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Diversidade é a riqueza da Praça da República

“Essa é a praça do povo”, proclama Rodrigo Farias, 23 anos, que durante a semana se divide entre ser pai, comerciante e marido. Rodrigo é mais um dos rostos que pintam o colorido da Praça da República. Como ele, há pessoas que vão à praça, sobretudo aos d

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“Essa é a praça do povo”, proclama Rodrigo Farias, 23 anos, que durante a semana se divide entre ser pai, comerciante e marido. Rodrigo é mais um dos rostos que pintam o colorido da Praça da República. Como ele, há pessoas que vão à praça, sobretudo aos domingos, para ter contato com a natureza, rolar na grama, sujar os pés na areia, namorar, protestar ou simplesmente para ver gente. É nesse ponto que tantas vidas transversais ou paralelas se cruzam em Belém do Pará. É o espaço onde quem vai, se sente à vontade para ser o que é e para conviver com outros que são o que são, num exercício de tolerância e fraternidade.

Sentados na grama, o vendedor Raimundo Álvaro, 38 anos, e a biomédica Raquel Souza, 29 anos, assistem a filha correr, pular, cair e levantar. Ao fundo, o cenário do Teatro da Paz, e no coração, o sentimento de redescobrir a beleza das coisas simples através do sorrisinho de Letícia Pessoa, de um ano. “Aqui nossa filha tem o espaço aberto para brincar, ver e se socializar com outras crianças”, justifica a mãe.

Mas há também quem aproveite o clima da praça para levar os animais de estimação para passear. Na companhia da cadela chamada Aika, o funcionário público Mauro Fonseca, 26 anos, aproveita a praça, que para ele “é um dos melhores espaços para a gente sair da rotina, espairecer, ver pessoas, além dar uma volta com o cachorro”.

PASSAR A MENSAGEM

Francisco Virginio, 48 anos, é comerciante e adepto da filosofia Hare Krishna. Durante a semana, ele se divide em administrar o negócio e cuidar da família. Em domingos alternados, porém, aproveita o espaço da praça “para divulgar a consciência de Krishna, que é como chamamos Deus”, explica. Junto a um pequeno grupo, entoa mantras envolventes, acompanhados pelo som do harmônico (espécie de sanfona), mdranga (percussão) e kartals (que lembram sinos). Dessa forma, compartilham sua espiritualidade com quem se sentir à vontade para tal.

Um grupo de adolescentes pela primeira vez vai à praça para pregar a palavra de Deus. São de uma célula da Igreja Quadrangular. Distribuem pequenos panfletos e conversam com quem aceita. Querem “mostrar que Jesus pode estar nesse meio, onde tem gente de todos os lugares, de tudo que é tipo de religião”, aponta Beatriz Oliveira, 16 anos. Com ela, Marcela Garcia, 15, Michely Patrícia, 16, e Karen Carneiro, 15. “Pretendemos fazer disso uma rotina [dominical] a partir de hoje”, anunciam.

“Nós somos da diretoria do Sindicato dos Urbanitários, e viemos aqui denun ciar a proposta do Governo do Estado de privatizar 14 áreas de interesse público, contrariando o que foi prometido em campanha”, brada Pedro Blois, 54 anos. Pedro é representante de um segmento também muito comum na praça, de pessoas que querem dar algum recado político.

Como à praça vêm pessoas de todos os lugares da Grande Belém, o lugar é estratégico para mobilizações. “As pessoas vêm aqui pra se divertir, mas também têm o direito de saber o que está acontecendo”, propõe.

HISTÓRIA

Antes, onde hoje é a Praça da República, era um imenso descampado, chamado Largo da Campina. No século XVIII o lugar abrigou um armazém de pólvora e então passou a ser chamado de Largo da Pólvora. Foi também chamada de Pedro II em homenagem ao imperador da época. Em 1850 começaram as primeiras construções. Após a inauguração do Theatro da Paz e da Proclamação da República, ganhou o nome que até hoje permanece. Mas foi graças ao intendente Antônio Lemos que o largo ganhou a forma e a beleza que até hoje atrai famílias e tribos de todos os lugares.

No entanto, muitos frequentadores lamentam o estado atual do local. “A nossa intenção [ao ir à praça] é relaxar, mas acaba se estressando com a desorganização”, denuncia o vendedor Raimundo Álvaro, 38.

Acostumado a limpar a praça aos domingos, o agente de limpeza Debson Teixeira, 25 anos, reclama da falta de consciência ambiental das pessoas. “Não são capazes de jogar o lixo na lixeira, bebem água de coco e jogam o coco em qualquer lugar e ainda defecam”, informa. Segundo ele, é muito comum a equipe de limpeza atravessar a noite do domingo para deixar tudo limpo.

Arte, lazer, manobras radicais, capoeira, azaração...

Há muitos que encontram na praça lugar ideal para praticar esportes radicais. Geralmente fazem manobras atrás do Museu de Arte da UFPA. Bem no centro da praça, cercados de pluralidade por todos os lados, “a gente vem aqui dar uma volta, praticar manobras radicais e conhecer meninas”, entrega o ciclista Augusto John, 24 anos.

Todos os primeiros domingos do mês o grupo de capoeira coordenado por Cristiano Ferreira (Sorriso), 33 anos, abre a roda no anfiteatro da Praça da República. Para Sorriso, “o objetivo maior é divulgar a cultura da capoeira. Mas fazer roda na praça é uma forma da gente se encontrar, jogar com outros grupos. Ao fim da roda, a gente sempre se confraterniza”. Mas na localidade também encontramos quem dê as primeiras pedaladas e pequenos pés descalços chutando bolas enormes ou correndo atrás de bolinhas de sabão.

LOCAL DE TRABALHO

Até mesmo pelo volume de pessoas, muita gente vai à praça para ganhar ou melhorar o sustento da família. Há vendas de obras de arte, brinquedos, roupas, alimentos, etc. O vendedor de cocos e água mineral Clarocides Barros, 42, diz que chega a faturar até R$ 250 num domingo, quando as vendas estão boas.

Mas, atualmente, a grande sensação da praça é um conjunto formado por imigrantes do Peru e da Argentina, chamado “Los Latinos”. Benjamin Rodrigues (teclado, flauta e voz), Arturo (guitarra), Charlie Machuca (charango e voz), Daniel Herrera (percussão e voz) e Angel Rodrigues (violão e voz) desde o último Círio atraem centenas de pessoas em cada apresentação dominical. Faturam em média

R$ 200 com venda de CDs da banda, fora doações espontâneas dadas pelo público, que adora o swing do conjunto. O som latino, muito presente na música paraense - muitas delas cantadas pelo próprio grupo -, mais a aparência indígena, de repente são o segredo do maior sucesso de público da Praça da República no momento.

(Diário do Pará)

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