“Eu espero que com uns oito metros pegue água boa”, diz o lavrador Manoel Pantoja, enquanto ajuda a retirar o barro do poço que está sendo cavado num pequeno terreno cercado por castanheiras na comunidade do Curuperé, em Vila do Conde, município de Barcarena. Água é provável que Pantoja alcance em profundidade tão rasa, já que a comunidade é rodeada por rios e igarapés. Boa, no entanto, é quase impossível. Segundo levantamentos preliminares do Instituto Evandro Chagas, toda a água consumida pela comunidade do Curuperé e outras comunidades próximas é totalmente inadequada para consumo, com altos índices de substâncias químicas como nitrato, prejudiciais ao organismo humano. “O pessoal do Evandro Chagas diz que a água é inadequada. Pra nós então, significa que não presta pra beber”, simplifica o líder comunitário Petronilo Progênio Alves, 64 anos. A má qualidade da água nas comunidades de Vila do Conde, é resultante direta de vários fatores que envolvem a falta de saneamento básico, construção de poços de formas irregulares e uma proximidade excessiva com dejetos ocasionados pela ação de empresas mineradoras no município. Muitas tiveram de se adequar a Termos de Ajuste de Conduta para tentar minimizar impactos ambientais, cujos maiores atingidos são os moradores de comunidades próximas a rios e igarapés.
Poços são cavados e outros abandonados. Água potável não tem sido fácil de conseguir. Rosicleia Cabral, 36 anos, recebe água de um caminhão-pipa três vezes por semana. O último dia de entrega é sexta-feira. Fim de semana tem de se desdobrar, com os cinco filhos que moram com ela e mais o marido, para que não falte água. Raramente consegue. “Domingo acabamos quase sempre sem água”, diz ela. O poço da casa foi abandonado. Rosicléia teme pela saúde das crianças. A filha Suzane, de cinco anos, chegou a ser internada dois anos atrás, por problemas no estômago. Não defecava, a barriga estava inchada. Passou 40 dias no hospital. “Quase morreu, a coitada”, diz a mãe. “Vez em quando ela e os outros caem doentes. Eu acho que é a água”, diz.
“A comunidade já tem consciência de que a água de Vila do Conde está imprópria para o consumo. Há muitas substâncias perigosas para o organismo”, diz o pesquisador do Evandro Chagas, Bruno Carneiro. O IEC fez recentemente uma coleta da água ingerida nas escolas do município. O resultado das análises ainda não foi divulgado, mas não desperta otimismo. “Sabemos que a qualidade da água está comprometida”, diz o professor Walmir Bastos, morador que integra grupos e comissões destinadas a buscar alternativas para a qualidade da água consumida no município.
CÂNCER
Os estudos feitos pelo Instituto Evandro Chagas detectaram forte presença de substâncias como o nitrato, acima dos níveis toleráveis, além de coliformes totais em grande quantidade. “A água está comprometida”, diz o pesquisador. O nitrato é responsável por males como a ‘doença azul’, em bebês e pode abrir espaço no organismo para o câncer no estômago.
Câncer no estômago tem sido companheiro indesejável na família da pescadora Raimunda Souza de Souza, 47 anos. O irmão, de 32 anos, está internado em Belém vitimado pela doença. Aparentemente já desenganado. O pai e a mãe de Raimunda recentemente também descobriram que estão com câncer estomacal. “Eu acredito que seja a água daqui que é muito ruim”, diz a pescadora.
Aos fundos da casa de Raimunda corre o rio Dendê. Do outro lado da pequena e sacolejante ponte de madeira, que une ribeirinhos, dois netos gêmeos da pescadora sofrem com erupções na pele. Ruan e Ruanildo tem apenas três anos. Barrigudinhos, vivem às voltas com coceiras na pele. “Vai e volta. A gente passa remédio, mas é só parar que vem de novo”, diz a mãe Erika Monteiro dos Santos. “Eles choravam direto se coçando”, diz o pai, Rosivaldo Correia. A família mora na comunidade São Raimundo, com o rio a menos de dois metros da casa.
A ausência de saneamento básico agrava a situação dos moradores ribeirinhos. A água costuma ser captada de poços rasos, quando é possível cavá-los, ou dos próprios rios. Os sanitários ficam a uma distância não adequada. No caso dos ribeirinhos, as fezes são lançadas diretamente nas águas. Na comunidade São João, Juli Paixão de Souza, 23 anos, enchia uma caixa d’água com liquido captado de um igarapé. Ao lado dela, a filha Rendali, de 4 anos, nadava à vontade com uma boia ao redor do corpo pequeno. Menos de cinco metros dela, o local onde são feitas as necessidades fisiológicas despejava conteúdo diretamente no igarapé. “Ela vive com problema na pele. Até se acostumou”, diz a mãe. A menina tem problema digestivo também. “É toda semana com uma diarreia. Ela acaba engolindo essa água e depois passa mal. Aqui nessa água entra tudo que não presta”, diz.
CRIANÇAS
As crianças são as principais vítimas. Na mesma comunidade, Vitor de dois anos, era um pequeno feixe de ossos. Nos últimos dias sofreu com febre e diarreia. “A gente toma essa água, mas não confia”, diz a mãe, Maria Regina. Perto dali, na casa de Maria da Conceição, não havia água nem para cozinhar. Numa rede, dormindo, o neto Thiago Gustavo. Foi um momento de alívio para a mãe, Jhene, de apenas 17 anos. Há três dias a criança, de 2 anos e dois meses, estava sofrendo com diarreia. “Ele só vive com a barriga inchada”, diz a mãe. No próximo dia 4 de abril, Jhene tomará o menino nos braços, irá para a beira da estrada, tomará um ônibus e se deslocará até Belém. Quer achar soluções para os problemas do filho. Ele tem tido sangramentos pelo ânus e pela boca.
No Curuperé, às margens do rio de mesmo nome, Maria de Fátima Dias dos Anjos leva as mãos aos céus. Depois aponta para o igarapé morto adiante. “Isso aqui já nos deu muito. Se pescava aqui. Agora, se entrar na água, é coceira na hora. No caminho de volta para casa, Maria de Fátima passa próximo ao poço de nove metros de fundura. “Tenho de me lembrar de colocar hipoclorito na água que tá na geladeira, senão já viu, né?” (Diário do Pará)
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