Um cenário de extrema pobreza que denota a falta de investimentos em infraestrutura e saneamento básico. Centenas de casas – em estilo palafita – construídas nas margens dos canais da cidade, por onde passam lixo e dejetos despejados ali sem cuidados. É dentro deste contexto de precariedade que vivem os moradores no entorno do canal do Tucunduba, entre a rua 2 de Junho (Terra Firme) e a passagem Gracinha (Canudos), na periferia de Belém.
O local é um exemplo prático de como está Belém de acordo com o estudo sobre as características urbanísticas no entorno dos domicílios brasileiros, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), um dos resultados do Censo 2010. A pesquisa revelou que Belém está entre as capitais brasileiras que apresentaram os piores índices no que se refere à urbanização e o saneamento ao redor dos domicílios por onde transitam pedestres. Em síntese, o IBGE confirmou que a capital paraense está com as ruas mal iluminadas, sem arborização e boa parte das residências está localizada em áreas com extensos esgotos a céu aberto e com lixos acumulados nas calçadas.
De acordo com o analista de informação do IBGE, Marco Aurélio Arbage, a pesquisa foi feita antes de os recenseadores do Instituto iniciarem a coleta de informações para o Censo. “Em 2010, nós enviamos uma equipe de técnicos para percorrerem as vias por onde os recenseadores iam passar e eles tiveram que fazer um levantamento das áreas. Na verdade, foi uma pré-coleta de dados feita por onde os pedestres circulam”, explicou.
“O resultado foi que Belém é uma das capitais que apresentam os piores índices de urbanização”, resumiu Marco Aurélio.
O autônomo David Ferreira, 63, vive a realidade apontada pela pesquisa. Ele mora há 16 anos em uma palafita as margens do Tucunduba e diz já está acostumado com o cenário que vê da janela de sua casa. “Se abrirmos a janela, vemos um canal sujo, cheio de lixo e fedorento. Mas, depois de tantos anos aqui, a gente praticamente já se acostumou e nem percebe mais tanta sujeira”, comenta.
A residência do autônomo está dentro dos 44,5% de domicílios de Belém que estão cercados de esgoto a céu aberto. O número é quatro vezes maior que a média nacional. Para piorar a situação, quase todas as residências às margens do canal do Tucunduba não possuem um sistema de esgoto ou de fossa. Todos os dejetos são despejados diretamente no canal.
Quando os técnicos do IBGE percorreram as ruas da cidade, incluindo a rua onde David mora, o primeiro ponto observado foi a carência de identificação dos logradouros (nomes das vias e número das casas). Em comparação com as demais capitais e com o Distrito Federal, a Belém é a segunda pior capital a identificar os domicílios - com apenas 35,27% de suas casas identificadas. Perde apenas para Maceió (AL). A média nacional foi de 60,5%.
FALTA COMPROMISSO
Outro cenário para os problemas urbanos enfrentados por Belém é possível, desde que haja cooperação entre as três esferas do Executivo. Pelo menos é nisso que acredita o diretor da faculdade de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), Juliano Ximenes. Para ele, a atual situação apontada pela pesquisa é reflexo, especificamente, dos dois últimos mandatos da administração pública. “A deficiência em investimentos é crônica na capital paraense, ainda mais sabendo do quadro de miséria que temos em nossa cidade. Sabemos que o principal problema é o tratamento de água e o esgotamento sanitário”, explica.
Segundo o professor, é necessário estabelecer uma agenda de compromisso a ser cumprida em parceria com os governos. Juliano critica projetos em andamento na cidade, como o BRT e o Portal da Amazônia. “São ações arbitrárias e impositivas que pouco têm a ver com o povo. Afinal, é só acompanhar a forma como estão sendo implantados. O BRT não tem projeção de impactos e o Portal é questionável porque é claramente mal conduzido”, dispara.
O estudo mostra ainda que Belém é a quarta capital mais suja do Brasil, ficando atrás de Macapá (AP), Porto Velho (RO) e Natal (RN). Mais da metade dos domicílios de Belém, exatos 53,2%, não possuem bueiros ao seu redor. Este índice também foi superior à média nacional, que ficou em 41,5%. No ranking nacional, a cidade ficou em décimo lugar.
Em relação a este dado, a Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) informou, através de nota, que estes entulhos estão localizados nos pontos críticos nos quais o órgão intensificou a fiscalização através de câmeras de vigilância. A Sesan divulgou ainda que recolhe diariamente 1,2 toneladas de lixo doméstico todos os dias. Além disso, retira 700 toneladas de entulhos das vias públicas da cidade.
Sobre a iluminação pública, o titular da Secretaria de Municipal de Urbanismo (Seurb), Fernando Pereira, afirma que do ano de 2010, período em que foi coletada a mostragem, até hoje já foram instalados mais de 32 mil pontos de iluminação.
Árvores e calçadas são artigos de luxo
A pesquisa do IBGE também apresentou resultados precários no que se refere a manutenção das vias públicas da cidade. Em relação a pavimentação, calçamento e meio-fio, Belém ficou muito abaixo da média nacional e também entre as piores capitais quando o assunto é urbanização.
Se voltarmos à casa do autônomo David Ferreira, vamos constatar novamente os problemas. A via que passa ao lado da residência dele (2 de Junho) recebeu uma camada de asfalto em 2008, exatamente na época da campanha eleitoral para prefeito, mas já apresenta sinais de deterioração.
Já na alameda que fica em frente a sua casa, falta asfalto, meio-feio, calçada, canteiro e uma rede de esgoto.
Do total de domicílios brasileiros, 81,7% deles apresentação ruas pavimentadas em seu entorno. Em Belém, este índice é de apenas 69,9%. Em relação ao calçamento, apenas a metade das residências (51,2%) na cidade possuem calçadas. As ruas com meio-fio, somente 53,1%.
ARBORIZAÇÃO
Para Marco Aurélio Arbage, um dos resultados mais preocupantes das pesquisas se refere à arborização de Belém, que ficou com uma média muito baixa. Apenas 22,4% das residências na capital paraense possuem árvores em seu entorno – número três vezes menor que a média nacional, que ficou em 68%.
“Este fato é complexo porque Belém é uma cidade que está dentro da floresta amazônica e não ter um número suficiente de árvores em suas vias é algo preocupante”, frisou o analista de informações.
As árvores funcionam como reguladoras térmicas naturais. A ausência delas do espaço urbano gera um aumento na sensação de calor. (Diário do Pará)
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