O título da publicação era um presságio do que estava por vir: Tempos de espera. “Condiz com o momento”, fala rindo o dono do livro, o analista de sistemas Leonardo Falcão, 30 anos. Na manhã de ontem, ele aproveitaria para ler durante a viagem de ônibus que, devido às obras do BRT (Bus Rapid Transit), ganhou 20 minutos a mais. “Eu prefiro deixar o carro em casa e andar de ônibus do que me estressar nesse trânsito”, revela Leonardo que, diariamente, precisa atravessar a Avenida Almirante Barroso para ir do conjunto Costa e Silva até o trabalho, na Presidente Vargas. “Eu só espero que terminem a obra. A gente tem o histórico de deixar projetos inacabados por cinco, seis anos...”, comenta preocupado o analista de sistemas.
À luz da teoria criada pelo físico Albert Einstein, que afirma que tempo e espaço são relativos, após o início das obras do BRT, sobra tempo de viagem e falta espaço para tantos carros na pista das Avenidas Augusto Montenegro e Almirante Barroso. Como o analista de sistemas Leonardo, milhares de pessoas aproveitam o tempo extra para ouvir música, tirar um cochilo, estudar ou ler as notícias do dia. Na hora do sufoco, vale até dividir as queixas sobre o trânsito com quem está ao lado na esperança de que o problema, difícil de ser ignorado, não vença pelo cansaço.
Para aliviar o estresse causado pelos engarrafamentos e pelo som das buzinas, o bom humor, difícil de ser mantido, é fundamental. A auxiliar de informática Cristina Pinto, 56 anos, precisa atravessar a Avenida Tavares Bastos todos os dias para chegar ao trabalho. A via teve o sentido modificado recentemente devido às obras da Prefeitura Municipal e, por conta da alteração no tempo dos semáforos, tem registrado paralisações em horários de pico.
Terça-feira (29), a janela do carro de Cristina, que não fechava, seria levada para o conserto. De vidro aberto, com o ar condicionado no rosto, a auxiliar de informática escutava música para tentar ignorar o som das buzinas que vinham de trás. Apesar do transtorno, Cristina acredita que o BRT é necessário. “Tem que ter paciência, se não a gente não conquista nada”, fala simpática a motorista. Para a auxiliar de informática, só a música é capaz de distrair a cabeça dos problemas causados pelo excesso de carros nas ruas. “Se não tivesse a música, eu iria ficar ainda mais estressada”, conta.
E rezem para que não ocorra algum acidente
O trânsito na Tavares Bastos, que já estava lento, foi prejudicado ainda mais pela imprudência de dois motoristas. O acidente fechou parcialmente a via por conta da colisão de um carro de passeio com um coletivo. Era a segunda batida leve, no mesmo perímetro, até às nove horas da manhã de ontem. Agentes da CTBel estavam no local orientando motoristas e os carros foram logo tirados da pista. “As pessoas insistem em trafegar pela Almirante Barroso por mais que a gente oriente a usar vias alternativas. A via não comporta mais tantos carros. A Pedro Álvares Cabral tá livre, mas a grande maioria dos motoristas não quer ir, não respeita”, comentou um agente de trânsito.
Mirelle da Silva, 31 anos, lavadeira, já estava atrasada para o trabalho quando a batida aconteceu e ela precisou trocar de ônibus. “Eu costumo ouvir rádio pra me distrair e ver se me conformo. Não tem outro jeito, né? Eles começaram a obra, agora vão ter que terminar”, fala Mirelle. Desde o início dos trabalhos no BRT, o tempo de viagem da moradora do conjunto Sideral subiu de uma hora para uma hora e meia. Um período de tempo pequeno se comparado às três horas de viagem que a professora Vera Lúcia Cardoso, 38 anos, está realizando há uma semana.
Vera está precisando viajar de Castanhal a Belém para que a filha, Amanda Siqueira, de 13 anos, possa fazer transfusões de sangue no Hemopa para realizar uma cirurgia. A professora precisa acordar antes das cinco, pegar um ônibus às seis e meia para poder chegar a tempo na cidade. “Hoje o trânsito tá fluindo bem, mas eu tenho ficado presa em Marituba até umas 8h40”, conta Vera. Para evitar dores de cabeça, a técnica é buscar meios para esquecer a longa viagem. “Eu costumo viajar lendo, ouvindo música ou conversando”, conta a professora.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar