Em localidades marcadas pela sensação de impotência diante da violência, emergem dramas sociais caracterizados por uma complexa dicotomia da sobrevivência: de um lado, prestadores de serviços que tentam resguardar suas atividades, deixando de “se arriscar” em certos trechos da cidade, excluindo estes locais de seus itinerários. Do outro, cidadãos que querem exercer o direito à serviços e cidadania, onde um simples pedido de pizza delivery, por exemplo ou o ato de chegar em casa em um táxi são serviços que muitos não podem usufruir pelo medo que faz parte do cotidiano de moradores de regiões periféricas na Grande Belém.
Depois de 10 assaltos, um tiro, algumas facadas e quase cinco mil reais roubados durante 17 anos de profissão, o taxista Dinaldo Camilo da Silva, 44 anos, passou a optar por não aceitar transportar passageiros até determinados locais. O trauma não se restringe somente ao perímetro, mas também ao comportamento apresentado pela pessoa no ato da abordagem. “Tento reparar nas vestimentas e no jeito da pessoa. Bêbados então, desses aí eu corro”, justifica ironizando. Ele trabalha em uma cooperativa com sede no conjunto Cidade Nova 8, no bairro do Coqueiro, em Ananindeua, e já foi vítima da criminalidade que assola locais considerados zonas vermelhas pela polícia, em bairros de toda a Região Metropolitana de Belém.
A atitude do taxista, de recusar entrar em determinadas localidades, não é uma atitude isolada. Depósitos de gás e água, distribuidoras de bebidas, lojas de materiais de construção e os Correios, por exemplo, estão assumindo a mesma postura. Nos bairros com alto índice de criminalidade, como Terra Firme, Guamá, Jurunas, Cabanagem, Cremação Condor e Bengui, existem faixas de Cep (cada faixa corresponde a uma via) em que não estão sendo entregues correspondências, por exemplo.
LOCAIS PROIBIDOS
Nesses casos, a simples a entrega de um garrafão de água significa um esforço em vão. Mesmo com um telefone em casa, a dona de casa Maria Evangelista não pode ligar para a cooperativa de táxi após às nove horas da noite, ou mesmo para o disque-água do “Seu Olivar”, como é conhecido o dono do depósito que fica a quatro ruas depois da casa onde mora. Ela vive com os 03 filhos na Passagem Bom Jesus I, no bairro da Condor, e garante: “Não recebo correspondência há meses. Os Correios dizem que é perigoso entrar aqui porque os carteiros já foram assaltados várias vezes. Táxi, apenas na volta para casa quando ainda está de dia. Nada é fácil por essas bandas”, relata.
Dados dos Correios apontam que, na área metropolitana da capital, 2100 faixas de CEP estão sem receber correspondências. Segundo o gerente de operações dos Correios, Rodilson Teles, alguns critérios foram criados para essa determinação: é preciso o registro de três assaltos no período de um mês a carteiros convencionais (aqueles que andam de porta em porta fazendo as entregas) para que a empresa afaste o serviço da localidade. “Nos últimos três anos foram registrados 285 assaltos a esses profissionais. O principal alvo desses criminosos são os cartões de crédito”, destaca.
Encomendas entregues pelos veículos dos Correios são as mais visadas, pois nestes veículos são transportados os objetos de valor. “Geralmente são encomendas do Sedex ou de sites de compras. Nos últimos dois anos, estes veículos já sofreram 55 assaltos na Grande Belém”, conta Rodilson . Ele afirma que Jurunas, Guamá, Cremação, Condor e Terra Firme são os bairros onde existem mais zonas em que não há cobertura da empresa.
Consultada sobre a questão, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Segup) informou, através de sua assessoria, que o policiamento ostensivo nessas localidades visa diminuir a criminalidade. Questionados sobre um mapeamento da violência por bairros a assessoria disse que não há esse tipo de levantamento e que o patrulhamento policial é feito em toda a região metropolitana para garantir segurança à população. (Diário do Pará)
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