O barulho acelerado da agulha na máquina dita o ritmo de uma família. Na entrada da casa, penduradas em cabides e varões, a complexidade de cada peça exposta deixa claro o distanciamento das vestimentas singelas utilizadas pelos brincantes de quadrilha nas décadas de 30 e 40 em Belém. Passados tantos anos de tradição, a forma de dança surgida na França se mantém até hoje, apesar das muitas variações e modificações ao longo do tempo.
Do envolvimento com as tradicionais quadrilhas juninas, a costureira Soraia Azevedo já acumula pelo menos 20 anos. O encantamento pelos festejos que fazem parte de sua rotina até hoje data da época em que ainda era criança. Mas foi após os quinze anos de idade que ela passou a exercer, além do papel de brincante. “Eu costurava roupas normais e fantasias para o carnaval. Eu dançava na Iracema (quadrilha) e o Valter Viegas, que é coreógrafo, deixou um desenho pra mim e disse ‘vais ter que dar um jeito porque a minha costureira está doente’ e deixou o desenho comigo dizendo que ia voltar no outro dia para me ensinar os cortes”, lembra. “Peguei o desenho e falei pra minha mãe ‘vou tentar fazer isso hoje’. Ela ainda disse que eu ia estragar o material, mas quando ela acordou na manhã do outro dia, a roupa tava pronta”.
De lá para cá, as mãos de Soraia serviram cada vez mais à quadra junina. Em abril, as encomendas começam a chegar a sua casa. Cada espaço fica tomado por babados, fitas, rendas, chapéus de palha. Para cada quadrilha que costura, são quarenta roupas. “Quando vai chegando junho a gente já vai entrando no clima. É aquela correria, vou pro comércio comprar os materiais, encontro com os amigos nos ensaios. Tudo já começa a mudar”, afirma. “Logo no início, amanhecíamos na máquina (de costura). Ontem mesmo (quinta-feira) eu fiquei costurando até quatro horas da manhã”.
Em meio às criações já prontas, Soraia não se perde. Penduradas sob sua cabeça, em cada espaço das paredes, na entrada do pátio e no chão, cada assessório diz respeito a uma história. “Essa vermelha aqui é de uma miss. Essa outra de uma miss mirim. Aquela azul é de uma quadrilha. Essa aqui é a da mulher, ali está o chapéu, e aquela é a do homem, pendurada aqui”.
Apesar de já não dançar mais, atividade que manteve por 14 anos de sua vida, ela faz questão de acompanhar todas as apresentações. De perto, vê as roupas produzidas vestirem os brincantes que dançam quadrilhas nas grandes competições. “Quando eu vou assistir, choro muito. É muito emocionante, ninguém tem ideia”, emociona-se.
TRADIÇÃO
Além das roupas que costura com dedicação durante boa parte do ano, ela também vê a tradição se estender na figura das filhas. Nilaynne dos Santos, de 13 anos, já está com a roupa pronta para disputar o título de miss. Ainda com dois anos de idade, a pequena Nayane dos Santos já demonstra, em cada gesto, a força da quadrilha em sua criação. “A gente já nasceu com o São João grudado no corpo mesmo”.
Ao ver as netas preparadas para a quadra junina, a costureira Nazareth Azevedo se emociona. Antes da filha Soraia, nos anos 80, já era ela quem sentava em frente a máquina de costura para cozer e franzir as saias rodadas que embalam os movimentos das músicas juninas. Apesar da intimidade com cada adereço, para ela, ficou o sonho de dançar como as netas. “Eu tinha tanta vontade de dançar quadrilha, mas, na época, a família não deixava. Eram muito rigorosos”, lembra sem muito pesar.
Como se não bastasse o gosto pela tradição que pegou as duas gerações femininas que seguem após a dela, seu genro também foi o responsável por aprimorar sua dedicação às roupas. “Eu comecei no tempo da Iracema (quadrilha) e esse meu genro era muito chato”, brinca. “Ele ficava em cima dizendo ‘desmancha! Ainda não tá bom’”.
Acompanhando de perto as palavras da sogra, Jair Santos não esconde o sorriso. Iniciado na quadrilha há mais de 25 anos, como guarda na memória, ele já passou de brincante para diretor. “A gente começa sempre no colégio, né? Aí vai passando pra coordenador, depois pra diretor”, lembra. “Mas é difícil. Eu costumo dizer que pra coordenar uma quadrilha a gente tem que ter o grupo do ‘B’: bons diretores, boa comunidade, bons coreógrafos...”.
Há 14 anos como coordenador da Quadrilha Roceiros do Alan Cardec, neste ano, Jair não verá sua quadrilha competir nos grandes concursos. Além do amor, que a comunidade e a família mantêm de sobra, ele lembra que para dançar o São João também é preciso dinheiro. “O mais difícil é a falta de dinheiro para a roupa. A gente faz bingo, festas pra arrecadar dinheiro na comunidade, mas a estimativa de custo só das roupas das quadrilhas é de R$12 a R$15 mil”, revela. “Não vamos sair este ano, mas vamos fazer um concurso de quadrilha mirim não oficial aqui na quadra da comunidade”.
De acordo com a professora da escola de teatro da Universidade Federal do Pará (UFPA) - que durante seu mestrado em artes cênicas estudou um pouco das quadrilhas juninas -, Leonora Leal, o modelo de quadrilha que temos no Pará, nas décadas de 30 e 40, remetem ao modelo caipira. “É uma variação da quadrilha que chegou ao Brasil. É uma dança que agradou a população rural e que se adaptava a qualquer ambiente. Então, nessa época, a quadrilha retratava a cultura rural como consequência dessas adaptações”.
Até a década de 60 a quadrilha era dançada e organizada em poucos dias entre os moradores de uma rua ou bairro. “A quadrilha era feita nos terreiros e, nesse período, uma pessoa ficava responsável por organizar. Eles ensaiavam três dias antes, cada um fazia a sua roupa, dançavam no final de semana e aí acabava”, afirma. “A partir da década de 70 é que começam algumas mudanças relacionadas ao contexto social e político da época. O figurino passa a ter mangas muito cheias, muitos babados e a partir daí se muda a característica de ser só caipira”.
DEVOTOS
Saindo da festa para o lado religioso, é em julho que os devotos de Santo Antônio têm treze dias para festejar e fazer orações em homenagem ao santo. A festividade, iniciada desde a última quinta-feira com a celebração de uma missa de abertura dos festejos da Paróquia de Santo Antônio, deve seguir até o dia 13 de junho, quando é comemorado o dia do santo.
De acordo com o coordenador da festividade, Ouvidio Amazonas, neste ano, a trezena, como é conhecido o período, será marcado por uma novidade. Além da Capela de Santo Antônio de Lisboa e do Centrão – local onde está sendo construída a catedral de Santo Antônio -, a Praça Batista Campos também será palco das homenagens ao santo casamenteiro. “No dia oito de junho teremos a seresta dos namorados com a apresentação de atrações musicais, no dia seguinte, haverá o sábado alegre quando também será realizada a bênção dos animais e no dia dez teremos apenas a venda de comidas na praça”, pontua.
Segundo Ouvidio, o período da trezena, além das comemorações, é destinado para a aproximação dos devotos ao santo. Antes mesmo do início da festividade, o pensamento da aposentada Maria Margarida de Paula já estava voltado para a programação. A senhora, que há anos atrás, já foi secretária na paróquia que hoje visita como voluntária, mantém a devoção. “Sou devota de Santo Antônio há quarenta anos”, sorri. “Eu comecei minha devoção por ele quando recebi um manual em que dizia que ele seria meu guia para o resto de minha vida”.
Há vinte anos, a grande imagem de Santo Antônio descansa todos os dias em frente à cama de Margarida. Ao acordar, pela manhã, uma oração destinada ao santo é certa. Além da rotina, sempre que necessita de ajuda, ela recorre a quem tem como amigo. “Toda a minha vida é dedicada a ele. Mais do que devota, eu sou amiga dele, ele já me conhece”, diz sorrindo.
Margarida lembra ainda de uma graça alcançada. “Quando a minha filha ia fazer 15 anos, eu estava sem dinheiro, mas rezei pra ele e consegui fazer a festa pra minha filha”, lembra. “Na época, a dona do salão que contratei me disse ‘Santo Antônio abranda os males’. E abranda mesmo”.
As histórias de graças alcançadas também são muitas na família da professora aposentada Consolação Silva. No dia anterior ao início das festividades de Santo Antônio, uma parte especial da estante da sala já estava preparada. Com uma delicada toalha de crochê branco, flores e terços, enfeitam o lugar destinado aos santos juninos. “Quando inicia a trezena, eu arrumo eles aqui. Primeiro o Santo Antônio, tenho fotos de São João, São Paulo, São Pedro”, afirma. “Eu até hoje faço o meu mingauzinho que alguns parentes vêm comer. O importante é manter a fé”, acredita. “Só a graça de eu viver até hoje – já tô com 81 anos – é muito grande”.
De acordo com o professor de ciência da religião, José Mangoni, aqui a relação entre a religião e as festas juninas é bastante intensa e é decorrente de uma relação histórica. “Esse sincretismo presente no Brasil decorre dos portugueses que interligam muito a questão religiosa e a da festa”, afirma. “A festa junina é muito referida a João Batista e ele acaba se sobressaindo na questão cultural mais que na religiosa”.
Segundo ele, os santos juninos, para a cultura brasileira, são os santos das grandes festas. “No Brasil, principalmente no Norte e no Nordeste, os santos juninos carregam um vínculo muito grande com a festa”, complementa. (Diário do Pará)
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