A despeito de todo o “gasta-gasta” desse mês, a Páscoa, originalmente, prioriza outros valores. A palavra “páscoa” significa “saída ou pulo” e se refere ao momento bíblico em que os judeus se libertaram da escravidão do Egito. Por eles, a festa é comemorada até hoje com esse sentido.
Na igreja católica, a celebração é feita todos os dias. De acordo com o Padre Francisco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, é a festa da morte e ressurreição de Jesus Cristo. “A celebração representa a vitória de Jesus sobre o pecado, do qual ele libertou a todos que nele acreditam quando ressuscitou depois de crucificado. Lembramos disso na hora da comunhão, o que fazemos em todas as missas”, revela.
No entanto, não há mal nenhum em trocar ovos, para o padre. “O ovo é uma tradição cristã, significa vida, é um símbolo. O chocolate chegou depois, mas pode ser entendido como a doçura da ressurreição, esse não é o problema. O fato é que há um desvirtuamento, do jeito que o ovo é visto não tem significação”, pondera.
Para os cristãos evangélicos, a Páscoa não é comemorada, assim como para os espíritas. Mesmo com tantas orientações e significados, a Páscoa é uma festa de família onde não falta chocolate. “Para mim a Páscoa é um momento de reflexão, a gente revê valores e, principalmente, reforça o vinculo familiar”, acredita a técnica em enfermagem, Kelle Cristina.
Destinos cruzados por sentimento comum
João Pedro estava no trapiche do porto do Jarumã, na Cidade Velha, em Belém, na tarde da última quarta-feira. Ao seu lado, João guardava sua mochila gasta, que trouxe do interior cheia de roupas e com um bocado de esperança. Ele estava esperando impaciente o barco atracar no cais. O garoto de 18 anos, nascido em Abaetetuba, deixou seu porto, a casa dos pais, para se aventurar por águas desconhecidas. Se tudo der certo, ele será oficial da marinha. João e mais 29 jovens, do interior e de Estados vizinhos, estão fazendo treinamento em uma base militar em Belém. A maioria, de origem humilde, carrega o peso de fazer valer as apostas feitas pelas suas famílias.
“Tá sendo muito difícil pra mim. Ainda tô me adaptando”, afirma o garoto de olhar tímido e desconfiado. A família de João, como tantas outras, não tem dinheiro para compartilhar ovos caros de chocolate entre si. Mas João nem liga. A Páscoa, para ele, ganhou um sentido bem mais nobre. “A distância me fez aprender a dar valor pra minha família. Vai ser um momento de reencontro. Eu tô com muita saudade”, desabafa o jovem. Ele deve voltar para Belém hoje de madrugada e não sabe quando vai rever os parentes de novo. “A vida é assim mesmo”, diz João.
A poucos metros do porto do Arapari, na Praça Frei Caetano Brandão, em frente a Catedral da Sé, um grande grupo de pessoas loiras, branquíssimas e bem altas chamava a atenção de qualquer um acostumado com as gentes daqui. Assim como os belenenses que se preparavam para viajar no feriado, um grupo de 122 alemães estava às vesperas de zarpar. O barco deles era bem maior que aquele que João Pedro iria pegar. A embarcação era um transatlântico ancorado no meio da baia do Guajará. Sob o sol quente das três da tarde, Peter, 61 anos, empresário, e Veronika, 50 anos, cosmética, admiravam encantados o Ver-o-Peso do alto do Forte do Presépio e pararam o passeio para conversa com a equipe do DIÁRIO.
Peter nasceu em Frankfurt, Veronika em Düsseldorf. Eles estão casados há quatro anos e vieram à Amazônia comemorar uma segunda lua de mel. “Há quatro anos eu era feliz”, brinca Peter enquanto abraça sorridente a esposa. “Tudo é impressionante aqui. O contraste, as cores, a arquitetura...”, diz Veronika. Simpático, o casal, mesmo suando muito, afirma que não se incomoda com o calor de mais de 30ºC da cidade. Protestantes, como boa parte dos alemães, Peter e Veronika garantiram que iriam lembrar a Páscoa e vivencia-la do seu modo. A essa hora, eles já devem estar em algum ponto do rio Amazonas em direção ao Peru.
Tereza Loureiro, 50 anos, professora, esperava algo que vem da Alemanha: sua filha, Poliana Loureiro, estudante de música. A essa hora, Tereza, Poliana seus dois irmãos e o resto de sua família devem estar reunidos em um quarto de hospital. É que a mãe de Tereza foi internada na última quarta-feira. Tereza até iria viajar, mas a internação da mãe mudou os planos. “Eu sou espírita. A Páscoa pra mim vai ser um dia de muita oração e, principalmente, união. A gente vai se fortalecer e se renovar”, afirma a professora. A doença da mãe e a fé na sua recuperação, no entanto, não tiraram o bom humor da professora. “Menino, eu já gastei R$ 400 em ovo de Páscoa. Mas não põe isso no jornal, pelo amor de Deus, se não podem até pensar que eu tô rica”, pede a professora gargalhando. Tereza, depois de comprar tantos ovos, não está mais rica.
Diferente do alemão Peter, Milton Murare, 49 anos, não poderá passar a Páscoa ao lado da esposa. Como Tereza, Milton não poderá viajar. Encostado em um balcão de uma das lanchonetes do Terminal Rodoviário de Belém, o eletrotécnico terminava seu lanche enquanto observava pensativo o movimento nos guichês de passagens dos ônibus. Milton é de Sorriso, cidade de 55 mil habitantes do Mato Grosso. Ele está hospedado em Belém porque as chuvas o impedem de fazer seu trabalho na Ilha do Marajó. Lá, ele é um dos responsáveis por levar luz elétrica a municípios que só conhecem eletricidade através de geradores. Católico praticante e sem parentes por aqui, Milton passa a Páscoa com saudade da mulher e da família.
“Eu já passei até seis meses fora, mas ainda não me acostumei com a falta que eles fazem”, afirma o eletrotécnico antes de completar: “Vou fazer o quê? Eu tenho que trabalhar, né?”. Milton não tem filhos e, segundo ele, sua esposa é a pessoa mais importante de sua vida. Ele ainda não sabe ao certo quando irá revê-la. Ainda assim, o católico não considera a solidão penitência o bastante para vivenciar com fé o período da Semana Santa. “Eu costumo passar um pouco de fome, almoço mais tarde, evito comer carne também. Acho que é o mínimo que eu posso fazer”, afirma Milton que, sem saber, faz bem mais que isso.
42 mil pessoas estavam sendo esperadas pela direção do Terminal Rodoviário de Belém durante o feriado da Semana Santa. Aproximadamente 1.500 pessoas embarcaram no porto Jarumã, na Cidade Velha, quinta-feira. Sessenta é o fluxo de veículos por minuto que passavam pela barreira da Polícia Rodoviária Federal, no início da BR - 316, no começo da noite da última quinta-feira. Por trás dos números sem vida do ir e vir da cidade, que costumamos noticiar diariamente, estão ocultas as histórias de pessoas que mantém as mais diversas relações com a Páscoa celebrada hoje.
O alívio de voltar para o interior e confraternizar com a família, o prazer de aproveitar uma viagem ao lado de quem se ama, a necessidade de estar junto, a angústia por não poder voltar para casa e relembrar o sofrimento de Cristo enquanto se sente mais pesada a própria cruz. (Diário do Pará)
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