É com saudade que o aposentado José Medeiros da Silva, o “Ceará”, 80 anos, recorda de alguns amigos que viviam próximo a sua casa, na avenida Bernardo Sayão. Retirados do local por conta das obras de um dos projetos do “Portal da Amazônia”, eles agora vivem em bairros distantes. “Já derrubaram tudo lá onde ficavam as casas deles. Dá uma tristeza de ver que já não estão lá”, diz.
Ele também vive a expectativa de ser o próximo a sair do local, onde já mora há 33 anos. “Eu conheço todo mundo por aqui, sair desse lugar vai ser difícil. Eu construí minha família, tudo aqui. Tenho esperança de poder ficar”, conta. Seu “Ceará” também se preocupa com a futura moradia, quando já for inevitável ir embora. “O dinheiro (da indenização) deve ser pouco. Onde vou arranjar uma casa? Tem gente que diz que vai morrer se tiver que sair daqui”, afirma.
Quem também não imagina a vida longe dali é Oséas Alcântara, 87 anos de idade. Em um dos pontos da Bernardo Sayão, sua casa é uma das únicas que ainda estão de pé, aguardando para ser demolida. Ao redor, apenas os restos de concreto, ferro e madeira das casas já retiradas. Entre os que já sairam, recordações do que ficou para trás. Objetos como pequenos móveis, brinquedos e até mesmo um sofá estão espalhados pelo local.
Mesmo com a casa já estando parcialmente demolida, seu Oséas ainda não abandonou a residência. Pretende ficar até o último momento. “Minha esposa foi lá para a Cidade Nova para não assistir a casa ser retirada e só vai voltar quando a casa nova estiver pronta. Eu resolvi ficar por aqui, não vejo a vida em outro lugar”, conta.
Com o dinheiro da indenização, ele começou a construção de uma casa bem próximo ao local onde ficava a antiga. Não quer ficar longe de suas raízes e das histórias que acumulou durante os 62 anos em que vive ali. “Eu trabalhava durante o dia com venda de açaí e, à noite, carregava aterro para construir essa casa. Aqui não tinha água, nem luz, nem passava ônibus. Vi toda a modernidade chegar”, relembra.
Enquanto assiste os trabalhadores derrubarem os restos das casas, ele tenta recordar as memórias que vêm à tona. “Passam muitas lembranças pela minha cabeça, lembro do sacrifício que foi fazer minha casa. Deus me livre de ser retirado, acho que meu destino é aqui”, emociona-se.
DESPEDIDA
Em outra área da Bernardo Sayão, a doméstica Eunice de Oliveira, 66 anos, arruma a mudança de sua família. Amanhã (16), será o último dia na casa onde vive desde criança. Mesmo com a proximidade da data, ela ainda não faz ideia de onde será a nova morada. “Não tenho para onde ir, vou morar de aluguel em algum lugar por um tempo”, diz.
A falta de planos é decorrência da resistência em ter que deixar sua moradia. “Só imaginei sair daqui pro cemitério. Só lá para o final do ano é que devo decidir onde morar. Penso em ir lá para o Icuí, mas antes vou esperar meus netos terminarem o ano na escola”, afirma. Do local onde vive com mais seis pessoas, ela pensa em levar somente as melhores lembranças. “Vivi toda minha mocidade aqui, muitas coisas boas. Aqui tenho muitos parentes próximos, não fico feliz com essa retirada”, critica.
OBRAS
Segundo informações da Prefeitura de Belém, a avenida Bernardo Sayão, no trecho entre a Augusto Corrêa e a Radional, faz parte do projeto de macrodrenagem das sub-bacias 3 e 4, que compõem o Portal da Amazônia. O projeto prevê obras de saneamento nos canais e vias, duplicação da Bernardo Sayão e construção de áreas de lazer.
Nesta área, está prevista a retirada de cerca de 240 famílias, sendo que aproximadamente 50 já foram removidas e mais 20 já assinaram o termo para venda dos imóveis ao município. As famílias aguardam apenas o valor da indenização ser liberado para saírem do local.
(Diário do Pará)
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