Na escolha dos nomes, nenhuma opção masculina. Jamille, Brenna, Lorenna, Isabela, Júlia, Maria Clara e Maria Fernanda. Sete mulheres nascidas em épocas diferentes, mas integrantes de uma única descendência. Iniciadora da tradição que já leva a família Jacob à terceira geração feminina, Janete acompanhou no seio do próprio grupo familiar exemplos das conquistas garantidas pelas mulheres na sociedade.
Criada em uma família de costumes rígidos, Janete Jacob se lembra até hoje da rotina estabelecida pelo pai descendente de árabes. Os caminhos percorridos diariamente eram o da casa para o colégio, a violência não estampava com tanta frequência as páginas dos jornais e as visitas que chegavam à casa da família não podiam ser incomodadas de nenhuma forma. Uma dos dez filhos gerados por sua mãe, Jenete foi criada com mais homens que mulheres, experiência não vivenciada pelas filhas. “Minha criação foi muito rígida. Naquela época não tínhamos a liberdade que temos hoje. Vivíamos muito dentro de casa”.
Divorciada do marido e pai de suas filhas, Janete não se esquece das dificuldades que teve que enfrentar para criar as três meninas. A luta para garantir que estudassem e se desenvolvessem de acordo com os valores escolhidos, não foi fácil, mas lhe garantiu bons frutos. “Passei dificuldades para garantir que elas se formassem. Hoje, vejo o retorno que me dão. Não trabalho mais, só viajo. Elas é que me criam agora”, brinca.
A mais velha das irmãs, Jamille Borges Jacob, é uma das que deu sua contribuição para a manutenção da tradição. Das duas gestações que cultivou, duas meninas nasceram: Isabela há quatro anos e Júlia, que nasceu há dois. Acostumada com o ambiente familiar, e sempre muito feminino mantido pela mãe e irmãs, nunca imaginou que seria diferente. “Eu tinha certeza que era menina, tanto que eu nunca tive nome de menino, sempre escolhia só o de menina”.
Concretizada a forte intuição, a administradora dedicou a criação das filhas aos bons exemplos dados por Janete. Inspirada nos ensinamentos da mãe, ela buscou manter a tradição não apenas do gênero predominante na família, mas também dos valores. “O que mais eu tentei passar da criação que tive para as minhas filhas foi a meiguice, a delicadeza. Eu sempre fui criada com mulheres, então, não sei brincar de outra coisa. É tudo muito rosa, muito ‘floridinho’”.
Em proporções um pouco menos rígidas à criação recebida pela mãe, Jamille também se preocupa em manter o controle sobre a criação das meninas. Diferente da avó, Isabela e Júlia convivem com a permanência constante da tecnologia. Independente do contexto, para Jamille, a criação recebida ainda na infância, em um contexto diferente, pode ser repassada para as gerações que se aproximam. “Minhas filhas não assistem programas de televisão violentos. Eu procuro proteger ao máximo. Não deixo elas se exporem ao perigo assim como a minha mãe fazia com a gente”, afirma. “Elas têm o hábito de acordar e dormir cedo... tento fazer com que elas vivam cada fase”.
Apesar das grandes diferenças já vividas por Jamille, em uma sociedade em que a mulher já conquista mais espaço, quando pensa no futuro das filhas, o que ela espera é mais. “São várias vitórias, mas ainda temos muitas lutas. Quando minhas filhas estiverem adultas, espero que a sociedade esteja melhor. Até os salários das mulheres (em relação ao dos homens) estão se equiparando mais, mas ainda vai
melhorar”.
Exemplo do cenário mais amplo, mas ainda preconceituoso contra as mulheres, Jamille cita a experiência vivenciada pela irmã mais nova, Lorenna Jacob. Engenheira civil, Lorenna mora há um mês em Fortaleza, fruto do empenho para conquistar o seu lugar no mercado de trabalho. “Minha irmã chegou a sofrer algum preconceito. Ela foi a Fortaleza se candidatar a uma vaga de emprego e disseram para ela que ela era qualificada, mas que aquela vaga era para homens, mas ela não se intimidou e disse que estava preparada para vaga. Ela teve que se impor porque não queriam dar a vaga a ela, por ser mulher”, afirma.
Prova de que a criação recebida pelas irmãs se perpetua até a geração mais recente é a explicação de Brenna Jacob para a orientação que dá às filhas Maria Clara, de nove anos, e Maria Fernanda, de dois. Primeira a dar uma neta a Janete, a dona de casa viu com alegria a possibilidade de criar as filhas mulheres tal qual a mãe. “Eu já imaginava que ia ser mulher mesmo. Foi uma alegria grande para todo mundo”, lembra. “Eu me acostumei a criar só mulher. Elas são as minhas companheiras”.
Tal como a irmã, Brenna procura seguir os passos de Janete na criação. As conversas são costumeiras, as personalidades conhecidas e a proximidade certa. “Peguei a criação que minha mãe me deu e tentei repassá-la às minhas filhas e deu certo. É uma tradição que funciona até hoje”, afirma. “Nos finais de semana nós sempre saímos juntas e eu tento manter as minhas filhas sempre perto de mim”.
“Para mim foi uma bênção ter três filhas e quatro netas. Sou a única dos meus irmãos que tem uma família com gerações só de mulheres”, emociona-se Janete. “O que me deixa feliz é quando vejo uma mulher no comando de uma aeronave, por exemplo. Foi o que eu sempre passei pra elas (filhas) e o que vamos passar para as netas”. (Diário do Pará)
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