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O universo da dublagem mostra Bastidores

Quantos personagens diferentes um ator é capaz de interpretar? “Posso viver um universo deles”, garante Ester Sá. Muitos, dos mais inusitados, e quem sabe vários de uma só vez. Na telona, até mesmo um camarão a artista já representou. Isso tudo no lúdico

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Quantos personagens diferentes um ator é capaz de interpretar? “Posso viver um universo deles”, garante Ester Sá. Muitos, dos mais inusitados, e quem sabe vários de uma só vez. Na telona, até mesmo um camarão a artista já representou. Isso tudo no lúdico universo da animação. A esse faz-de-conta Ester empresta sua voz para dar vida a tantos papeis. “É diferente do teatro, onde a gente interpreta personagens que parecem fisicamente conosco. Na dublagem, a gente pode ser criança, velho, mocinha ou vilã, bicho ou gente”, diz a atriz que, com 15 anos de carreira nos palcos e outros tantos como manipuladora de bonecos do grupo In Bust, se diz apaixonada pelo trabalho de composição de voz.

“O que fazemos, na verdade é mais que só por a voz. Participamos do processo de criação do personagem, o que ele pensa, como ele é. Experimentamos várias vozes, trejeitos de fala, até o diretor aprovar”, diz André Mardock, também ator e integrante do In Bust. “Os dois são grandes atores de teatro, e só um ator poderia desempenhar tão bem a tarefa de dar voz à animação”, garante Cássio Tavernard, animador e ilustrador que trabalhou com a dupla no curta “A Onda – Festa na Pororoca”, de 2005. Na animação, a história de uma festa que os bichos organizam no fundo do rio para esperar a passagem da Pororoca. Enquanto isso, na superfície, dois surfistas do sul tentam a aventura de “domar” a grande onda. Com roteiro original do ator Adriano Barroso, um dos maiores expoentes da dramaturgia paraense, Cássio contou ainda com a participação de Aílson Braga, ambos do grupo Gruta. “Ester e Mardock vieram do trabalho com bonecos. E a animação é como um fantoche: o ator se desprende do corpo, se distancia, e empreende mais dedicação à voz. Assim como o Aílson, que também foi radialista. O trabalho de dublador é um trabalho de ator, essencialmente”, defende Cássio, que no seu curta de estreia contou com a colaboração do elenco de vozes também para criar sua história. “Saí fazendo tudo junto. Desenvolvi o roteiro com o Adriano, com quem eu já estava trabalhando no teatro, e puxei ainda o Aílson. A gente pensava junto os diálogos, a história”, revela Tavernard.

A empreitada deu frutos e em 2009 foi lançado o curta “O Rapto do Peixe-Boi”, uma nova aventura da Turma da Pororoca, que acaba de sair em DVD. Com Barroso e Braga nos papéis de Caranguejo e Candiru, faltava algo mais nesse “clube do bolinha”. “A Ester reclamou que só tinha voz masculina, e a Adriana também. Fiz um teste e Adriana me deu três vozes diferentes para o mesmo personagem. As mulheres conseguem brincar mais com a voz, modulam mais, criam mais”, opina o diretor. Adriana Cruz, que veio do mesmo núcleo do In Bust, há muito já trabalhava com contação de histórias infantis. Daí para encarar o universo subaquático do filme foi um pulo. “A experiência do teatro de bonecos foi a base para tudo. Assim como eu acredito que é o boneco quem diz que voz ele vai ter, na animação, é o esboço do desenho que te aponta o caminho, que diz como ele vai falar, que voz vai ter”, diz Adriana.

Nesse jogo de descortinar o personagem, foram ao menos dois meses de reuniões, leitura de textos, experimentações vocais e testes de estúdio. “O Cássio nos mostrava o storyboard, o Adriano explicava o roteiro e a gente brincava em cima disso, palpitava”, diz Adriana, que interpretou três personagens em uma só tacada: Dona Sucuri, Traíra e Neon. “Fiz voz feminina, masculina e onomatopéias, que são as ‘falas’ do Neon. Quem ouve, jura que aquilo tem sintetizador. Mas não, foi surto meu mesmo”, brinca a atriz sobre o tom cibernético que conseguiu dar ao peixinho brilhante. Diferente do trabalho habitual de dublagem de filmes, na animação, a voz vem antes do filme finalizado. “Esse é um dos grandes desafios: você cria a voz sem a presença física do personagem. A gente grava primeiro a voz, e só muito depois é que o desenho fica pronto”, revela Mardock, que interpreta um dos peixes candiru na animação.

Depois de mergulhar na pororoca, Ester emprestou sua voz à singela Dona Neneca, artesã de Abaetetuba, promesseira de Nossa Senhora de Nazaré. Criação de Andrei Miralha, “Nossa Senhora dos Miritis”, de 2010, foi a primeira experiência do ilustrador com filme falado. “Sempre optei pelo mudo, porque o trabalho parece conseguir um alcance universal. Mas adorei o resultado da Ester. Ela precisava trazer o contexto de vida da personagem, a delicadeza, a crença, e conseguiu”, elogia o diretor, que está às vésperas de finalizar um novo projeto. “Quem vai levar Mariazinha para passear” traz à cena a superstição dos poderes mágicos da bonequinha de papel que espanta a chuva. Roteiro premiado pelo edital do Curta Criança, do MinC, o filme é uma adaptação da peça de teatro criada por Ester Sá, e mistura animação e atores. “Os bonecos, frame por frame, foram feitos à mão, cortados manualmente, e depois scaneados para computação gráfica em 3D”, explica Miralha.

Com a boca no trombone
A dublagem surgiu no rastro do cinema falado. Os filmes eram mudos até 1927, quando chegou às telas “O Cantor de Jazz”. Com a euforia produzida pelo cinema sonoro, surgiu um problema: como as plateias que não falavam inglês iam assistir aos lançamentos de Hollywood? Para contornar o impasse, grandes estúdios como a MGM e a Paramount chegaram a filmar em Paris versões francesas de longas-metragens americanos. Claro que esses filmes em duas versões eram muito caros - e ainda assim não atingiam o público dos tempos do cinema mudo. A solução apareceu em 1930, quando os diretores Edwin Hopkins e Jacob Karol lançaram “The Flyer”, o primeiro filme a utilizar um sistema que permitia substituir as vozes originais por outras gravadas em estúdio. Países europeus pegaram carona nessa invenção e soltaram os primeiros filmes dublados ainda no começo dos anos 30. No Brasil, onde os longas estrangeiros passavam com legendas, a novidade da dublagem chegou no fim da década - o grande marco foi a estreia do desenho animado Branca de Neve e os Sete Anões, de Walt Disney, lançado em 1937 e dublado no ano seguinte. Naqueles primórdios, os atores tinham de gravar todos juntos no estúdio, olhando para a tela sem a ajuda do som. Os filmes levavam de três a quatro vezes mais tempo para serem dublados do que atualmente. Hoje, os dubladores gravam suas falas sozinhos, com a ajuda de um fone de ouvido, onde rola o texto original. E, no fim das contas, um filme demora em média de 25 a 30 horas para ganhar sua famosa “versão brasileira”.

Para ser um dublador
Graduação: antes de dublar é preciso atuar. Por isso, um dos pré-requisitos da profissão é cursar artes cênicas (graduação) ou teatro (profissionalizante).

Outros cursos: a dublagem é uma especialização para atores. Cursos específicos para a carreira podem ser encontrados nos sindicatos da categoria (www.satedsp.org.br e www.satedrj.org.br) ou no site www.cursodedublagem.com.br.

Área de atuação: estúdios de dublagem, trabalhando em filmes de cinema, home-vídeos, desenhos animados, seriados e nove

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