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Norte ainda sofre com parasitoses

Na porta de casa, Matheus Moraes assistia ao fraco movimento do horário de meio-dia, esperando o tempo passar. Descalço, vestido apenas com uma bermuda, ele aparentava menos de seis anos. As mãos sujas seguravam a irmã menor, de 2 anos, cujos pés também t

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Na porta de casa, Matheus Moraes assistia ao fraco movimento do horário de meio-dia, esperando o tempo passar. Descalço, vestido apenas com uma bermuda, ele aparentava menos de seis anos. As mãos sujas seguravam a irmã menor, de 2 anos, cujos pés também tocavam diretamente o chão. Com a chegada de Matuzalem, o filho mais velho, com 8 anos, os três formavam um exemplo de família da periferia de Belém, situação que expõe todos os dias milhares de crianças ao contágio de várias doenças, sendo mais comuns as parasitoses.

Consideradas um problema de saúde pública, principalmente nas áreas rurais e em países em desenvolvimento, as parasitoses atingem quase 25% da população mundial, em algum período da vida, segundo estatística da Organização Mundial de Saúde (OMS). Em 2008, estudos mostraram que o Brasil ainda registra casos do gênero em 36,7% da população e, na região Norte, as taxas chegam a 60%, as maiores do país.

A transmissão depende das condições sanitárias e de higiene das comunidades. Em geral, o germe entra pela boca ou pela pele, até chegar ao intestino, onde ele vai se alimentar e crescer. Entre os sintomas estão perda do apetite, dificuldade de ganhar peso, irritabilidade, dor abdominal, náuseas, vômitos, problemas de sono e diarreia.

Sensação que Matuzalem descreve como incômoda e dolorosa. “Sentia muita dor na barriga e vivia no banheiro. Às vezes, também ficava com enjoo e só queria comer besteira”, conta. Como e quando “pegou verme”, ele não sabe dizer. “Todas as crianças aqui acabam tendo verme. Acho que é da terra da rua que a gente pega”, opina. Por isso, a pedido da mãe, eles passaram a brincar mais dentro de casa. Mas continuaram com alguns hábitos arriscados, como beber água diretamente da torneira. “Se a mamãe estiver em casa, ela ferve, senão tem que beber com esse gosto salgado mesmo”, admite. E assim, em poucos meses, foi a vez de Matheus passar pela mesma enfermidade.

Segundo o dermatologista Francisco Norato, a verminose mais comum no Pará é o áscaris, popularmente conhecido como lombriga. O contágio é feito através de alimentos, água contaminada e mãos sujas, por isso pode ser facilmente evitado com procedimentos higiênicos. “Os alimentos devem ser cozidos; a água, fervida; as mãos, sempre limpas, e evitar contato direto da pele com áreas sujas”, diz. Atitudes simples que, mesmo quando não são feitas, podem ser remediadas com medicamentos de dose única. “O ideal é procurar um médico para fazer o exame”, orienta.

Com tantas facilidades é surpreendente ainda que algumas crianças morram em decorrência da doença, como ocorreu há algumas semanas com um bebê de dois anos de idade, em Belém. “É uma omissão familiar, um descaso muito grande. Para que o áscaris leve ao óbito, é necessário pelo menos um ano de desenvolvimento dele no organismo”, diz o médico.

Além disso, há casos que não resultam em morte, mas deixam sequelas. Níveis elevados de mono e poliparasitismo, associados à alimentação com baixos níveis de nutrientes, podem comprometer o desenvolvimento adequado do organismo humano, especialmente nos primeiros anos de vida.

Por isso, a dona de casa Maria Tavares tem orgulho em afirmar que nenhum de seus filhos, netos ou bisnetos foi infeccionado por verminoses. “Lá em casa, somos rigorosos com limpeza. Nunca deixei eles brincarem na rua, sempre dei vários banhos ao dia e levamos as crianças pelo menos duas vezes ao ano ao médico”, garante.

Mesmo assim, com todos os cuidados, ela admite que o acúmulo de sujeira nas ruas se torna um risco para todos. “A gente sabe que, quanto mais sujo é um lugar, pior para a saúde das pessoas. É o tipo de coisa que só melhora quando as pessoas e o governo se conscientizam”, opina.

(Diário do Pará)

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