A movimentação intensa quando o céu ainda abriga a escuridão da madrugada é normal para quem conhece a rotina do pescado na pedra do Ver-o-Peso. Antes das 5h, peixeiros, balanceiros e consumidores passam por entre os tabuleiros recheados com os peixes. Na madrugada de ontem, porém, o cenário era um pouco diferente. A poucos dias da Semana Santa, o que se via no local onde os barcos desembarcam eram muitos espaços vazios.
Responsáveis por fiscalizar os compradores que levariam o pescado para outros municípios do Estado, os fiscais da Secretaria Municipal de Economia (Secon) pouco haviam anotado em seus formulários já no início da manhã.
Dentre as declarações que autorizam o transporte do peixe dentro do Pará no período estipulado pelo decreto do governo do Estado - que proíbe a saída do pescado do Estado até seis de abril para garantir o abastecimento na Semana Santa - estavam apenas as levadas pelos peixeiros que traziam pescado de municípios como Abaetetuba para vender em Belém. “Nenhum caminhão veio buscar peixe”, informou o coordenador da Secon, Manoel Rodrigues.
Confirmando a escassez do produto no local mais tradicional de venda de peixe em Belém, o comerciante Wilson Alves voltou para casa com o caminhão vazio. Vindo do município de Augusto Correa, ele foi um dos que apresentaram a autorização para comercializar o pescado dentro das fronteiras do Pará. “Hoje eu trouxe 1.500 quilos para vender aqui. Mas não vou levar nada. Está muito escasso”, explica.
Segundo Manoel Rodrigues, no período destinado ao cadastramento dos peixeiros que trabalham com o transporte de peixe pelos municípios do Estado, cerca de 40 documentos foram emitidos. Porém, poucos foram os compradores que utilizaram o documento ontem. “Esse documento autoriza eles a comercializarem peixe dentro do Estado somente no período da Semana Santa. É esse documento que confirma o destino final do peixe, que não pode sair do Pará até o dia seis de abril”.
RECLAMAÇÕES
Nos tabuleiros dos balanceiros, a falta do pescado era evidente. Além da pouca quantidade e do tamanho reduzido dos peixes, o preço elevado era a comprovação da maior reclamação de balanceiros e consumidores. Um dos peixes mais procurados, a pescada amarela não era anunciada por nenhum balanceiro. “Muito caro. Vim comprar pescada, sarda e mapará porque tenho uma pequena venda, mas ta difícil. A pescada amarela sumiu e, além do preço, o peixe ainda está muito pequeno”, reclamava a comerciante Ilda dos Santos. Com a sacola já cheia de pescado, o problema era controlar o gasto. “Normalmente eu compro pescada branca aqui por R$3, R$4 o quilo. Hoje eu comprei por R$6”.
Quando o sol já clareava o céu, o também comerciante João Lima ainda tinha em mãos a sacola vazia. Espantado com o preço do produto, ele andava por entre os tabuleiros à procura do menor preço. “A piramutaba tá um absurdo!”, disse, ao constatar que estava sendo cobrado R$5 pelo quilo do peixe. “Eu vim comprar para venda, mas tá muito ruim”.
Segundo o presidente da Associação dos Balanceiros (Asbalan), Daniel Bandeira, o preço observado na pedra estava elevado porque apenas o decreto não é suficiente para garantir uma grande quantidade de peixe. “O decreto não vai afetar porque é pouca embarcação. Estamos no período do defeso e a maré tá muito alta. Tem pescador que não quer pescar com a maré desse jeito”, afirma.
Resultado da escassez de peixe causada pelas condições naturais desta época do ano, a redução nas vendas já passava da metade. “Teve uma redução de 60% das vendas na pedra. Em período normal, chega uma média de 150 toneladas por dia aqui (na pedra). Hoje chegou 25 (toneladas) só”, afirma. “Não tem peixe mesmo, o barco traz pouco, por isso o preço tá caro. Estamos preocupados porque a falta vai dificultar muito a venda na Semana Santa”.
Fatores naturais reduzem produção, diz Sepaq
A imposição de fatores naturais é a principal explicação da Secretaria Estadual de Pesca e Aquicultura (Sepaq) para a escassez de pescado observada na pedra do Ver- o -Peso. O inverno amazônico, caracterizado por fortes chuvas, favorece o aumento das marés e aumenta a correnteza das águas, resultando na pouca oferta do produto. “Em fevereiro, registramos pouquíssima captura de pescado. Para se ter ideia, barcos paraenses, com capacidade para 20 toneladas, capturavam apenas 3 toneladas. Tudo em virtude de condições naturais”, declarou o secretário Henrique Sawaki. A diminuição da oferta de pescado nobre, como a pescada amarela, segue a mesma justificativa. “A estação chuvosa empurra a água salgada na costa paraense. Nessa época, tais espécies seguem para a região do Maranhão. Essa diminuição é normal no período”.
Para o secretário, o período do defeso instituído para algumas espécies não deve alterar o abastecimento interno, especialmente na região metropolitana, uma vez que as espécies com captura proibida concentram-se na região do Marajó e Baixo Amazonas. “Na última semana, já apresentamos uma produção melhor. A expectativa é que o ritmo de captura aumente até a Semana Santa e não falte pescado na mesa do paraense”. A Sepaq também garante que, para tornar os preços mais acessíveis, promove a feira do pescado popular, que deve acontecer em 26 munícipios . Serão 19 pontos de venda apenas em Belém e oito em Ananindeua. (Diário do Pará)
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