Jorge Tadeu (nome fictício) teve que esperar quatro anos para finalmente poder seguir a sua vocação. Desde a adolescência se planejava para um dia seguir a carreira de piloto de avião. Mas a família, achando que o garoto estava com a cabeça nas nuvens, pressionou para que primeiro se formasse em administração. “Cheguei a fazer o curso teórico (para pilotos) alguns anos atrás, mas esperei até acabar a faculdade. O diploma foi o pré-requisito da minha família, eles queriam que eu tivesse um plano B. Mas meu sonho sempre foi a aviação”, conta o aspirante a piloto, 24 anos.
Desde janeiro ele vem se dedicando às aulas práticas de voo. Completou 16 das 36 horas exigidas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Dentro de um mês deve estar apto para se submeter à segunda e derradeira bateria de provas do curso de formação de pilotos. Apesar do período de apreensão que vem passando a aviação paraense, ele não esconde a ansiedade de botar as mãos no brevê para a categoria de piloto comercial. “Acho que posso fazer a diferença. Não tenho medo de pilotar, mas esses acidentes que aconteceram vêm pra gente reavaliar o setor. Acho que os novos pilotos que estão se formando podem contribuir para melhorar. Redobrar a segurança, não se calar diante de qualquer irregularidade. A mudança também parte do piloto, não só da Anac ou das companhias aéreas”, afirma.
O Pará registrou sete acidentes aéreos em 2012, quatro deles somente em fevereiro. O desastre mais recente aconteceu no último sábado (25), com a queda de um avião bimotor próximo ao município de Acará, ocasionando as mortes do deputado estadual Alessandro Novelino (PMN), do assessor parlamentar José Augusto dos Santos e do piloto Roberto Carlos Figueiredo.
MEDO
A universitária Laissa Ribeiro, 18, há seis meses se dedica ao curso de formação de pilotos. Ela afirma que o clima em sala de aula é de incerteza. “Existe muita dúvida entre os alunos. Ninguém tem ainda respostas sobre os acidentes que vêm ocorrendo. Isso leva à boataria e à especulação, mas nada que abale a determinação. Quem opta pela aviação é porque é apaixonado pela carreira”, conta.
O Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa) está investigando as causas do acidente com o bimotor de Novelino. O relatório só deve sair entre 12 e 18 meses. O processo é moroso. De um total de nove acidentes registrados em 2010, apenas cinco tiveram seus relatórios de apuração de possíveis causas concluídos até agora. Nenhuns dos 23 acidentes ocorridos em 2011 tiveram sua apuração concluída. Sem respostas, o receio aumenta entre familiares e amigos.
A mãe de Laissa já chegou a sugerir que ela repensasse a escolha profissional. “A família tem me procurado preocupada. Eles querem saber o que está acontecendo, se é perigoso mesmo. A gente tenta explicar, dizer que a profissão envolve riscos, mas o que está acontecendo é fora do comum. E que vai passar, que o setor da aviação vai superar esse problema”, diz.
Para se capacitar como piloto, o candidato necessita passar por um curso teórico de quatro meses, exigido para realizar a prova teórica da Anac. Após aprovado, o candidato se submete a 36 horas de voo e uma prova prática de pilotagem.
O Aeroclube é a escola de voo homologada pela Anac para formação de pilotos, mecânicos e comissários de bordo. O curso custa em torno de R$ 15 mil, incluindo as taxas das provas e avaliação física realizada pela Aeronáutica. O Aeroclube forma uma média de 120 pilotos anualmente no Estado. O instrutor de voo, Peterson Garcia, 28, garante que a repercussão dos acidentes não atingiu de forma negativa suas turmas. “Não houve desistências ou uma queda na procura pelo curso. Claro que os alunos nos procuram para tirar dúvidas, se tranquilizar. São os pais, as esposas que ficam mais exaltados, mas a gente está aqui pra esclarecer o que puder, sem tentar esconder nada”, explica.
De acordo com o piloto, a segurança sempre foi “mantra” do curso. Antes de qualquer voo, os alunos são instruídos a realizar uma checagem completa, com uma média de 70 itens de segurança, que vão do nível de combustível da aeronave, passa pelo trem de pouso até os parafusos da fuselagem. “É um controle rígido de manutenção. Se há qualquer previsão de chuva, ou até mesmo se a pista estiver sem condições ideais, como muita umidade, não deixo levantar voo”, garante.
Enquanto a má fase não passa, as empresas de táxi aéreo evitam se expor. Durante nossa visita ao aeroporto Brigadeiro Protásio, na avenida Senador Lemos, em Belém, nenhuma das agências aéreas no local quis prestar esclarecimentos.
Aeroporto de Marabá também é frágil
Os quatro acidentes aéreos registrados mês passado chamam atenção para os problemas na aviação civil no Pará. Um deles é a ausência, nos aeroportos, de postos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), órgão responsável por regular e fiscalizar as atividades de aviação civil e de infraestrutura aeronáutica e aeroportuária. O aeroporto João Corrêa da Rocha, em Marabá, não tem escritório da Anac há cerca de um ano, mesmo com movimentação de 322.388 passageiros em 2011, um aumento de 33% em relação a 2010.
Embora tenha anunciado que vai intensificar a fiscalização nas pistas de pouso/decolagem dos aeroportos de todo o Pará, a Anac, por meio da Assessoria de Imprensa, reconhece que todo o efetivo no Pará (dois funcionários) está concentrado no Posto de Belém, para fiscalizar todo o Estado.
Enos Domingues Lima, superintendente do aeroporto de Marabá, diz que a pista não precisa de reparos. “Temos uma das melhores pistas da regional Norte. É uma pista muito boa, com dois mil metros e comporta bem a demanda atual, sem necessidade de intervenção ainda por muitos anos pela frente”, avalia.
Mas a segurança é posta em xeque pelo comandante de aeronave Erick Valadares Oliveira. Segundo ele, o acesso à pista não é controlado. “Não é difícil uma pessoa não autorizada entrar na pista e até nas aeronaves. Temos, por exemplo, o caso de um morador de rua que entrou em uma aeronave e chegou a dar partida, provando a fragilidade da segurança do aeroporto”, denuncia. Erick ressalta que a Anac só intensifica a fiscalização quando há acidentes e com o tempo essa inspeção relaxa. Na opinião do comandante, a fiscalização ajuda, “mas o fato de uma aeronave cair não depende da Anac”. Ele diz que o problema está no sistema, que deveria exigir mais experiência do piloto e até mesmo rever o processo de capacitação pelo qual esse profissional passa até obter sua licença.
ANAC
A Assessoria de Imprensa da Anac disse que em fevereiro de 2011, a Anac, para aumentar a eficiência, eficácia e efetividade de suas funções e, ao mesmo tempo, reduzir custos administrativos sem comprometer a qualidade do trabalho, reestruturou sua atuação nas regiões fora dos Estados de Rio de Janeiro e São Paulo e do Distrito Federal. No caso do Pará, todo o efetivo da Agência está concentrado do Posto de Belém. Já o atendimento ao usuário (passageiro) é realizado pela internet (www.anac.gov.br/faleanac) e pelo telefone (0800 725 4445).
MELHORIAS
A Infraero homologou na terça-feira a licitação para reforma e ampliação, orçadas em R$ 4,6 milhões, do terminal de passageiros do Aeroporto de Marabá, contemplando a ampliação das áreas de embarque, desembarque e saguão, além do
aumento do número de balcões de check-in e portões de embarque.
Infraero mostra os riscos a vereadores
Uma comissão de vereadores de Belém (CMB) reuniu ontem com a administração da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), no Aeroporto Internacional de Val-de-Cans. Os vereadores pediram esclarecimentos sobre os acidentes aéreos no Estado. Em fevereiro foram quatro, dois em Belém.
O superintendente da Infraero, Samuel Lima Sales, expôs aos vereadores Carlos Augusto Barbosa e Abel Loureiro (ambos do DEM), Rildo Pereira (PDT), Cobrador Pregador (PPS), Miguel Rodrigues (PRB), Orlando Reis (PSD), Amaury Filho (PT), Pio Neto (PTB) e Walter Arbage (PTB), as maiores preocupações com a aviação na capital. Ele informou que as aves na área do aeroporto são o que mais preocupa a segurança. A proximidade do lixão do Aurá, a cerca de 11 quilômetros, é um dos fatores de risco. “Locais como o lixão atraem aves, principalmente urubu, mas há outros fatores que se deve levar em conta”. E citou fatores como áreas densamente povoadas, o descarte inadequado do lixo, atividades que atraem aves, e ausência de drenagem em alguns pontos próximos, além da densa cobertura vegetal, que serve de dormitório e local de reprodução de algumas espécies.
O superintendente apontou ainda o crescimento urbano desordenado, ausência de políticas consolidadas de uso e ocupação do solo no entorno do aeroporto e a legislação ambiental, que ainda não é bem compreendida nessas situações. “No ano passado ocorreram quatro incidentes com aves, mas por sorte nada grave. Tanto que esses incidentes só foram percebidos pelos pilotos após o pouso. Mas desenvolvemos uma ótima relação com a Sesan (Secretaria Municipal de Saneamento) sobre o recolhimento do lixo, mas o problema ainda é a população que muitas vezes não contribui para isso”.
O vereador Carlos Augusto questionou se o lixo na área do aeroporto é recolhido com frequência. Sales disse que o serviço é feito regularmente, mas que a Infraero irá monitorar o recolhimento. “Uma das razões para realizarmos essa reunião foi para saber se a Prefeitura de Belém está realizando esses serviços. Se isso não ocorre, podemos cobrar isso da Prefeitura”, assegurou o vereador.
PRÉDIOS
Orlando Reis questionou sobre o polêmico projeto do vereador Gervásio Morgado, que pretende mudar o limite de altura de construções nas avenidas João Paulo II, Almirante Barroso e parte da Pedro Álvares Cabral, até a área do Entroncamento, para 40 andares, condomínios horizontais de luxo, grandes lojas de departamentos e shoppings centers. Sales foi enfático. “A mudança fere a segurança nacional. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e a Infraero têm de ser consultadas. Se não contemplar as duas legislações não poderá ser aprovado”. (Diário do Pará)
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