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Água causa problemas de saúde em Belém

Febre, dor de barriga e diarreia são companheiros tão constantes quanto os poucos brinquedos na vida de Alessandro, de três anos, e Vitória, de cinco. Os dois irmãos moram no bairro do Paracuri, em Icoaraci, em uma casa de madeira, próximo ao que anos atr

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Febre, dor de barriga e diarreia são companheiros tão constantes quanto os poucos brinquedos na vida de Alessandro, de três anos, e Vitória, de cinco. Os dois irmãos moram no bairro do Paracuri, em Icoaraci, em uma casa de madeira, próximo ao que anos atrás era um igapó. A família tem quase certeza de que a origem dos repetidos problemas de saúde das crianças está ali, ao alcance da mão. É a água, que ao contrário do que costumavam ensinar nas aulas de ciência, tem cor, cheiro e gosto. A cor é amarelada. O cheiro é enjoativo e o gosto...

“É uma água horrível”, sentencia Renilda Brito da Silva, mãe de Alessandro e Vitória. A família evita consumir o líquido o mais que pode. Quando o dinheiro é suficiente, a água bebida é a mineral, comprada em garrafões. Mas como nem sempre o dinheiro está disponível, é inevitável que vez ou outra, o consumo seja feito com o líquido que aparece parte do dia nos encanamentos nem um pouco confiáveis.

“A gente ferve, mas a desconfiança é sempre grande. Mas o banho de todo mundo e a água para lavar roupa e panela é tudo ou de poço que a gente tem de ir longe buscar ou dos canos, que nem sempre tem. E para beber, às vezes tem de comprar dois garrafões de água mineral por dia. Não é fácil”, diz.

O QUE SE BEBE?

Um dos atos mais simples da humanidade, o de beber um copo de água, é quase sempre uma operação de risco a curto, médio e longo prazo em Belém. Nem de longe isso é um exagero. Há poucos meses, uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Pará fez um teste com água colhida de uma torneira em um bairro da periferia da cidade. A água foi diluída em quatro vezes e mesmo assim, a quantidade de coliformes fecais era tanta que não foi possível aos pesquisadores quantificá-la com exatidão. “É como se estivessem ingerindo fezes”, alerta o geólogo Milton Mata, um dos coordenadores do Laboratório de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Larhima) da UFPA.

A consequência disso é grave e atinge mais as crianças. A advertência é feita pelo médico e professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA) Juarez Quaresma. Com doutorado em Patologia pela Universidade de São Paulo, Quaresma também coordena um grupo de pesquisa sobre Doenças Tropicais. O panorama pintado por ele deveria chamar a atenção dos gestores municipais e estaduais. “As crianças acabam tendo muitas diarreias, infecções gastrointestinais e até quadros graves de desidratação. Geralmente são crianças de baixa renda. Então infecções seguidas, aliadas a uma desnutrição crônica, podem levar a severas inflamações no intestino, anemias profundas, o organismo passa a absorver menos nutrientes. É uma roda viva”.

No Brasil, 70% da população tem H. Pylori

Ingerir água contaminada é um passo seguro para se contrair uma infecção. O Helicobacter pylori, mais conhecido por H. Pylori , é uma das bactérias mais comuns e temidas. No Brasil, a Federação Brasileira de Gastroenterologia estima que 70% da população estejam infectadas pela bactéria, que causa infecção no estômago e pode contribuir para o desenvolvimento de doenças como gastrite, úlcera e câncer de estômago.

Em frente à casa de Ilza Souza Pinto, 37, na passagem Maura, em Icoaraci, a água, amarelada, aparece poucas horas por dia. Os canos misturam-se com a lama. A casa não tem banheiro adequado. Fossa nem em sonhos. As fezes caem direto no chão úmido, menos de um metro abaixo do assoalho. A maré leva e traz os dejetos. “É cruel, vivo com diarreia”, diz ela. Quando chove o cano fica submerso. “Às vezes bebo água da chuva. A cho mais seguro”.

No Paracuri, Tereza Pereira Dias, 86, vara madrugadas na fila comunitária para poder encher vasilhames com água para o dia seguinte. Se deixar para as manhãs corre o risco de não ver uma gota sequer. “Quando dá sete horas já acabou. Isso quando vem. Não é certo de aparecer água todo dia”, reclama a aposentada. “Moro aqui há 20 anos e sempre teve problema de água”. O que chega pontualmente é a conta da Saaeb, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Belém, que abastece Icoaraci. “Isso é sagrado. Não falta”, ironiza. (Diário do Pará)

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