Subir escadas. Correr da chuva. Brincar com uma criança. Dar um mergulho. Inspirar e sentir o ar da manhã. Ações facilmente realizadas por todas as pessoas, certo? Não se falarmos dos portadores da DPOC, a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. A enfermidade que atinge mais de oito milhões de brasileiros afeta os pulmões, provocando a dilatação excessiva dos alvéolos e a perda da capacidade respiratória.
Geralmente está associada ao agravamento de várias doenças, entre elas a bronquite crônica e o enfisema pulmonar. No Pará, 16% da população acima de 40 anos foi diagnosticada com a doença, um percentual que, em 2004, significava 200 mil pessoas. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, em 2030, ela será a 3ª maior causa de mortes no mundo. O quadro fica ainda mais alarmante porque os sintomas tardios, que levam de 25 a 30 anos para aparecer, fazem dela uma doença silenciosa e mais perigosa. O humorista Chico Anysio foi vítima da enfermidade e trouxe a DPOC de volta ao cerne das discussões.
“Noventa por cento dos casos de DPOC estão relacionados ao tabagismo”, reforça a pneumologista Fátima Amine. Ela faz parte de um grupo multidisciplinar que atende no Centro de Tratamento do Fumante, da Secretaria de Estado de Saúde do Pará. Todos os dias, dezenas de pessoas procuram o local em busca de assistência médica, ajuda e informação. “A medicina evoluiu bastante, a conscientização contra os malefícios do cigarro também, mas parte da população ainda espera sentir algum sintoma para procurar o médico e aí a doença, que não tem cura, já está instalada”, explica.
Os portadores da doença têm lesões em seus brônquios, constantemente inflamados, o que causa o aparecimento do muco. Com o tempo, os brônquios terminais dos alvéolos vão sendo destruídos e perdem sua elasticidade, causando o aprisionamento do ar nos pulmões. A partir daí a pessoa fica cada vez mais debilitada, e aos poucos perde a capacidade de fazer suas atividades usuais. Mas além do cigarro outros fatores são considerados de risco, principalmente os ambientais. “Alguns casos podem ser adquiridos devido exposição constante a qualquer tipo de queimada, como lareiras e incineração de lixo, mas essas situações geralmente acometem pessoas no interior do Estado (onde está concentrada a maioria das serrarias e carvoarias)”, explica a médica.
Grupo presta apoio a doentes
Na capital paraense, um grupo de apoio tenta dar qualidade de vida aos portadores da DPOC e do tabagismo. Às quartas e sextas-feiras, são feitas reuniões na Centro de Tratamento do Fumante. Lá estão pessoas que há anos pararam de fumar, outros que se livraram do cigarro há poucos meses e alguns que ainda lutam contra o vício. Um espaço de troca de experiências e incentivo mútuo. Na última sexta-feira, o primeiro depoimento emocionado foi o de José Veloso, aposentado. Orgulhoso com os compromissos que o esperavam, ele participou do encontro por apenas cinco minutos, tempo de falar com os colegas e contar sua história aos que ainda não o conheciam. “Fumava até três carteiras de cigarro por dia, tomava café o dia inteiro, até mesmo de madrugada. Cheguei a pesar só 40 kg, quase 30 kg abaixo do meu normal. No total, foram 32 anos fumando e bebendo, me acabando. Até que o médico me deu seis meses de vida. Foi quando decidi mudar”.
Raimundo Negrão também precisou de apoio clínico para abdicar do hábito. Mas retomar a vida saudável não foi fácil. Nem a internação por problemas cardiorrespiratórios em 2007, alerta de que a DPOC se alastrava pelo organismo, foi o suficiente para fazê-lo construir novos hábitos. “Parar de beber foi até fácil, já o cigarro... Eu tentei vários médicos antes, mas não conseguia nem reduzir a quantidade”, afirmou. Viver com as restrições da doença, contudo, começou a ser empecilho para ele e a família. “Aconselho todos a pedirem ajuda, porque não é uma doença fácil de lidar. Dormia mal, não tinha disposição, me faltava ar o tempo todo”, diz o aposentado, que desde novembro realiza tratamento para a doença, com acompanhamento dos profissionais, exercício físico e remédios. Entre os membros do grupo, era fácil perceber a cumplicidade de Silvio Cardoso e Vânia Papaleu. De mãos dadas, eles ouviam atentamente aos outros casos e eram os pacientes mais novos do local. “Trouxe ela aqui pela primeira vez porque quero que pare de fumar enquanto ainda há tempo”, comenta Silvio. Além da DPOC, o motorista de táxi também tem hepatite C, cirrose e gordura calcificada na veia. Consequências de uma vida de abuso de álcool, cigarro e drogas. “Estou limpo há 13 anos e desde dezembro do ano passado larguei o cigarro”, comemora. Fumante há 14 anos, Vânia ganhou de todos o incentivo para cuidar da saúde. “Ainda não estou sentindo nenhum sintoma e me disseram que é melhor ainda parar agora, antes que dê algum problema. Também penso na minha neta, de dois anos, que se incomoda com o cheiro do cigarro pela casa”, afirmou.
Uma atitude louvável, garante a pneumologista. “A prevenção sempre será a principal bandeira médica. Trabalhamos para que a doença não venha a ter o ambiente propício para se desenvolver. A indústria do tabaco sempre irá procurar novos consumidores e é neles que devemos focar. Sem cigarro, com uma alimentação balanceada e exercício físico, eliminamos todos os riscos”, ratifica. (Diário do Pará)
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