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Familias do lixão batalham por alimentação

Uma carne achada no meio do lixão do Aurá saciou por três dias a fome da família de Maria Antônia de Souza, com idade indefinida a partir dos 50 anos, como ela mesma diz. Muitas vezes é assim, com restos do que cata no lixão que a maranhense consegue o qu

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Uma carne achada no meio do lixão do Aurá saciou por três dias a fome da família de Maria Antônia de Souza, com idade indefinida a partir dos 50 anos, como ela mesma diz. Muitas vezes é assim, com restos do que cata no lixão que a maranhense consegue o que pôr na mesa para os três filhos e dois netos que se espremem no barraco de um cômodo, abarrotado de objetos recolhidos do Aurá. A coleta mal faz com que a renda da família chegue a R$ 150 por mês. Comer, então, se torna mais do que um hábito, uma necessidade comemorada diariamente.

“Tem dia que não tem nada e as crianças choram de fome e eu não sei o que dar para elas”, diz Maria Antônia, nome e sobrenome tão brasileiros como a pobreza que ainda é sombra e ameaça diária para muitos.

Maria tem o lixão do Aurá quase como quintal. É nele que busca rendas e soluções. Vai catando coisas que possam ser vendidas depois. No colchão surrado e de cheiro azedo, empilha bonecas de braços amputados, cabelos desgrenhados e tamanhos uniformes. Algumas servem para que Gabriele, de 6 anos, brinque. A maioria, no entanto, é para abastecer o ‘beg’, a imensa saca que precisa estar cheia para render R$ 15,00.

“Antes um ‘beg’ rendia vinte. Agora diminuíram o preço”. Dois netos não possuem certidão de nascimento. É como se não existissem. A invisibilidade social e cidadã faz com que não possam estudar. Mas Natanael, de cinco anos, reclama lugar no espaço. Teima em se mostrar visível. Em ter fome.

Natanael não grita. Chora. E Maria chora com a dor do neto. A solução é simples. Um prato de comida pelo menos duas vezes por dia. Mas nem sempre isso é possível. A coleta de material reciclável não é suficiente. “Dá um tostãozinho no final de semana”, diz Maria. Com isso, coisas simples não fazem parte da dieta da família. Leite, por exemplo. Feijão, arroz e farinha se tornam a base de quase tudo. Frutas e verduras, só as que são catadas no lixão.

O Aurá é o que também alimenta a família do também maranhense Ivaldo Costa, 43 anos. Todos os dias levanta cedo e vai até o lixão. São seis horas pela manhã. Mais umas quatro à tarde. As dez horas de coleta em média não rendem sequer um salário mínimo por mês. A renda é complementada com os R$ 134,00 do programa Bolsa-Família. São os filhos de 8 anos, 3 anos e o mais novo, de apenas oito meses, que garantem esse adicional financeiro. Mesmo assim, chegar ao final do mês com a comida na mesa é quase sempre uma equação difícil de resolver.

“Tem dia que pega, que a coisa aperreia”, diz Ivaldo, pele tostada pelo sol. A mulher, Débora Cristina, 28 anos, confirma. “Tem dia que a gente fica doidinho, porque é assim, quem é grande, quem já é adulto, sabe segurar, mas criança, não. Criança não sabe o que acontece”.

Tentativas diárias de sobreviver com o mínimo
Na filosofia simples de quem conhece e chama a pobreza com pronomes pessoais tão indesejavelmente próximos, adultos tentam sobreviver com o mínimo. E crianças buscam nesse mínimo sustentar a própria existência. É um desafio cuja lógica não é possível de ser bem explicada.

“Quando a presidente Dilma Rousseff anuncia, por exemplo, programas de combate à fome e à pobreza e fala da região Norte, esquece de dizer que 70% dos recursos para esses programas ficam nas regiões Sul e Sudeste”, diz a nutricionista Rosilene Reis, pesquisadora da Universidade Federal do Pará.

É a região que mais sofre com a desnutrição. Segundo a última Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), feita em 2008, o baixo peso para altura ainda atinge cerca de 1,7% da população infantil, sendo que o maior percentual foi encontrado na região Norte: 3,4%. Consequência direta da falta de alimentação adequada.

Se afeta o desenvolvimento de crianças de forma mais intensa, a fome também cerca pessoas idosas. Na outra ponta desta corda, onde só há mais fracos, Maria Joana da Silva, 68 anos, sobrevive de um auxílio-idoso, como ela chama, uma espécie de aposentadoria. Mora numa casa de um cômodo apenas, feita de madeira, próxima ao lixão do Aurá. Na geladeira, restos de comida do dia anterior ainda seriam aproveitados.

Como outras marias, Joana se acostumou com as dificuldades. “Já teve muitos dias que não teve nada pra comer”, diz, no português atropelado. “Mas Deus sempre socorre. Se não tem pela manhã, a tarde aparece. Foi assim que criei meus filhos”, diz ela.

Maria Joana já trabalhou muito. Atualmente, sem forças nos braços para a ‘lida’, vive do dinheiro do auxílio. A fome é saciada muitas vezes com a sopa improvisada do que sobra, do que nem deveria mais estar indo à panela, mas que enche o prato de mais uma Maria que, solidária, ainda oferece o pouco que tem. “Quer comer, meu filho?”, diz, indo em direção à geladeira.

(Diário do Pará)

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