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Idosos são maltratados em toda parte

“Em pleno século XXI, as pessoas pensam que nunca vão ficar velhas. Mas a vida ensina muita coisa”. A afirmação é feita pelo aposentado Raimundo Tavernard enquanto espera na parada de ônibus o veículo que o levará ao primeiro compromisso do dia. Sozinho,

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“Em pleno século XXI, as pessoas pensam que nunca vão ficar velhas. Mas a vida ensina muita coisa”. A afirmação é feita pelo aposentado Raimundo Tavernard enquanto espera na parada de ônibus o veículo que o levará ao primeiro compromisso do dia. Sozinho, ele se esforça para enxergar com antecedência o nome da linha que se aproxima. Quando se levanta, tenta entrar no coletivo o mais rápido possível e se segura com toda a força no corrimão lateral da porta até alcançar um assento, que dessa vez, felizmente, estava vazio. Mas todos os procedimentos que podem soar trabalhosos para quem ainda é jovem não são o que mais incomodam os idosos. A reclamação dos mais velhos está justamente na forma com que alguns profissionais os tratam, e os motoristas de ônibus são um dos mais criticados.

Foi o que comprovou o estudo da OMS (Organização Mundial da Saúde), feito para melhorar a qualidade de vida dos idosos nas grandes cidades. Aplicada em 33 cidades e em 24 países, a pesquisa colheu a opinião dos mais velhos sobre quesitos como transporte – considerado ruim pela maioria deles–, inclusão social e moradia. “Quando é um idoso que faz sinal sozinho as chances do ônibus não parar são muito altas. Eles vêem quem vai ser e só porque é gratuidade passam direto. Mas quando é alguém conhecido eles rápido deixam entrar”, critica. Entre os casos presenciados ele relembra o incidente com duas senhoras, que caíram porque o motorista acelerou enquanto elas ainda subiam os degraus do veículo.

Além dos motoristas, atendentes de unidades de saúde, órgãos públicos e instituições bancárias estão entre os menos respeitosos, demonstra a pesquisa. Segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) existem 14 milhões de pessoas com mais de 65 anos no Brasil, o equivalente a 9,1% da população total.

MELHORES AMIGOS

Se alguns profissionais são temidos pelos idosos, outros foram considerados os melhores amigos da terceira idade, como é o caso dos porteiros. Há 29 anos, Seu Gomes é o sorriso de entrada de um edifício comercial, no bairro da Campina, em Belém. Com seu corpo miúdo, movimentos expansivos e fala agitada o porteiro consegue desarmar até os visitantes mais sérios. “Eu solto logo um bom dia altão, que a pessoa sorri nem que seja de susto”, diz já iniciando a brincadeira. Mas seus amigos mais assíduos são os idosos que freqüentam os consultórios médios. Gomes já perdeu as contas de quantos mimos recebeu nesses anos de profissão e credita tudo a uma simples receita: empatia. “Eu sempre me coloco no lugar deles. Penso como eles gostariam de ser tratados, se precisam de ajuda. Às vezes muitos querem apenas conversar, falar do futebol, do tempo. Com bom humor a gente consegue dar atenção a todo mundo e ainda cumprir o serviço”, garante.

Em poucos minutos vemos um exemplo do carisma do porteiro. Terezinha Bentes chega 20 minutos atrasada para a consulta com o dentista, mesmo assim para no caminho para os elevadores e vai dar um abraço em Gomes. “Ele é a figura mais importante desse prédio. Não sei nem se conseguiria vir aqui sem ele. Quando ele falta um dia é tanta gente perguntado por ele que os outros substitutos se sentem até envergonhados”, garante. Para ela, o alcance de toda essa popularidade não está em nenhuma atitude extraordinária, mas nos simples atos do dia-a-dia. “Hoje nos acostumamos tanto a sermos mal tratados que quando alguém age da forma correta, enchemos de elogios. Mas o certo era que todos fossem como ele (Seu Gomes)”, concluiu.

Combate à violência contra o idoso cresce no Pará

Segundo a delegada Soranda Nascimento, da Delegacia do Idoso, em Belém, desde que a unidade se instalou no prédio da Divisão de Operações Especiais (Dioe), com maior visibilidade, aumentou a procura, tanto de casos policiais quanto sociais. “Recebemos uma média de 40 denúncias por mês, das quais aproximadamente 12 se tornam procedimentos oficiais. Um número que pode parecer pequeno diante da demanda reprimida, mas já é bem acima do que conseguíamos anteriormente”, diz. Apesar da estrutura reduzida, a expectativa é de que isso mude com a criação feita recente pelo Estado da Diretoria de Atendimento aos Vulneráveis. Entre as denúncias registradas, maus tratos são as mais comuns, seguidos de desvio de proventos, quanto a renda do idoso é usada sem sua permissão. E os próprios familiares continuam como os principais responsáveis pelos crimes. “O ideal seria que todos os órgãos atuassem em parceria, como uma rede de procedimentos. Além disso, faltam políticas públicas de conscientização familiar e da sociedade para os direitos humanos, respeito com a classe. Todos nós temos que assumir essa responsabilidade, porque se trata de problemática acima de tudo social”, afirma a delegada. (Diário do Pará)

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