“É a vitamina do pobre.”, é assim que o pastor Dorivaldo Pinheiro, 65 anos, esperando pelo produto, define o suco da fruta que é um dos símbolos da cultura do nosso Estado: o açaí. Em Belém, há entre 4.000 e 5.000 pontos de venda de açaí, segundo o Departamento de Vigilância Sanitária (Devisa/Sesma). Desse total, a estimativa é de que, no máximo, 25 se enquadrem em todas as exigências previstas por Lei para que se mantenham funcionando. Ontem pela manhã, uma equipe da Vigilância Sanitária do município iniciou um mutirão de fiscalização que deverá se prolongar pelos próximos quatro meses. A ação irá mapear a maioria dos pontos de venda de açaí da cidade, notificando e interditando estabelecimentos quando for preciso.
De acordo com a coordenadora da ação do Devisa, Renata Parente, a irregularidade mais comum encontrada é a falta de higienização completa dos estabelecimentos. “A grande maioria não realiza um processo térmico chamado branqueamento, por exemplo, que mata muitos micro-organismos. Há muito preconceito. Os vendedores dizem que vai branquear o açaí, que vai mudar o gosto, vai prejudicar a qualidade, mas não acontece nada disso.”, afirma a coordenadora.
Para os estabelecimentos funcionarem regularmente, é necessário retirar uma licença no Devisa e se adequar às regras previstas na legislação. Entre as exigências estão: a necessidade de manter um ambiente totalmente limpo, o uso de toca e luvas e o isolamento do interior do ponto com a área externa. Segundo Renata Parente, os estabelecimentos de madeira estão totalmente irregulares e, quando vistoriados pela fiscalização, geralmente são automaticamente interditados. “O grande problema é que nós não temos essa cultura de que é necessário manter esses padrões de higiene.”, declara a coordenadora do Devisa. De acordo com ela, o açaí proveniente de pontos irregulares pode conter salmonela, tripanossomo, coliformes fecais, toxoplasmose e pode ocasionar até mesmo leptospirose. “Muita gente diz ah, que consumo há trinta anos e nunca tive problemas, às vezes a pessoa já teve a doença e não a relacionou ao consumo do açaí”, explica Parente.
A fiscalização de ontem se estendeu por pontos de venda ao longo do bairro da Pedreira. Na travessa Mauriti, próximo à Pedro Miranda, o ponto de dona Eliete Ferreira Calandrini, 63 anos, estava limpo, higienizado e os clientes faziam fila para comprar açaí. Mas a fiscalização a notificou pelo descumprimento de algumas regras, dentre elas a falta de um vidro de proteção separando o interior da área externa. “O valor do açaí tá muito alto. A gente não tem dinheiro pra fazer tudo isso. Mas vamos pedir um empréstimo pra nos ajeitar, procurar o Sebrae e vai tudo ficar direitinho.”, garante dona Eliete, que trabalha vendendo açaí há 35 anos e começou com um ponto de madeira. O responsável pelo empréstimo, que agora não poderá mais fugir da promessa, será o aposentado João Santos, 70 anos, freguês há 20, que garante: “Esse é o melhor açaí da Pedreira”. Dona Fátima Oliveira, 61 anos, aposentada, confirma a qualidade do produto: “É uma maravilha. Nunca tive problema, depois de tomar eu nem deito e já tô roncando.”, diz a aposentada.
Eron Amaral mantém há nove anos um ponto de venda na Feira da Pedreira. O vendedor é um dos poucos que consegue se adequar totalmente à legislação, realizando inclusive o processo de branqueamento. “Não foi fácil. A gente procurou consultoria do Sebrae pra dizer o que tava certo, o que tava errado, o que tinha que ajeitar... Precisamos quebrar até o chão aqui.”, conta Eron. A Devisa aconselha aos consumidores a procurarem os pontos regularizados, que mantém os padrões de higiene, para estimular e investir na estrutura dos negócios. Um custo alto feito em nome da saúde dos únicos que podem evitar que os vendedores esforçados não fiquem no prejuízo: os compradores. (Diário do Pará)
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