“Dona Fulana de Tal, o problema do seu filho será resolvido”. “Seu Sicrano da Silva, aquela dor que o senhor está sentindo vai passar”. Recados nesses moldes, quando proferidos por Pedro Siqueira, têm nome, sobrenome e endereço certo a pessoas que participam dos terços que ele reza no Rio de Janeiro, onde reside, e por vezes em algumas cidades do Brasil, como Belém, onde estará na semana que vem pela terceira vez a convite da igreja de Queluz, para um terço aberto no Amazônia Hall. E quem manda o recado não é Pedro ou ninguém de carne e osso. Segundo ele, de sua boca saem palavras vindas diretas de Nossa Senhora, de santos como Antônio e Francisco, ou de anjos. E o que se vê de retorno nesses encontros é muita gente emocionada e com a fé reforçada de um lado, e críticos céticos de outra.
Os tais recados podem ser amorosos, um tanto desagradáveis e outros até em tom de bronca. “Fiz um terço em São Paulo logo depois da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o aborto. Nossa Senhora veio, reclamou muito e pediu que dissesse que aquilo era prejudicial à nação brasileira, um atentado à vida. Poucas vezes eu a vi tão chateada”, garante, em uma descrição perfeita do episódio.
Nestes tais encontros com o ‘lado de lá’, nem sempre há diálogo. “Nossa Senhora, por exemplo, deixa bem claro seu recado. Se pergunto, ela não responde. Ela fala quando quer, aparece quando quer. Pode acontecer de eu rezar um terço e ela não dar uma única mensagem. Aí são os anjos e santos que aparecem. Meu anjo da guarda está sempre presente. Até na parte musical ele diz ‘toca tal coisa’. Quem frequenta muito e me ajuda é São Francisco de Assis, São Gerônimo, Padre Pio e Santa Rita. Com esses eu consigo dialogar. Nossa Senhora não aparece para mim, ela só fala, não como uma voz, mas como algo no meu coração. Com os arcanjos não têm muito diálogo também. São Miguel vem, dá as mensagens e vai”, cita.
Essa permissão de quem pode ou não bater um papo ele crê que esteja vinculada a uma questão espiritualmente hierárquica. “Acho que para tudo deve haver um a permissão de Deus. O mundo espiritual é muito organizado. É a perfeição. Lá não existe jeitinho, infelizmente. Ou felizmente”, diz, com bom humor.
Ligação com os espíritos começou cedo
Segundo Pedro Siqueira, as manifestações se iniciaram quando ele mal havia começado a falar e já balbuciava à mãe que havia mais gente ali no berço, ao seu lado. Antes, com poucos meses de vida, ele teve uma morte súbita, mas foi reanimado no hospital, e não sabe ao certo se o episódio tem alguma ligação com tudo isso. Assustada, a mãe o levou a neurologistas, psicólogos, psiquiatras e pediatras, e por fim orientou-o para que deixasse aquele lado ‘quieto’. E ele acha que ela fez o certo.
“Ela fez por amor, para me proteger. Eu mesmo não desejo isso para o meu filho, inclusive já avisei lá em cima que quero que ele tenha vida discreta, sem missão espiritual, afinal lá em casa basta um. E meu anjo diz ‘isso não depende de você”, pontua. Antônio, que recebeu esse nome em homenagem ao santo que está, de acordo com Pedro, sempre ao lado da mãe do menino, tem apenas oito meses de vida. O pai não sabe o que lhe espera quando a criança começar a falar.
O temor pelo futuro de Antônio é porque Pedro diz que nem tudo que vê e ouve é coisa celestial. “Quando era criança e via coisa ruim, demoníaca, chorava, pedia ajuda. Mas por volta dos 7 anos, por mais medo que tivesse, eu já dominava e suportava. Depois de um tempo você vai se acostumando”, conforta-se. A mudança de atitude maior veio quando ele decidiu fazer os terços. O que era carma passava a ser dom. “Com 20 e poucos anos, decidi que não podia guardar aquilo só para mim e dei para a Igreja. Não sabia o que fazer, como rezar o terço nem como dar a mensagem, que é uma coisa ‘proibida’ pela Igreja, mas algumas pessoas apareceram para me orientar. Quando a gente se coloca em disponibilidade, Deus vem em socorro”, avalia.
Hoje, aos 40 anos, ele diz administrar tudo com mais tranquilidade. Mas nem assim é mais fácil. Advogado da Advocacia Geral da União, professor e escritor, torcedor do Fluminense, ele está cada vez mais fraco para rezar o terço que lhe consome as energias. “Às vezes é um fardo, fisicamente dói. Reúne cada vez mais gente e eu funciono como um filtro. Toda energia que vem e que vai passa por mim, e isso me causa dores grandes. Depois do terço vou expelindo essas energias automaticamente de volta para Deus. Poderia materializá-las, mas causaria um choque nas pessoas. Então rezo para que isso não ocorra. Claro que é um prazer poder ajudar, mas a cruz é pesada”, reclama. Por causa desse cansaço, os três terços mensais se tornaram dois e a meta é diminuir para um a partir do segundo semestre. “Acho que meu corpo talvez não aguente mais no ritmo que está. Eu envelheci bastante”, lamenta.
Quando o peso é grande demais, humano que é, ele diz que também ‘reclama’ com seus orientadores espirituais e quase sai briga. “Às vezes fico sem paciência, de mau humor, mas aí que é bonito da relação com o anjo, porque encho o ouvido dele de bobagem, e ele me aguenta. São Francisco ouve uma barbaridade de mim e sempre ri, faz carinho, é o tipo que não se esquenta com nada”, descreve, aos risos.
Religioso diz que “voltou” dos mortos com “naturalidade”
Pedro Siqueira fala das manifestações com a familiaridade que se esperaria de um espírita. Sobre o episódio de ter voltado dos mortos com a naturalidade de um evangélico. Mas ele é católico e seus terços atraem multidões à paróquia Nossa Senhora da Conceição, na Gávea, mesmo ele ainda sendo uma figura controversa na Igreja, principalmente na cidade onde mora.
“Quando comecei com os terços, há 18 anos, diziam que Dom Eugênio era superconservador. Depois veio Dom Euzébio, que chegou a proibir orações em línguas. Com Dom Orani a coisa não está indo bem também. Quando fui ao Círio, lembro claramente que na procissão à frente dele ia um grupo que dizia ‘seus filhos maçons te saúdam’. Pensei: ‘se até a maçonaria participa do Círio, quando ele chegar ao Rio de Janeiro talvez as coisas mudem’. Mas não aconteceu, não ganhei apoio nenhum e ele jamais assistiu a um terço meu, não falou nada em apoio e prefere tratar o assunto como se eu não existisse”, lamenta, aumentando o tom das críticas ao arcebispo do Rio de Janeiro.
“Um dos bispos auxiliares, dom Pedro Cunha, no final do ano passado foi na paróquia me cobrar o final do terço. O homem nunca assistiu a um terço meu. Era contra sem nunca ter visto. O pároco de onde rezo, Padre Geraldo, é diretor do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Ele contestou e disse que só faria algo se recebesse algo por escrito. O que nunca veio. “Esse tipo de coisa fundamentalista isso tem em qualquer religião”, critica.
Se na própria Igreja que o acolhe Pedro não é unanimidade, o que dirá da opinião vinda de outras religiões e vez por outra ele é alvo de agressões verbais, principalmente nas redes social. Mas apesar do dom que alega ter, Pedro diz que qualquer pessoa poderia desenvolver os mesmos canais de comunicação. Bastaria estar aberto a isso para ver, ouvir e crer. “Acho que é uma questão de intimidade. A criancinha é estimulada a rezar para o anjo da guarda, mas na adolescência isso é encarado como bobagem e o anjo passa a ser tratado como coelhinho da Páscoa e Papai Noel”. (Diário do Pará)
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