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Margens do canal São Joaquim sem regras

O costume é de interior, mas o cenário é a metrópole. Às margens da microbacia do igarapé São Joaquim, um pedaço de terra faz voltar velhas tradições, da época em que ter um quintal era ingrediente principal de toda a boa casa. É lá, bem na beira do canal

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O costume é de interior, mas o cenário é a metrópole. Às margens da microbacia do igarapé São Joaquim, um pedaço de terra faz voltar velhas tradições, da época em que ter um quintal era ingrediente principal de toda a boa casa. É lá, bem na beira do canal, que os moradores do bairro da Sacramenta fazem do terreno que ladeia o rio o quintal que o pouco dinheiro não lhes permitiu ter.

Um puxadinho onde antes já foi um tablado amplo de madeira. O concreto substituiu o que já fora o ‘pátio’ de Dona Nazaré, 38, destruído em uma ação da Prefeitura. Em frente da sua casa, ela já teve uma varanda improvisada, onde construíra banheiro, curral e até uma escada que dava acesso à plantação. Depois que foi destruído, ela não se intimidou e tratou de povoar os cerca de 10 metros quadrados na beirada do São Joaquim, onde agora vivem os porcos que o marido e ela criam para vender na feira.

Nazaré Mendes Ferreira é moradora do bairro há 18 anos, e diz não ter vergonha de utilizar o espaço. “Aqui eu lavo roupa, boto pra secar, planto e crio meus porcos, ninguém faz nada de errado”, afirma. Na calçadinha, o encanamento e as banheiras foram adaptadas pelo marido, Edmilson, que também construiu o calçamento e o curral. “A gente usa porque tá abandonado, senão fica cheio de lixo”, garante o vendedor.

A paisagem não é exatamente a ideal. O que era para ser um rio, agora é apenas a vala pela qual o lixo trafega ou se acumula, e que já foi cenário de crimes e fugas. Os assaltos são constantes, só que cada um se resolve como pode. Mas para Maria da Conceição, 76, o pedaço de terra tem valor especial, e remete às lembranças. Trazida a Belém pelas águas do rio Pará, a filha de Curralinho, no arquipélago do Marajó, vê no bairro a morada para os dias tranquilos que ela quer para o fim da vida. “Eu planto no meu quintal e depois, quando a muda já tá grandinha, levo pra plantação. Meus filhos roçaram tudo e o que eles querem é que as árvores fiquem bem grandes e que os netos possam aproveitar a sombra. Mas eu nem sei se vou chegar a ver as árvores grandes, nem os netos”, diz a aposentada, em tom misto de preocupação e brincadeira.

No pomar de Maria da Conceição, goiabeiras, coqueiros, mangueiras, ingazeira, além de couves e cheiros-verdes, se enfileiram na orla do canal, em arvorezinhas pequenas que quase não se notam. Tudo devidamente cercado, porque ali também se divide o espaço com o pasto do vizinho. “Ele cria uns bodes ali debaixo da ponte, e antes eles vinham achar de comer justo aqui. Aí a gente dividiu, mas a terra é de todo mundo, eu sei. O que é da minha porta pra dentro é meu, mas o que é da minha porta pra fora é de todos, e é por isso que eu cuido” pontua com sabedoria.

COMUNIDADE

“Não tem por quê ser triste, não tem por quê ter medo de sair de casa. A vida é alegria e está dentro e fora de casa”. A afirmação é do sorridente José Carlos Barroso, 40, motorista. Cacaio, para os vizinhos, é o fundador do “sítio Onga Monga”, sociedade de amigos que se uniram para criar um espaço recreativo, justo na riba de um dos canais mais poluídos da capital paraense. “É um espaço para a gente se divertir nos finais de semana, reunir os amigos, fazer uma bagunça”.

O espaço é arborizado e possui uma mesa, banheiro e um outro pedaço já em fase de construção, onde eles pretendem levantar uma calçada. “É para que fique mais organizado. A gente sabe que se deixar largado, tudo isso aqui vai acabar virando esconderijo para bandido. É por isso que todo mundo toma conta, para evitar que o lixo se acumule, e que coisas erradas voltem a acontecer”.

A preocupação de Cacaio é a mesma de muitos moradores, que temem a vida nas margens do São Joaquim. “Já vi corpo sendo achado, já vi corpo sendo desovado, já vi briga de faca, já vi carro caindo”. Quem conta do cotidiano da passagem Jader Barbalho, nome oficial das vias que margeiam a microbacia, é Antônia Cabral, 37, manicure. Apesar de não fazer uso da margem do canal, ela aprova a atitude dos moradores. “Acho que assim fica melhor, fica mais bonito. E não tem nada de errado nisso, ou tem?” questiona. (Diário do Pará)

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