“Tem que obedecer o pai e a mãe. Se fizer coisas erradas, pode ir preso e, depois que se arrepender, não tem como voltar atrás”. Foi essa a lição que Mateus da Silva, 13 anos, aprendeu ontem. Ele é aluno da Escola Estadual Santa Tereza D’Ávila, de Marituba, umas das nove em todo o Estado que receberam, simultaneamente, a visita de detentos durante o projeto “Conquistando a Liberdade”.
Cerca de 180 internos pré-selecionados do regime fechado, que apresentam bom comportamento, foram convidados a ir às escolas para participar de uma conversa com os alunos, alertando sobre os riscos da criminalidade e do tráfico de drogas. Além disso, os detentos realizaram trabalhos de manutenção e serviços gerais nos prédios. A cada três dias de trabalho, um é reduzido da pena. Todo trabalho estava sendo supervisionado de perto por agentes carcerários.
O programa começou em Abaetetuba e agora está sendo ampliado pela Superintendência do Sistema Penal do Estado (Susipe), em parceria com a Secretaria de Educação e Poder Judiciário. O projeto terá ação contínua mensal. A cada mês, uma escola diferente de cada município terá um dia para receber a visita. De acordo com o superintendente da Susipe, tenente coronel André Cunha, o projeto inédito, além de prevenir crianças e jovens, ajuda à resignificar o tempo da pena dos presos. “O projeto é uma forma de tornar a conduta deles produtiva. Nós esperamos que ele (o detento) saia melhor do que quando entrou”, afirma André Cunha.
Ana Paula Pimentel, coordenadora pedagógica da Santa Tereza D’Ávila, diz que a escola abraçou a ideia com entusiasmo. “Nós estamos em uma área vermelha. A criminalidade está muito perto dos nossos alunos. O projeto, além de funcionar como ação pedagógica, ajuda na ressocialização dos presos. As prisões têm que parar de serem vistas como depósitos de gente”, afirma. Ao todo, cerca de 1600 alunos, dos ensinos fundamental e médio, receberam os detentos. A programação especial montada pela escola envolveu teatro, exposições e apresentações musicais. A escola estadual recebeu 18 presos do Presídio Estadual Metropolitano I.
Ex-internos também participam das palestras
Cleidiane Lopes Monteiro, 27 anos, a única representante do CRF (Centro de Recuperação Feminina), recebeu a pouco o alvará de soltura depois de 11 meses de prisão. “Tem gente que tem dez oportunidades e não sabe aproveitar. Lá dentro eu queria só uma e não podia ter”, diz. Ontem, ela deu seu depoimento aos alunos e chamou atenção para a importância de respeitar a família. “Tem que viver o que os pais ensinam. Se eu tivesse seguido o conselho deles, hoje eu não estaria aqui”, afirma.
Paulo Pinheiro, 27 anos, daqui a um mês terá dois anos de prisão. Ontem, o professor, que já realiza trabalho como monitor educacional no cárcere, pôde sentir de novo o prazer de estar cercado por muitos alunos. “Eles são privilegiados por estarem aqui e poderem estudar. Ensinar é compartilhar, é uma troca, pois se aprende também com a vivência do aluno”, diz Paulo. Ele resume a maior lição que os 180 detentos que participaram da ação puderam dividir: “A minha experiência de vida serve pra mostrar que o crime não compensa”.(Diário do Pará)
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