O que para os sobrinhos era brinquedo e sinal de diversão, para a tia Júlia Valentes era representação de perigo e falta de educação. Moradora da Pedro Miranda, avenida que em fevereiro vira palco de apresentações das escolas de samba, Júlia foi obrigada a se arriscar com os sobrinhos Antônio e Arthur pelo meio da pista para poder seguir caminho.
Na manhã após o último desfile das escolas na Aldeia Amazônica de Cultura Cabana Davi Miguel, lixo e restos de carros alegóricos tomavam o espaço de veículos e pedestres nas ruas e calçadas. “Eles ficam brincando de pegar essas fichas das latinhas, mas, quando eu prestei atenção, eles já estavam ‘em cima’ dessa alegoria”, afirma.
Se no dia da apresentação a enorme coroa feita de ferro foi alegoria, na manhã de ontem não passava de um entulho que colocava em risco as pessoas que passavam pelo local.
Ocupando uma faixa inteira da pista não utilizada pelas escolas de samba na Avenida Pedro Miranda, a estrutura de ferro obrigava os veículos a passarem espremidos, após desviarem de mais dois carros alegóricos que também haviam sido abandonados ali. “Eles tinham que ter um local certo para jogar isso. Eles fazem a festa deles e depois deixam tudo na rua”, indignou-se Júlia.
Paralela a Pedro Miranda, a Avenida Antônio Everdosa também serviu de abrigo para os carros alegóricos que já haviam desfilado. Abandonados ao longo da avenida, as estruturas atrapalhavam não só quem passava pelo local, mas também os moradores da área. “Esse já está aí desde ontem. Tinha outro também, mas tiraram”, reclamou a estudante Daniele Borges. Com boa parte da pista ocupada pela alegoria, a estudante teve dificuldades de entrar com o carro na garagem de casa.
No outro sentido da avenida, outro carro aguardava desde o desfile de sua escola no sábado. Estacionado no local desde então, a alegoria da Escola Embaixada Império Pedreirense chegou a servir de brinquedo para a pequena Melissa. Acompanhada do pai Robson Nascimento, a menina matava a curiosidade em cima do carro ainda coberto pela decoração da escola. “Eles sempre deixam esses carros aqui, na Lomas (Travessa Lomas Valentinas). Todo ano é isso”, disse ao chamar a filha que já tornava a brincadeira arriscada em cima da estrutura de ferro. “É uma curiosidade pra ver lá de cima...”
Apesar de a estrutura estar no local desde o último sábado, o soldador da escola, Fabrício de Oliveira, começou a desmontá-la na manhã de ontem. Segundo ele, no domingo, o trabalho de desmontagem de outro carro da escola durou até as 0h. “Vamos desmontar tudo e aproveitar o ferro para o outro ano. Até o início da tarde deve estar desmontado esse aqui”, garantiu.
EXCESSO DE LIXO
Além dos carros deixados pelas escolas aos arredores da Aldeia Amazônica, muito lixo também foi jogado pelos foliões e brincantes. Já após a varredura do perímetro onde fica delimitado o espaço do desfiles, o amontoado de lixo foi o suficiente para encher uma carreta. “O que mais tem é resto de fantasia. Eles abandonam no meio do caminho, principalmente aqui no local da dispersão”, disse o representante da Divisão de Limpeza Urbana da Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), Mauro Palheta. “30 homens fazem a limpeza durante o desfile, mas, no outro dia, ainda percorremos toda a adjacência da Aldeia Cabana retirando lixo”, garante.
Além da varredura habitual da avenida, vários litros de água ainda são necessários para apagar os rastros deixados pelos foliões. “Depois da equipe da varredura, nós fazemos essa lavagem para tirar essa poeira e pedaços de vidro que possam ficar porque aqui fica aquela ‘bagaceira’”, explica o gari Albino Costa. Além da limpeza do caminho por onde passam as escolas, a água ainda seria responsável por amenizar o forte cheiro de urina e fezes que chegavam a dificultar a respiração de quem precisava passar por trás das arquibancadas e camarotes. “Logo que a gente chega para limpar, de manhã, o cheiro é terrível”. (Diário do Pará)
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