escola da qual faz parte há 19 anos quase o levou a morte há cinco. Os dias de trabalho intenso que antecederam a entrada da Embaixada do Samba Império Pedreirense e a emoção de ver sua escola campeã fizeram com que seu coração batesse acelerado. “Eu tive um infarto na avenida quando ela foi campeã. Meus filhos ficaram preocupados, mas eu não paro com o carnaval. Só quando Deus quiser”.
Dos 56 anos de vida de Flávio, 43 foram dedicados ao samba. O ritmo comandado por ele e mais cinco mestres do Império Pedreirense foi aprendido ‘de ouvido’, como costuma descrever. “Eu olhava as escolas de samba quando eu era moleque. Entrou na minha cabeça”.
Hoje, posicionado à frente da bateria, o que o mestre vê são crianças. Crias de seu ensinamento. “Eu fico feliz da vida quando vejo eles tocando porque fui eu que criei os caras. São 79 crianças que tiramos das ruas com esse projeto”, orgulha-se. “Nessa reta final vamos ajeitando o que está quebrado nas baterias. Eu já me arrepio todo só de pensar na hora que a gente vai entrar na avenida”.
O arrepio também é a principal demonstração física de amor da bancária Juliany Alcântara pela escola da qual faz parte há 12 anos. Destaque no primeiro dos três carros do Grêmio Recreativo e Beneficente Jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná, Juliany tem a história do surgimento de sua família misturada à da escola. “Eu entrei na escola com 15 anos por intermédio do meu marido, o Hugo do Cavaco. No dia em que vamos desfilar esse ano, completamos 12 anos juntos”, destaca. “A família é unida pelo carnaval”.
Para Juliany, a ansiedade é maior pela estreia de mais um membro da família na avenida. “Meu filho de seis anos vai desfilar pela primeira vez. Ele já está iniciando no cavaco”. Apesar das noites de sono perdidas para ajudar na confecção das fantasias, segundo ela, no momento em que a sirene que anuncia a entrada da escola toca, todo o cansaço é esquecido.(Diário do Pará)
Leia a reportagem na íntegra no Diário do Pará
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