Aline de Nazaré, 34, ficou endividada para não morrer. Ela precisa realizar hemodiálise, devido ao comprometimento de um dos rins, três vezes por semana. Como se já não bastasse o transtorno decorrente do tratamento, Aline viaja oito horas, tempo da ida e volta, de Salinas para Belém, já que o município não oferece tratamento para seu problema. Há três meses, cerca de 31 pacientes da cidade que recebiam R$ 900 correspondentes ao TFD (Tratamento Fora de Município) não têm acesso ao benefício que obtinham da 4ª Regional da Sespa de Capanema. Sem a verba para pagar transporte, alimentação ou hospedagem, os pacientes que necessitam fazer hemodiálise não sabem mais a quem pedir ajuda, nem até quando poderão arcar com as sessões que necessitam realizar para sobreviver. “Eu já pensei em desistir. A única coisa que me dá forças para continuar são meus filhos.”, afirma Edivaldo Alves, 32. Ele também mora em Salinas e precisa realizar as sessões de hemodiálise três vezes por semana. “A pior parte é a volta. A gente fica muito debilitado depois das sessões e ainda precisa fazer a viagem pra Salinas.”, diz. Edivaldo é casado, tem três filhos e, por causa do tratamento que faz há cinco anos, precisa viver em função da doença. “É muito difícil. Só a gente é que sabe...”, desabafa. Ontem, ele acordou três horas da manhã para vir a Belém realizar sua última sessão da semana. “Uma das funcionárias de lá (da 4ª Regional) disse que era para eu usar o meu benefício do INSS. Como vou pagar meus remédios, meu tratamento, sustentar minha esposa e meus filhos com um salário mínimo?”, questiona.
Sandra Helena Silva, 27, faz hemodiálise há oito anos. Ao lado dela sempre está sua mãe, Sandra Maria Costa Barros, 49, que também realiza sessões há seis anos. Juntas, mãe e filha tentam se apoiar para não deixar que a insuficiência dos rins lhes tire a vontade de viver. “A gente precisa ter muita força e coragem pra enfrentar a situação. Isso que tão fazendo com a gente é uma barbaridade e uma injustiça.”, afirma Sandra Maria. As duas já chegaram até a pedir passagem de graça nas vans para poder chegar à cidade. Ao longo da entrevista realizada na manhã de ontem na sede do grupo RBA, as bolhas na pele, causadas pelo acúmulo de líquidos, já indicavam que os entrevistados precisariam logo ir para mais uma sessão de hemodiálise. Depois, o longo caminho de volta até Salinas.
Os pacientes realizam o tratamento em diferentes hospitais da região metropolitana de Belém e também precisam pagar a diária das sessões. Apesar da situação complicada e de estarem reféns das máquinas que substituem seus rins, os quatro tentam manter o bom humor e seguir em frente, apesar de todas as dificuldades. “Olha, já que a gente tá aqui, se quiser a gente pode até aparecer na novela.”, brincou dona Sandra Maria.
A 4ª Regional de Capanema atende pacientes de 16 municípios do nordeste paraense. Andressa Souza, agente administrativa da 4ª Regional, explica que o atraso no repasse do TFD está ocorrendo por conta de uma nova orientação do governo estadual que teria sido dada este ano. Agora, segundo a agente administrativa, a regional só pode empenhar o benefício e receber o dinheiro quando os pacientes apresentam a comprovação de evolução dos seus tratamentos. “Pacientes que apresentaram bem antes o acompanhamento clínico já receberam o benefício atrasado.”, diz a agente. De acordo com Andressa Souza, o governo estadual reduziu 50% do orçamento repassado à Regional, o que estaria dificultando empenhar todos os benefícios, mas que parte deles estará disponível a partir da próxima semana. (Diário do Pará)
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